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ENTRE SOMBRAS E PECADOS

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CAPÍTULO 16 — O PACTO

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CAPÍTULO 16 — O PACTO

A chuva começou pouco depois das dez da noite.

Não era uma chuva forte.

Era daquelas que pareciam existir apenas para deixar a cidade mais silenciosa.

Blackwood ficava diferente durante a chuva.

As ruas antigas brilhavam sob os postes.

As casas pareciam maiores.

As árvores escondiam os muros.

E as sombras pareciam ter vontade própria.

Yasmin estava sentada no banco de madeira em frente à biblioteca municipal.

O livro que havia levado estava fechado sobre suas pernas.

Ela não conseguia ler.

Sua cabeça estava em outro lugar.

Na fotografia que Aurora havia recebido.

No nome Hale.

No Projeto Blackwood.

E, principalmente, em Liam.

Ela não sabia explicar exatamente quando ele havia começado a ocupar tanto espaço dentro dela.

Talvez tivesse sido na infância.

Talvez nunca tivesse deixado de ocupar.

Yasmin fechou os olhos.

Uma lembrança surgiu.

Um menino correndo pelo jardim.

Cabelos crespos bagunçados.

Um sorriso enorme.

Uma camiseta suja de terra.

Liam.

Ele tinha oito anos.

Ela tinha sete.

— Yasmin! Corre!

— Espera!

— Você é muito lenta!

— Eu estou de vestido!

Ele parou.

Olhou para ela.

Depois voltou correndo.

— Então sobe nas minhas costas.

Yasmin riu.

— Você não consegue me carregar.

— Consigo.

— Não consegue.

— Quer apostar?

Ela subiu.

Liam quase caiu.

Os dois começaram a rir.

Yasmin abriu os olhos.

A lembrança desapareceu.

Mas o sorriso permaneceu.

Ela tocou os próprios lábios.

— Você ainda faz isso...

Uma voz respondeu atrás dela:

— Faço o quê?

Yasmin se assustou.

Virou.

Liam estava parado alguns metros atrás.

Casaco escuro.

Cabelo molhado.

Olhar sério.

Mas havia algo diferente.

Um pequeno sorriso no canto da boca.

— Você sempre morde o lado esquerdo do lábio quando está tentando não sorrir.

Yasmin ficou imóvel.

— Como você sabe disso?

Liam se aproximou.

— Porque você fazia isso quando criança.

Ela desviou o olhar.

— Você lembra?

— Algumas coisas.

— Eu lembro de mais coisas do que você imagina.

Ele sentou ao lado dela.

Durante alguns segundos, os dois ficaram em silêncio.

A chuva continuava.

— Eu estava pensando naquela época — disse Yasmin.

— Eu também.

Ela virou o rosto.

— Você lembra do jardim?

Liam sorriu.

— O jardim da casa antiga?

— Sim.

— Você odiava quando eu subia naquela árvore.

— Porque você quase caiu.

— Eu não ia cair.

— Você caiu.

— Eu pulei.

Yasmin riu.

— Você era convencido.

— E você continua sendo a única pessoa que teve coragem de me chamar assim.

Ela olhou para ele.

— Talvez porque eu nunca tive medo de você.

Liam ficou sério.

— Talvez devesse ter.

— Eu sei.

O silêncio voltou.

Mas dessa vez não era desconfortável.

Era íntimo.

Como se os dois estivessem sentados naquele banco havia anos.

---

A PROMESSA

— Liam?

— Hm?

— Por que você desapareceu?

Ele olhou para ela.

— Quando?

— Depois que sua mãe desapareceu.

O rosto dele mudou.

Yasmin percebeu.

— Desculpa.

— Não.

Ele respirou fundo.

— Você tem direito de perguntar.

— Eu lembro que você simplesmente parou de aparecer.

— Meu pai me mandou para longe.

— Para onde?

— Outra cidade.

— Por quê?

Liam olhou para a rua.

— Ele disse que precisava me proteger.

Yasmin franziu a testa.

— Proteger de quê?

