Carregando…

Crime ou apenas um fato Spoiler

Isabelbremide
Pública 0 conversa 2 pensamentos 2 votos positivos 0 voto negativo 0 série

No primeiro dia foi estranho, senti uma coisa esquisita no meu corpo e na minha cabeça, eu não sabia muito bem do que se tratava.

Pensamento

Pensamento

leituraDaNoite

Li isso de madrugada, depois de fechar a cozinha, e a imagem da mesa posta na hora do almoço ficou comigo até agora, o mesmo horário todo dia, como se fosse parte da rotina da casa. A frase da sua filha aos 12 anos, ele não pode fazer isso com outras pess

Li isso de madrugada, depois de fechar a cozinha, e a imagem da mesa posta na hora do almoço ficou comigo até agora, o mesmo horário todo dia, como se fosse parte da rotina da casa. A frase da sua filha aos 12 anos, ele não pode fazer isso com outras pessoas, é a mesma que fecha o seu texto 34 anos depois, só que agora dita por você. Três anos em segredo de justiça é muito tempo pra ficar esperando uma resposta. Ela chegou a ler o que você escreveu aqui?

Conteúdo da publicação

No primeiro dia foi estranho, senti uma coisa esquisita no meu corpo e na minha cabeça, eu não sabia muito bem do que se tratava.

No dia seguinte, aconteceu de novo, mãos nos meus seios, nas minhas partes íntimas, na minha barriga, na minha boca. As mãos se entrelaçavam e apertavam meu corpo.

Eu fiquei bem perdida, não entendia muito bem o que estava acontecendo, mas o corpo entendeu que era uma invasão.

Não era uma invasão, tipo alienígena, muito comum hoje, mas uma invasão do meu espaço, do meu corpo, da minha existência.

Com 10 anos, eu não entendia muito bem o que significavam as palavras "molestar" e "abuso sexual". Isso não fazia parte do meu vocabulário, do meu conhecimento intelectual, nem do meu corpo.

Isso, que ainda não sabia nomear, acontecia todos os dias na hora do almoço, como se eu fosse um aperitivo para abrir o apetite. Me sentia como uma coisa sendo usada na hora do almoço.

O tempo passou e eu sofri calada, como se eu fosse a esquisita, a errada, a descontrolada. – nada demais está acontecendo, é super normal isso. Dizia eu, para mim mesma, a fim de amenizar aquele sofrimento que eu não conseguia nomear.

Com o passar do tempo, fui entendendo que o esquisito não era eu e sim, ele. Aquele que deveria me proteger, me maltratava, me invadia.

Senti que estava sozinha e desamparada, abandonada, rejeitada. Sem meu pai, com apenas 10 anos, minha mãe distante, com outras preocupações, eu estava à disposição, como se posta a mesa para a refeição.

Não tinha ninguém ali para segurar a minha mão; pelo contrário, havia mãos que me tocavam sem autorização; isso é um fato e contra fatos não há argumentos.

34 anos se passaram e eu tentando entender o que aconteceu. Por que meu pai não estava lá? Por que eu estava tão sozinha? Por que aquele que deveria me proteger me violava?

Eram muitas perguntas que, por anos, não tinham respostas.

Preferi jogar a merda embaixo do tapete na esperança de que não a veria mais, mas mesmo escondida, continuou fedendo e eu não consegui esquecê-la.

Diante da minha inércia em buscar respostas e soluções, o fatídico fato se repetiu, anos mais tarde, com a minha própria prole.

Como não entendi o que acontecera aos meus 10 anos, não pude prever que se repetiria com a minha filha.

Mas ela, muito mais corajosa e mais ciente do fato, aos 12 anos, resolveu denunciar. Lembro perfeitamente dela dizendo – vamos denunciar isso, mamãe, ele não pode fazer isso com outras pessoas.

Fiquei impressionada com a sabedoria daquela pré-adolescente e agi imediatamente; denunciamos.

O fato, agora, é que entre audiências e muitos constrangimentos, nada ainda foi feito. O caso segue em segredo de justiça há 3 anos e eu, como a louca que acaba com a vida do próprio tio que tanto fez por mim, expondo-o a essa situação terrível.

Terá solução? Talvez não. Não é raro as vezes que mulheres são expostas, como se já não bastasse estarem tanto tempo postas às mesas, ainda são expostas a infinitos processos judiciais até que sejam assassinadas ou que não deem em nada, um simples arquivamento do processo por falta de provas de um fato que ninguém viu, ninguém sentiu, ninguém percebeu, a não ser a própria vítima.

Isso não me desmotiva, só me irrita o bastante para seguir tentando evitar que isso se repita com outros.

Thoughts

  • HeldonMenezes

    Siga em frente sempre e nunca, nunca mesmo desanime a ponto de parar.

    Permalink
  • leituraDaNoite

    Li isso de madrugada, depois de fechar a cozinha, e a imagem da mesa posta na hora do almoço ficou comigo até agora, o mesmo horário todo dia, como se fosse parte da rotina da casa. A frase da sua filha aos 12 anos, ele não pode fazer isso com outras pessoas, é a mesma que fecha o seu texto 34 anos depois, só que agora dita por você. Três anos em segredo de justiça é muito tempo pra ficar esperando uma resposta. Ela chegou a ler o que você escreveu aqui?

    Permalink

Related posts