Achei que não ia gostar dela e aí gostou. Tá certo, acontece assim mesmo.
Carta para Yasmim Alvarenga: Porque ela me achava IN-SU-POR-TÁ-VEL.
Existem pessoas que chegam à nossa vida já carregadas de significado.
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Achei que não ia gostar dela e aí gostou. Tá certo, acontece assim mesmo.
Conteúdo da publicação
Existem pessoas que chegam à nossa vida já carregadas de significado.
E existem aquelas que chegam sem nenhuma promessa.
Às vezes, chegam até como incômodo.
Foi assim com você.
Quando eu cheguei à Unimed Costa do Sol, você não gostou de mim.
Não gostou mesmo.
E eu gosto de lembrar disso porque, olhando agora, existe alguma coisa quase engraçada na distância entre aquela primeira impressão e o lugar que você ocupa hoje.
Você já me disse, mais de uma vez, que me achava chata, difícil, insuportável.
E eu acho bonito que você tenha sido honesta sobre isso.
Porque existe uma coisa muito humana em não gostar de alguém.
O que nem sempre existe é a disposição de descobrir que talvez tenhamos errado.
E foi justamente aí que a nossa história começou de verdade.
Não quando você passou a gostar de mim.
Mas quando você permitiu que a primeira impressão deixasse de ser uma sentença.
Tenho pensado muito sobre isso.
Sobre como, às vezes, somos rápidos demais em transformar percepções em verdades.
Conhecemos alguém por alguns minutos e decidimos quem aquela pessoa é.
Ouvimos uma história e construímos uma versão.
Sentimos um incômodo e chamamos de incompatibilidade.
E, sem perceber, passamos a nos relacionar não com a pessoa, mas com a narrativa que inventamos sobre ela.
Você poderia ter feito isso comigo.
Talvez fosse até mais fácil.
Mas não fez.
Você mudou de ideia.
E mudar de ideia sobre alguém exige uma humildade que pouca gente reconhece.
Porque admitir que não gostamos de alguém é simples.
Difícil é perceber que talvez tenhamos olhado errado.
Difícil é deixar o outro existir para além daquilo que havíamos decidido sobre ele.
E foi isso que você fez comigo.
Por isso eu não queira que esta carta fosse apenas sobre o fato de você ter se tornado minha amiga.
Isso seria pequeno demais perto do que realmente aconteceu.
Você me ensinou alguma coisa sobre o outro.
Sobre o tempo.
Sobre as pessoas que não cabem na primeira impressão.
E sobre a delicadeza — quase uma coragem — que existe em permitir que alguém nos surpreenda.
Porque eu também poderia ter escolhido o caminho mais fácil.
Poderia ter respondido à sua distância com a minha.
Poderia ter pensado: “ela não gosta de mim, então não preciso gostar dela”.
Seria justo.
Talvez até compreensível.
Mas existem coisas que eu não quero transformar em regra dentro de mim.
Eu não quero que o comportamento de alguém determine o meu caráter.
E foi por isso que, quando você precisou, eu estava lá.
Não como estratégia.
Não como tentativa de mudar sua opinião.
Não esperando que, algum dia, aquilo me fosse devolvido.
Eu estava porque estar era a coisa certa a fazer.
E existe uma diferença enorme entre fazer o bem esperando que ele nos aproxime de alguém e fazer o bem porque, independentemente de quem está diante de nós, ainda queremos continuar sendo nós mesmos.
Eu escolhi a segunda opção.
E, curiosamente, foi ela que nos aproximou.
Acho que a vida tem dessas pequenas contradições.
A gente solta o controle e, justamente então, alguma coisa encontra seu lugar.
Não tentei conquistar você.
E, ainda assim, ganhei uma amiga.
Não tentei provar quem eu era.
E, ainda assim, você acabou me conhecendo.
Não precisei vencer aquela primeira impressão.
Só precisei continuar existindo para além dela.
E você fez o mesmo.
Também houve um movimento seu.
Você poderia ter permanecido na primeira versão que criou de mim.
Mas decidiu olhar de novo.
E existe uma generosidade enorme em olhar de novo.
Talvez seja uma das formas mais silenciosas de amor que existem entre as pessoas: conceder ao outro a possibilidade de ser maior do que aquilo que pensamos dele.
Hoje, quando penso em você, não lembro da mulher que não ia com a minha cara.
Lembro da mulher que, depois de me conhecer melhor, escolheu ficar.
E isso, para mim, tem um valor imenso.
Porque confiança não nasce do acaso.
Ela nasce quando alguém conhece nossas partes menos bonitas e, ainda assim, não sente necessidade de ir embora.
E você foi se tornando isso.
Presença.
Lealdade.
Parceria.
Porto.
Daquelas pessoas que talvez nem percebam o quanto fazem diferença porque não precisam fazer grandes coisas para fazê-la.
Você tem uma firmeza que eu admiro.
Uma espécie de lucidez prática.
Você observa muito.
Sente muito.
E, quando finalmente decide colocar alguém dentro, não coloca pela metade.
É por isso que eu gosto tanto da maneira como você se relaciona com as pessoas.
Você não parece ter pressa para chamar alguém de amigo.
Mas, quando chama, existe verdade naquela palavra.
E eu prefiro mil vezes os vínculos que levam tempo para nascer, mas sabem permanecer, aos vínculos que começam intensos e terminam na primeira dificuldade.
Nós tivemos tempo.
E o tempo foi o nosso melhor aliado.
Ele foi retirando de nós aquilo que era defesa.
Foi diminuindo a necessidade de interpretar.
Foi deixando aparecer aquilo que existia por baixo.
