Eu não sabia explicar o que tinha acontecido comigo. Era como se, de repente, alguma coisa dentro de mim tivesse despertado, algo que eu nem sabia que existia.
Tudo começou quando vi a cuidadora aproximando da mesa. Eu estava tentando conversar com ela, mas percebi que não estava sendo um bom momento. Então, fiquei quieto, embora uma inquietação estranha tivesse tomado conta de mim.
Quando terminamos de almoçar, permaneci sentado por alguns minutos, observando Neithan. Meu irmão parecia mais irritado do que o normal, e eu não conseguia entender o motivo. Havia alguma coisa errada naquela casa. Eu sentia isso, mesmo sem conseguir explicar.
Foi quando a cuidadora entrou na cozinha.
Eu não me lembro exatamente do que aconteceu depois. É como se minha memória tivesse sido apagada por alguns segundos.
De repente, senti um cheiro diferente no ar.
Sangue.
Não sei por que aquela palavra surgiu tão claramente na minha cabeça, mas, assim que senti aquele cheiro, alguma coisa mudou. Meu coração começou a bater depressa, minha respiração ficou descontrolada e uma sensação absurda de fome tomou conta de mim.
Não era fome de comida.
Era algo muito pior.
Olhei para a cuidadora e percebi um pequeno corte nela. Uma gota vermelha escorria por sua pele, e meus olhos ficaram presos naquele detalhe.
Eu não conseguia desviar o olhar.
— Eithan?
ouvi Neithan me chamar.
Não respondi.
Tudo o que eu conseguia ouvir era o som do sangue correndo pelas veias dela. Era impossível aquilo ser real, mas eu podia ouvir. Cada batida parecia ecoar dentro da minha cabeça, ficando mais alta, mais insistente.
Eu queria me aproximar.
Não! Eu precisava me aproximar.
Quando percebi, já estava dando um passo na direção da cuidadora.
— Eithan, o que você está fazendo?
ela perguntou, recuando assustada.
A voz dela deveria ter me feito parar, mas, naquele momento, parecia distante. Eu não conseguia pensar direito. Havia uma parte de mim gritando para que eu me afastasse, enquanto outra parecia ter assumido o controle do meu corpo.
Os pratos caíram no chão.
O barulho foi ensurdecedor, mas não o suficiente para afastar aquela sensação.
— EITHAN!
Dessa vez, reconheci a voz de Neithan.
Senti suas mãos apertarem meu braço, tentando me puxar para trás. Tentei me soltar, irritado por ele estar me impedindo de chegar mais perto. Eu nunca tinha sentido tanta raiva, muito menos do meu próprio irmão.
— Me solta!
rosnei, sem sequer reconhecer minha própria voz.
Neithan me encarou e ele estava com os olhos pretos fazendo força pra me tira daquele lugar.
E isso deveria ter me feito parar.
Mas não fez.
Ele me puxou com força para fora da cozinha, enquanto eu lutava contra ele sem entender de onde vinha tanta força. Quando finalmente chegamos ao quarto, Neithan fechou a porta e ficou na minha frente.
— Que droga foi aquela?!
ele perguntou, segurando meus ombros.
— Você enlouqueceu?
— Eu não sei!
respondi, levando as mãos à cabeça.
— Eu não sei o que aconteceu comigo!
Minha voz falhou.
Eu estava assustado. Muito assustado.
Olhei para minhas mãos, esperando encontrar alguma explicação para o que havia acontecido, mas elas pareciam perfeitamente normais. Eu continuava sendo eu. O mesmo Eithan de sempre, o irmão gentil que tentava evitar brigas e que jamais faria mal a alguém.
Então, por que eu tinha sentido vontade de atacar a nossa cuidadora?
— Você olhou para ela como se quisesse...
Neithan começou, mas interrompeu a frase, desviando o olhar.
— Como se quisesse o quê?
perguntei, desesperado por uma resposta.
Ele ficou em silêncio.
Aproximei-me da janela, tentando respirar, mas foi inútil. O cheiro ainda estava ali, impregnado em minha memória, e aquela fome estranha continuava crescendo dentro de mim.
Foi então que percebi outra coisa.
Eu conseguia ouvir os passos da cuidadora na cozinha . Conseguia ouvir sua respiração e até mesmo as batidas aceleradas de seu coração.
Afastei-me da parede imediatamente.
Aquilo não era normal.
Nada daquilo era normal.
— Neithan...
chamei baixinho.
— O quê?
Engoli em seco antes de continuar.
— Você está ouvindo isso?
Ele franziu a testa.
— Ouvindo o quê, Eithan?
Olhei para a porta, sentindo um arrepio percorrer minha espinha.
Eu não sabia como explicar. Não sabia o que estava acontecendo comigo e, principalmente, não sabia por que meus sentidos pareciam tão diferentes de repente.
— Esquece
murmurei.
Neithan continuou me observando, desconfiado.
E eu também comecei a desconfiar de mim mesmo.
Naquele momento, eu só queria voltar ao normal. Queria esquecer o que tinha acontecido na cozinha e fingir que tudo não passava de um pesadelo.