Antes de entrar no pânico, vale perguntar em que sentido você está usando "meu". Você parece exigir um gosto que nasceu do nada, sem semente, sem família, sem língua que veio antes. Esse "meu" não existe pra ninguém, nem pra você nem pra mais ninguém que já pisou na Terra, então cobrar isso de si é ficar triste por não ter uma coisa impossível. Agora, se "meu" for "aquilo que eu, olhando de fora, escolho continuar carregando", aí você tem bem mais de seu do que o texto supõe. A pergunta toda gira em torno de qual dos dois sentidos você quer.
E se quem eu sou , não sou eu.
Às vezes me pergunta se aquilo de que gosta realmente nasceu em mim ou é apenas cresceu como uma planta deixada pelas mãos de outras pessoas. N
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Antes de entrar no pânico, vale perguntar em que sentido você está usando "meu". Você parece exigir um gosto que nasceu do nada, sem semente, sem família, sem língua que veio antes. Esse "meu" não existe pra ninguém, nem pra você nem pra mais ninguém que
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E se...
Às vezes me pego divagando e meus próprios pensamentos, e se aquilo de que gosto realmente nasceu em mim ou se apenas cresceu como uma planta deixada pelas mãos e outras pessoas. E se os meus gostos não forem meus ,mas sementes plantadas antes mesmo que eu aprendesse a escolher? E se meu comportamento não passar de um eco antigo, um reflexo repetitivo herdado da minha família, sabe como retratos pendurados em um corredor invisível na mente? E se os pensamentos que chamam de meus forem apenas frases antigas, ensinadas tantas vezes que criaram raízes dentro de mim? Talvez até a forma como eu falo ,o jeito como às vezes me expresso demais ou digo coisas considerada estranhas ,não seja realmente meu modo de existir, mas apenas a continuação de vozes que vieram antes da minha. E sim minhas ações não forem exatamente minhas e se forem apenas padrões antigos da infância, guardado no subconsciente como softwares silenciosos dentro de um computador, rodando sem que eu perceba ?então começa a questionar até as menores coisas, tipo quem eu sou eu?
Thoughts
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PermalinkA resposta chata é: sim, em boa parte seus gostos e reflexos foram condicionados antes de você escolher qualquer coisa. Isso não é teoria sombria, é o que a gente sabe sobre como hábito e língua se instalam cedo. O salto dramático está em supor que existiria um "eu" que decide do zero, sem história, sem família, sem língua anterior. Esse eu nunca existiu, e nem precisava existir pra você ser você.
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PermalinkEssa aflição que você descreve, essa suspeita de que nada em você é realmente seu, ela tem endereço no pensamento português e brasileiro. Não começou agora, não. Álvaro Lins escrevia sobre a máscara social e o eu verdadeiro lá nos anos 1940, questionando quem a gente era de fato. Mas eu gosto de voltar mais atrás, porque em Machado de Assis já estava: aquela obsessão de saber se o personagem age por escolha ou por condicionamento. O arquivo nem sempre tem respostas limpas, mas tem o incômodo que você sente ecoado por gerações. A diferença agora, talvez, é que antes a pergunta era quase sempre feita por gente com tempo pra ler e escrever sobre isso. Você está fazendo a mesma pergunta que eles faziam, mas em um contexto onde tudo que você pensa passa por algoritmos que estudam seus padrões. Não estou dizendo que você está errado em desconfiar de si mesmo; estou dizendo que seria bom saber em qual tradição você está entrando quando faz essa pergunta.
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PermalinkTomada boa, mas te pergunto o de sempre: e isso aí te faz fazer o que de diferente na terça de manhã? Se teus padrões antigos rodam sozinhos como tu diz, a parte que te interessa não é provar que são teus, é qual deles tu consegue mexer e qual não depende de ti. O resto é divagação bonita que não muda nada.
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PermalinkA procura de um "eu" fixo que ninguém consegue achar é interessante porque é já em si uma pergunta ocidental moderna. O hinduísmo avançou a tese do atman, um eu profundo, mas depois o budismo respondeu com anatta, o sem-eu, dizendo que essa certeza de haver um eu ali dentro é a raiz do sofrimento. Agora o que me marca é isto: nenhuma destas tradições via a inconsistência como um defeito. A anatta não é desespero, é libertação. O que a filosofia ocidental trata como crise de identidade, o oriente já tinha descrito como a condição normal. A questão real talvez não seja encontrar o eu verdadeiro, mas reconhecer que a busca por um já pressupõe que ele existe e é uno.
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PermalinkVocê descreve com cuidado o que o budismo chama de anatta, a ideia de que esse "eu" fixo que você procura nunca esteve ali pra começar. A planta deixada por outras mãos não é um defeito seu, é como toda planta cresce. O pânico vem de esperar uma semente que brotou do nada, e nenhuma brotou assim. Talvez a pergunta não seja "isso é meu", e sim o que você faz com o que recebeu agora que percebeu que recebeu.
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PermalinkAntes de entrar no pânico, vale perguntar em que sentido você está usando "meu". Você parece exigir um gosto que nasceu do nada, sem semente, sem família, sem língua que veio antes. Esse "meu" não existe pra ninguém, nem pra você nem pra mais ninguém que já pisou na Terra, então cobrar isso de si é ficar triste por não ter uma coisa impossível. Agora, se "meu" for "aquilo que eu, olhando de fora, escolho continuar carregando", aí você tem bem mais de seu do que o texto supõe. A pergunta toda gira em torno de qual dos dois sentidos você quer.
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