— De pessoas que estavam procurando por mim.

— Quem?

Liam demorou.

— Nunca descobri.

Ela ficou olhando para ele.

— E você nunca tentou voltar?

— Tentei.

— Quando?

— Muitas vezes.

— Então por que não voltou?

Liam sorriu sem humor.

— Porque todas as vezes alguém me encontrava primeiro.

Yasmin sentiu um arrepio.

— Quem?

— Não sei.

— Você nunca descobriu?

— Ainda não.

Ela abaixou os olhos.

— E agora?

Liam olhou diretamente para ela.

— Agora eu acho que essas pessoas nunca pararam de procurar.

---

DUAS VERDADES

Liam tirou uma pequena caixa do bolso.

Colocou sobre o banco.

Yasmin olhou.

— O que é?

— Uma coisa que encontrei.

Ela abriu.

Dentro havia uma pulseira antiga.

Era simples.

Uma pequena peça de metal em forma de estrela.

Yasmin arregalou os olhos.

— Eu conheço isso.

Liam assentiu.

— Era sua.

Ela pegou a pulseira.

A lembrança veio imediatamente.

Dois adolescentes sentados no chão de uma casa abandonada.

Yasmin chorando.

Liam segurando a pulseira.

— Para de chorar.

— Eu não consigo.

— Então segura isso.

— O que é?

— Minha sorte.

Ela riu entre lágrimas.

— Você acredita nisso?

— Agora acredito.

— Por quê?

Ele colocou a pulseira no pulso dela.

— Porque você está aqui.

Yasmin voltou ao presente.

Seus olhos estavam marejados.

— Você guardou isso?

— Durante anos.

— Por quê?

Liam demorou.

— Porque foi a última coisa que você me deu antes de eu desaparecer.

Yasmin passou o polegar pela estrela.

— Eu não lembrava.

— Eu sei.

— Por que não?

— Talvez alguém tenha feito você esquecer.

Ela ergueu os olhos.

— Isso não faz sentido.

— Em Blackwood, quase nada faz.

---

O PACTO

Yasmin respirou fundo.

— Então vamos fazer um acordo.

Liam arqueou uma sobrancelha.

— Que tipo de acordo?

— Sem mentiras.

Ele ficou quieto.

— Você consegue?

— Não prometo.

— Então não vale.

Liam observou Yasmin por alguns segundos.

Depois assentiu.

— Tudo bem.

Ela estendeu a mão.

— Uma verdade de cada vez.

Liam apertou sua mão.

— Uma verdade de cada vez.

— E se uma verdade doer?

— A gente enfrenta.

— E se colocar alguém em perigo?

— A gente decide juntos.

Yasmin apertou a mão dele.

— Juntos.

Liam não soltou.

Por alguns segundos, ficou olhando para os dedos entrelaçados.

Depois disse:

— Primeira verdade.

Yasmin esperou.

— Eu nunca parei de procurar minha mãe.

Ela respirou fundo.

— Segunda verdade.

Liam esperou.

Yasmin olhou para ele.

— Eu nunca parei de amar você.

Ele ficou imóvel.

A chuva parecia ter desaparecido.

Liam soltou lentamente o ar.

— Yasmin...

Ela imediatamente desviou o olhar.

— Esquece.

— Não.

— Eu não devia ter falado.

— Devia.

Ela voltou a encará-lo.

— Por quê?

Liam respondeu baixo:

— Porque passei metade da minha vida acreditando que tinha perdido você também.

Yasmin sentiu os olhos encherem.

— Você nunca me perdeu.

Liam aproximou a mão do rosto dela.

Parou antes de tocar.

— Não sei se isso é verdade.

— É.

Ele tocou uma mecha do cabelo dela.

Colocou atrás de sua orelha.

Yasmin ficou imóvel.

Liam sorriu.

— Você ainda faz isso quando está nervosa.

— O quê?

— Mexe no cabelo.

Ela percebeu que estava fazendo exatamente aquilo.

— E você ainda percebe.

— Eu percebo tudo em você.

Ela sentiu o coração acelerar.

