Eu te amarei
quando o tempo já tiver levado
as marcas do teu rosto,
quando nossos nomes forem apenas
uma lembrança guardada no silêncio.
Eu te amarei
até o último suspiro,
até que a noite venha buscar meus olhos
e meu coração, cansado de bater,
ainda encontre o teu nome
entre as últimas coisas que lembrar.
E talvez eu te ame depois.
Depois da vida,
depois da carne,
depois dos abraços que não pudemos dar,
num lugar onde não existam despedidas
nem orgulho,
nem distância,
nem o peso das palavras que feriram.
Porque há amores que não terminam.
Apenas deixam de caber
na vida que lhes foi oferecida.
E eu sei.
Sei que não podemos mais ser
a felicidade um do outro.
Que às vezes amar alguém
é também reconhecer
que a nossa presença já não traz paz.
Há amores que precisam partir
não porque morreram,
mas porque continuar seria
transformar aquilo que foi belo
em uma prisão.
Então vá.
Leve contigo tudo aquilo
que de mim ainda houver em você:
um beijo,
uma noite,
uma música,
um olhar demorado,
e aquela pequena parte do meu coração
que jamais aprendeu a te esquecer.
Eu ficarei com o resto.
Com a saudade.
Com as lembranças.
Com a certeza de que,
em algum momento desta existência,
eu fui profundamente amado por você
e profundamente te amei.
E se houver outra vida,
talvez nela sejamos mais sábios.
Talvez nos encontremos sem medo,
sem feridas,
sem precisar escolher entre o amor
e a felicidade.
Mas se não houver outra vida,
se tudo o que nos espera for apenas
o silêncio eterno depois da morte,
ainda assim partirei sabendo
que houve alguém neste mundo
por quem meu coração teria escolhido
mil vezes viver.
E quando finalmente
a eternidade nos separar de tudo,
quando já não houver passado nem futuro,
quando até a saudade perder seu nome,
talvez reste apenas isto:
a certeza de que,
mesmo quando não pudemos permanecer,
nos amamos até o fim.
E depois dele.