Há um corpo que me carrega,
feito de células,
de sangue,
de ossos,
de fome e de cansaço.
E há outro que observa.
Silencioso,
habitando o mesmo espaço,
olhando através dos olhos
como quem contempla o mundo
de dentro para fora.
Talvez eu o chame de alma.
Um corpo pede alimento.
O outro pede sentido.
A carne se nutre do pão,
da água,
dos frutos da terra.
E a alma se alimenta
daquilo que não cabe nas mãos:
da sabedoria,
da experiência,
do silêncio,
das perguntas
e das respostas que ainda não nasceram.
Talvez a paz não seja
fazer um deles desaparecer.
Talvez seja aprender
a escutar os dois.
Quando o corpo sente fome,
alimentá-lo.
Quando a alma sente vazio,
oferecer-lhe conhecimento.
Quando a carne pede descanso,
permitir-lhe repousar.
Quando a alma pede compreensão,
não fugir do silêncio.
Talvez viver seja isso:
dois mundos compartilhando
uma mesma morada,
a matéria caminhando pela Terra
e o observador caminhando dentro dela.
E talvez a paz aconteça
quando eles deixam de disputar
quem deve conduzir a vida
e começam a caminhar juntos,
em concordância,
em sintonia,
como se, por um instante,
o corpo compreendesse a alma
e a alma finalmente
aprendesse a habitar o corpo.
Então já não somos
carne de um lado
e espírito do outro.
Somos um encontro.
Um universo inteiro
vivendo dentro de nós.