A natureza humana não é oração, não é paz, nem calmaria. A natureza humana é se contorcer. Parece que Deus, ao nos colocar no mundo, olhou para o nosso corpo cheio de arestas e enxergou um inseto ou o que viria a ser um inseto. – Será que os insetos já existiam? Ou fomos a maquete que deu nesses seres marginais. Agora entendo o porquê das baratas gostarem de açúcar. Voltando para o olhar de Deus, provavelmente quando teve essa clarividência, seu corpo, que não é corpo, foi tomado por um desejo pueril, então ele pingou vinagre sobre a nossa pele: e aí o humano ficou estabanado, ia de um lado pro outro, contorcia-se, roía-se, não parou mais.
Essa natureza fica evidente nas criações humanas. Pensemos no surgimento do fogo. Você acha comum alguém passar dias e dias esfregando uma pedra em outra pedra, um graveto numa pedra, um graveto na terra? É claro que essa vagabundagem resultou em algo bom, como às vezes acontece, mas isso não vem ao caso. Eu quero salientar é para a dificuldade de se estacar, e simplesmente comer a sua carne fria e vermenta. O que teve um faraó, ou sei lá quem, ao ver um plano deserto e decidir reunir todos os escravos a fim de construir uma estrutura gigantesca que só havia na sua cachola, senão inquietação? O que são as novas reformas ortográficas senão inquietação? Pelo menos para garantir empregos.
Agora – eu conheço vocês – sei que estão com alguma ideia na ponta da língua para me contradizer. Tentando derrubar minha tese dirão coisas como: mas e as criações que a priori passariam calmaria, serenidade, tipo a bossa nova e o doce de coco? Para sedimentar a minha teoria, pegarei como exemplo a bossa nova. Realmente, em tese ela teria em seu DNA musical algo de tranquilo, de quem fica no arpoador vendo o pôr do sol, sem ter nada o que fazer. Porém, se perscrutarmos a sua criação perceberemos que ela não sai em nada da minha tese. Seu ritmo foi criado por João Gilberto, que após fracassar como cantor na sua primeira tentativa no Rio de Janeiro, se “exilou” em uma casa de conhecidos na Bahia. Onde ficou por meses trancafiado em um quarto, e até no banheiro, revirando, começando, procurando, algo de novo no violão. Ficou claro como o “não se acomodar” está presente no caso?.
Saindo do criador e indo ao público, este também não sai do compasso. As pessoas aderiram à bossa nova pois estavam inquietas, de só ouvirem no rádio os samba-canções melancólicos, que amalgamavam morte com amor, ao passo de você não mais saber quem é quem. Falar de brisa, mar e flor era uma boa.
A inquietação está no desejo, na vontade de ter algo, de ter um duplex. Os gênios são inquietos. O amor é fruto da inquietação, a busca por uma falta que não nasce conosco nem nos pode ser ensinada. Talvez o amor tenha se escorrido junto com o vinagre que Deus despejou no nosso corpo, e hoje nos falta. Os homens posteriormente denominaram essa ausência como “a metade da laranja”, o que eu penso ser uma ideia que seguimos farejando.
Toda a história não passa disto:
Acabou o mundo, sobrou a farofa. Acabou a alma, sobrou o cotovelo. Acabou a família, sobrou o papagaio. Acabaram as grandes invenções da humanidade, sobraram os detritos. Que certamente o homem modelará, qual uma criança brincando com argila à procura de coisas que os pais não contam. Não há esperança; há inquietude.
A estátua viva é a figura menos humana possível, e eu nunca acreditei nela.