Até que, em algum momento, já não havia mais aquela mulher que não gostava de mim e aquela mulher que precisava ser aceita.
Havia apenas nós duas.
Conversando.
Rindo.
Trabalhando.
Compartilhando coisas.
Cuidando uma da outra de maneiras que nem sempre precisam ser nomeadas.
E é curioso como algumas amizades acontecem assim.
Sem anúncio.
Sem cerimônia.
Um dia, a pessoa simplesmente já faz parte.
Você olha para trás e percebe que não sabe exatamente quando deixou de ser colega e virou alguém que você procura.
Não sabe quando a preocupação virou espontânea.
Quando a ausência começou a ser sentida.
Quando a presença ganhou peso.
A amizade é isso:
uma pessoa deixa de ser acontecimento e passa a ser continuidade.
Você se tornou continuidade para mim.
E acho que é por isso que eu quis escrever sobre você.
Não para contar que você não gostava de mim.
Isso é apenas a parte engraçada da história.
Quis escrever porque, no fundo, você me lembra uma coisa que eu gostaria de não esquecer:
as pessoas têm o direito de mudar de ideia.
Nós temos o direito de mudar de ideia sobre elas.
E uma das maiores injustiças que fazemos uns com os outros é acreditar que alguém precisa permanecer para sempre dentro da versão que conhecemos primeiro.
Ninguém é estático.
Nem nós.
Nem o outro.
Somos feitos de camadas que só aparecem quando existe tempo suficiente para que alguém permaneça.
Você permaneceu.
Eu permaneci.
E, no espaço entre uma permanência e outra, nasceu alguma coisa que nenhuma de nós estava procurando.
Isso é o mais bonito.
Porque algumas das melhores coisas da vida não acontecem quando estamos tentando encontrá-las.
Acontecem quando estamos ocupados vivendo.
E foi assim que você chegou para mim.
Primeiro, como resistência.
Depois, como convivência.
Depois, como confiança.
E hoje, como uma dessas pessoas que eu olho e penso:
“Que bom que a vida não me perguntou antes se eu queria conhecer você.”
Porque, se tivesse perguntado, talvez eu nunca tivesse imaginado o tamanho que essa amizade teria.
Eu acredito tanto nos encontros que desafiam a primeira impressão.
Eles nos lembram que o outro é sempre maior do que aquilo que conseguimos enxergar de imediato.
Você me ensinou isso sem precisar ensinar.
E talvez seja essa a parte que eu mais agradeço.
Não por ter mudado de ideia sobre mim.
Mas por ter me permitido existir tempo suficiente para que você pudesse fazê-lo.
No fim, a maturidade é isso:
não ter certeza demais sobre as pessoas.
Deixar espaço para a surpresa.
Para o tempo.
Para a contradição.
Para aquilo que ainda não conhecemos.
Você me mostrou que algumas pessoas precisam ser descobertas — não conquistadas.
E que existem relações que só começam quando deixamos de tentar definir o outro.
Hoje, se eu pudesse voltar àquele primeiro dia, eu não tentaria fazer você gostar de mim.
Eu só gostaria de poder olhar para aquela versão de nós duas e dizer:
“Calma.
Vocês ainda não sabem.
Isso aqui vai ser bonito.”
E foi.
Do jeito mais improvável.
Do jeito mais humano.
Do jeito que as melhores coisas costumam ser.
Yasmin, talvez você nunca saiba exatamente o quanto eu gosto da história que nós duas construímos.
Porque ela não nasceu pronta.
Ela foi acontecendo.
E há uma beleza particular nas coisas que precisam ser construídas.
Elas carregam nossas mãos.
Nossos erros.
Nossos silêncios.
Nossas mudanças de ideia.
Nosso tempo.
Por isso, quando penso em você hoje, não penso em como tudo começou.
Penso no fato de que continuamos aqui.
E, entre todas as certezas que o tempo já me deu, uma das mais bonitas é:
algumas pessoas chegam à nossa vida para nos mostrar quem somos.
Outras chegam para nos ensinar que ainda podemos mudar a forma como enxergamos alguém.
Você fez as duas coisas.
E é por isso que, em algum lugar muito bonito da minha memória, sempre vai existir aquela primeira versão de nós duas.
Ela não me constrange.
Eu gosto dela.
Porque foi ali, justamente ali, onde nenhuma de nós imaginava nada, que começou uma amizade que hoje eu não gostaria de perder.
Obrigada por ter olhado de novo.
Algumas pessoas nos conquistam pela primeira impressão.
Você me ensinou que as melhores, às vezes, precisam de uma segunda.
Thoughts
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PermalinkA gente vê muito aqui gente que veio pra saber de alguém e ficou pra salvar. Isso que você tá falando é assim mesmo, é a coisa mais humana.
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PermalinkEssa coisa de sair do que você decidiu sobre a pessoa... eu ouço muito isso aqui. A gente acha que sabe o que a pessoa tá carregando e tá sempre errado.
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PermalinkEssa coisa de conhecer alguém aos poucos... eu entendo. Aqui cada sexta eu leio um conto e pelo menos uma pessoa nele me diz coisas diferentes cada vez.
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PermalinkAchei que não ia gostar dela e aí gostou. Tá certo, acontece assim mesmo.
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PermalinkParece que é a gente que muda quando permite. Quando baixa a guarda de verdade, consegue ver a pessoa real por trás da impressão que havia feito.
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PermalinkTem gente que a gente decide não gostar de primeira. E depois não consegue parar de pensar nela.
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PermalinkTem gente que chega assim, tira tudo de você, e você nem esperava.