Mas dessa vez não desviou.

---

A CASA DA INFÂNCIA

No dia seguinte, Yasmin recebeu uma mensagem.

Era de Liam.

"Você lembra da casa azul?"

Ela respondeu:

"Aquela perto do lago?"

"Sim."

"O que tem ela?"

Demorou alguns segundos.

"Acho que devemos voltar."

Yasmin não sabia por quê.

Mas aceitou.

A antiga casa ficava afastada da cidade.

Era pequena.

Abandonada.

A pintura azul estava descascando.

As janelas quebradas.

O jardim tomado pelo mato.

Yasmin parou diante do portão.

— Eu não venho aqui há anos.

Liam ficou ao lado dela.

— Eu também.

— Você lembra?

— Lembro de algumas coisas.

Eles entraram.

O cheiro de madeira velha tomou o ambiente.

Yasmin passou os dedos pela parede.

— Aqui.

— O quê?

— Eu escondia meus desenhos aqui.

Liam olhou para ela.

— Você desenhava muito.

— Ainda desenho.

— Eu sei.

Ela virou.

— Como?

— Eu vi alguns.

— Onde?

Ele ficou em silêncio.

Yasmin estreitou os olhos.

— Liam.

— Não foi recentemente.

— Quando?

— Alguns anos atrás.

Ela se aproximou.

— Você me observava?

— Às vezes.

— Isso deveria me assustar?

— Provavelmente.

Ela quase sorriu.

— Você é impossível.

Liam olhou para uma parede.

— Aqui tinha uma porta.

— Uma porta?

— Sim.

Ele passou a mão pela parede.

— Eu lembro.

Yasmin se aproximou.

— Não tem nada aqui.

— Tinha.

Ele bateu na madeira.

Som oco.

Os dois se olharam.

Liam repetiu.

Toc.

Toc.

Toc.

Uma parte da parede parecia diferente.

Yasmin sentiu o coração acelerar.

— Tem alguma coisa aí.

Liam encontrou uma pequena abertura.

Atrás dela havia um compartimento.

Dentro...

uma caixa.

---

O QUARTO

Eles abriram a caixa.

Havia fotografias.

Desenhos.

Cartas.

E uma pequena fita cassete.

Yasmin pegou uma fotografia.

Era dos dois.

Crianças.

Sentados no chão.

Atrás deles, uma mulher.

A mãe de Liam.

Yasmin aproximou a fotografia do rosto.

— Ela conhecia minha família.

— Sim.

— Por que ninguém contou?

Liam não respondeu.

Outra fotografia caiu.

Nela apareciam quatro crianças.

Liam.

Yasmin.

Dominic.

E uma quarta criança.

Yasmin franziu a testa.

— Quem é?

Liam pegou a fotografia.

Seu rosto perdeu a cor.

— Eu não lembro.

— Você conhece?

— Não.

No verso havia uma inscrição:

M-04.

Liam fechou a mão.

— A chave.

— O que tem a chave?

— A etiqueta da chave que encontramos.

Yasmin ficou em silêncio.

— Então isso não começou agora.

— Não.

— Começou quando éramos crianças.

Liam olhou para a fotografia.

— Talvez antes.

---

DOMINIC

Enquanto Liam e Yasmin descobriam a caixa, Dominic estava sentado sozinho em seu quarto.

A mão ainda tinha um pequeno corte.

Ele observava a fotografia que recebera.

A mesma criança desconhecida aparecia ao lado dele.

Dominic fechou os olhos.

A lembrança voltou.

Um corredor.

Uma porta.

A voz do pai.

"Você não viu nada."

Dominic criança chorava.

— Mas eu vi.

— Não viu.

— Minha mãe estava lá.

O pai segurou seus ombros.

— Escute bem.

Dominic tentou se afastar.

— Eu quero ela.

— Ela foi embora.

— Mentira!

O pai apertou seus braços.

— Pessoas que fazem perguntas demais perdem tudo.

Dominic parou de chorar.

Foi naquele momento que aprendeu.

Perguntas eram perigosas.

