Eu estava na minha era de ouro. As pessoas que eu procurava pelo mundo à toa eram gemas a adornar minha trama. Durante os meus sonhos, eu me via a experimentar toda a figueira que Plath, em vida, citou. Eu experimentei cada figo suculento ao meu alcance, mas minha indecisão interna impediu-me de devorar algum por completo. Diziam-me até que eu era uma orquestra de indecisões, desafinando as rotas e levando o meu ouro afora.
Os arco-íris me fascinavam pelo que poderia existir em seus fins. Eles eram formados após torrentes que esvaíam dos meus olhos de pura maresia. Ao percorrer em direção aos seus arcos, faltaram-me cores a preencher os caminhos de ilusões que eu fingia não conhecer, embora eu fosse conhecido por ser um camaleão impossibilitado de se ver.
Em cristais a cintilar, vi os meus sonhos se despedaçando. Quando você percebe a finitude do seu legado, não há mais nada que lhe faça sentir o desespero de perder algo sobre si. A poeira fora espanada pelos mesmos que me fizeram sonhar e sorrir, restando apenas vidros que sequer chegam a tinir.
Efêmero, eu sempre fui, a ponto de não me reconhecer como permanente. Meu legado é ser alguém passageiro, percorrendo capítulos e versos das mais diversas obras. Com um “aproveite o agora”, eu os cito, enquanto mudo a página em busca de novos livros.
De uma tragédia que não era para ser minha, fui posto como mártir, mas encontros em novas rotas me fizeram assumir alguém que não deveria existir. Não há uma bússola apontando o norte, apenas a estrada sinuosa, sem destino à vista, encontrando estranhos prestes a se esvaírem e realizando os nossos desejos mais profundos, que não tínhamos medo de admitir.
Eu sou porra-louca. Muitos jamais atravessarão águas dantescas em busca de prazeres — prazeres que me deixaram vivo no ponto de quase morrer. Eu atravessei. Estou vivendo e acenando para a morte, como todos nós deveríamos aceitar o fim inevitável.
Quando me livrei dos adornos de outrora, pus-me a catar os meus cacos, furtar dos outros o ouro que foi meu. E um Kintsugi restou como um lamento do que se perdeu — tão belo e trágico, esse que você não conheceu.