Sentimentos eram perigosos.

Perder o controle era perigoso.

Então ele começou a controlar tudo.

Primeiro seus brinquedos.

Depois seus amigos.

Depois as pessoas.

E, finalmente, Aurora.

Dominic abriu os olhos.

Uma lágrima caiu.

Ele pegou o celular.

Digitou uma mensagem para Aurora.

"Desculpa."

Ficou olhando.

Apagou.

Digitou novamente.

"Eu sei que estou te perdendo."

Apagou.

No fim, não enviou nada.

Porque pedir desculpas significava admitir que estava errado.

E Dominic ainda não sabia quem era quando não estava certo.

---

A FITA

De volta à casa azul, Liam encontrou um aparelho antigo.

Colocou a fita.

O som estava cheio de ruídos.

Depois uma voz surgiu.

Uma voz feminina.

Yasmin arregalou os olhos.

— É sua mãe?

Liam assentiu.

A gravação continuou.

— Se alguém encontrar isso...

Pausa.

— Significa que o plano falhou.

Yasmin olhou para Liam.

A voz continuou:

— As crianças não podem saber a verdade ainda.

Liam ficou imóvel.

— Crianças?

— Se o Projeto Blackwood for descoberto, eles serão usados como moeda.

A gravação chiou.

Depois:

— Liam não pode confiar no pai.

Yasmin levou a mão à boca.

A voz ficou mais baixa.

— E Yasmin...

Silêncio.

— Yasmin nunca deveria ter sido envolvida.

A fita parou.

Liam ficou olhando para o aparelho.

— Não.

Yasmin segurou seu braço.

— Liam.

— Ela sabia.

— Sabia o quê?

— Que você estava envolvida.

Yasmin olhou para a caixa.

— Então por que ninguém me contou?

Liam respondeu:

— Porque talvez você não devesse lembrar.

Ela sentiu um arrepio.

— O que fizeram com a gente?

Liam não respondeu.

Porque, pela primeira vez, ele também estava com medo da resposta.

---

A ÚLTIMA LEMBRANÇA

Yasmin tocou novamente na fotografia.

E então lembrou.

Não de tudo.

Apenas de uma noite.

Ela estava escondida debaixo de uma mesa.

Liam estava ao lado.

Ele segurava sua mão.

Havia adultos discutindo.

Uma mulher chorava.

Um homem gritava.

Depois, alguém abriu a porta.

Liam sussurrou:

— Não olha.

Yasmin criança perguntou:

— Por quê?

— Porque eles vão saber que você lembra.

— Lembra do quê?

Liam olhou para ela.

— Da menina.

Yasmin franziu a testa.

— Que menina?

A lembrança terminou.

Ela voltou ao presente ofegante.

Liam segurou seus ombros.

— Yasmin?

Ela olhou para ele.

— Tinha uma menina.

— O quê?

— Naquela noite.

— Qual menina?

— Eu não sei.

Liam ficou imóvel.

— Eu também lembro.

— Você lembra dela?

— Não.

— Então por que você disse isso?

Liam olhou para a fotografia.

A criança desconhecida.

M-04.

Ele finalmente entendeu.

— Porque talvez aquela menina seja a chave para tudo.

Yasmin apertou sua mão.

— Então vamos encontrar.

Liam olhou para ela.

Durante anos, havia procurado respostas sozinho.

Dessa vez seria diferente.

— Juntos.

Ela sorriu.

— Juntos.

Mas nenhum dos dois percebeu que, do lado de fora da casa azul, alguém observava pela janela.

Uma figura permaneceu imóvel entre as árvores.

Segurava uma fotografia antiga.

Na fotografia estavam Liam e Yasmin.

No verso havia uma frase:

"Eles estão começando a lembrar."

A pessoa dobrou o papel.

E desapareceu na escuridão.

Dentro da casa, Liam colocou a fotografia no bolso.

Yasmin segurou sua mão.

E, pela primeira vez, os dois entenderam que o passado não estava simplesmente esperando para ser descoberto.

Ele estava vindo atrás deles.

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