Raízes em vez de lembrança passageira. O que muda em alguém quando consegue ser raiz assim pra outra pessoa?
Carta para Alessandra Souza: Que sempre será um desses verões.
Se eu precisasse apontar o instante exato em que nossa amizade começou, minhas mãos não alcançariam essa precisão — porque amizades verdadeiras não nascem em datas; nascem em fendas do tempo.
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Raízes em vez de lembrança passageira. O que muda em alguém quando consegue ser raiz assim pra outra pessoa?
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Se eu precisasse apontar o instante exato em que nossa amizade começou, minhas mãos não alcançariam essa precisão — porque amizades verdadeiras não nascem em datas; nascem em fendas do tempo.
Começam como a luz do amanhecer: não fazem alarde, não pedem licença. Apenas surgem. E, quando percebemos, já é dia dentro da gente.
Você chegou até mim por causa do trabalho. Era uma relação que, em tese, deveria caber em planilhas, prazos, demandas acumuladas e conversas sobre o que precisava ser resolvido antes do fim do expediente.
Mas você virou meu par.
Minha dupla do café.
Minha companhia do almoço.
A pessoa com quem eu dividia o trabalho acumulado, os problemas que pareciam maiores às cinco da tarde e aquelas pequenas reclamações que, quando compartilhadas, pareciam pesar um pouco menos.
E, sem que eu percebesse, aquilo que pertencia ao ambiente profissional começou a atravessar suas paredes.
Quando vi, você já estava dentro da minha vida.
E talvez algumas das amizades mais bonitas sejam justamente assim: elas não chegam anunciando que vieram para ficar. Apenas ficam.
Eu te vi atravessar coisas que nenhuma pessoa deveria precisar atravessar tão cedo.
Vi você perder sua mãe, depois de já ter aprendido, ainda menina, a conviver com a ausência do seu pai.
Vi você enfrentar um acidente.
Vi a preocupação constante com sua irmã, tantas vezes colocando-se como suporte enquanto também carregava as próprias dores.
Vi você trabalhar arduamente, mesmo quando a vida parecia exigir mais de você do que seria justo pedir.
E talvez uma das coisas que mais admiro em você seja essa capacidade quase silenciosa de continuar.
Não porque você não sinta.
Mas porque, mesmo sentindo, você vai.
Você resolve.
Você cuida.
Você trabalha.
Você aparece.
Você segue.
E eu sei que, às vezes, quem olha de fora enxerga apenas a mulher forte. Mas eu tive o privilégio de conhecer também a mulher cansada, preocupada, vulnerável, aquela que nem sempre sabia como dar conta de tudo — e ainda assim dava.
Eu vi suas tempestades.
E você viu as minhas.
Você esteve comigo quando meu relacionamento não estava bem e eu precisava falar, falar de novo e provavelmente falar mais uma vez sobre as mesmas coisas até conseguir organizar dentro de mim aquilo que parecia impossível de organizar.
Você esteve comigo quando decidi mudar de empresa e precisei descobrir, entre inseguranças e desafios, onde eu caberia naquele lugar novo.
Você esteve comigo quando eu tomei decisões que mudavam meu corpo e minha vida — até quando decidi colocar silicone e, de alguma maneira, você conseguiu transformar até esse capítulo em uma história compartilhada entre nós.
Você esteve.
E essa palavra parece pequena, mas não é.
Você esteve.
Porque, quando a vida aperta, a presença de alguém deixa de ser apenas companhia.
Ela vira abrigo.
E você foi abrigo para mim muitas vezes.
Não necessariamente porque tinha as respostas certas. Aliás, você nunca foi exatamente íntima das palavras escritas ou dos grandes discursos.
Mas você me ofereceu algo infinitamente mais raro:
escuta verdadeira.
Essa escuta que não tenta consertar tudo.
Que não transforma dor em conselho.
Que não diminui aquilo que sentimos porque não sabe o que fazer com aquilo.
Você simplesmente ouvia.
Como quem diz, sem precisar dizer:
“Pode desabar. Eu seguro o teto.”
E talvez você nem saiba quantas vezes isso me salvou.
Porque algumas pessoas entram na nossa vida para nos ensinar alguma coisa.
Outras entram para nos fazer rir.
Algumas chegam para nos acompanhar por um pedaço da estrada.
E existem aquelas — poucas — que se tornam testemunhas.
Testemunhas das nossas versões.
Você me conheceu em fases que nem eu sabia muito bem quem estava sendo.
Conheceu minhas dúvidas, minhas inseguranças, minhas alegrias, minhas reclamações, minhas pequenas obsessões, minhas grandes decisões e essa minha mania de transformar qualquer acontecimento em assunto para uma conversa de duas horas.
E eu também te vi.
Vi seus medos.
Suas responsabilidades.
Suas perdas.
Suas conquistas.
Vi você tentando equilibrar a vida enquanto a vida, muitas vezes, parecia fazer questão de desequilibrar você.
E acho bonito pensar que, no meio de tudo isso, nós conseguimos construir um lugar onde uma podia simplesmente existir diante da outra.
Sem precisar parecer forte o tempo inteiro.
Sem precisar ter respostas.
Sem precisar estar bem.
Talvez seja por isso que eu diga que você atravessou comigo imensos verões.
Não os verões do calendário, desses que queimam a pele e terminam quando muda a estação.
Falo dos verões-temporada.
Verões-alma.
Aqueles períodos quentes, turbulentos, luminosos, em que a vida parece fervilhar dentro do peito.
Você esteve comigo em todos eles.
Me viu chorar como quem presencia o desaguar de uma maré que ninguém controla.
Me viu rir daquele jeito que quase falta ar.
Me viu reclamar da vida com a minha conhecida mania de dramatizar aquilo que dói, aquilo que cansa e, às vezes, até aquilo que nem precisava do tamanho que eu dava.
Me viu agradecer quando, finalmente, meu eixo encontrava de novo o rumo.
E eu fiz o mesmo por você.
Do meu jeito.
Torto, imperfeito, às vezes atrapalhado, mas inteiro.
Nós sempre tivemos essa coisa bonita de comemorar uma pela outra.
Quando você conquistava alguma coisa, eu sentia que a conquista também era um pouco minha.
Quando eu conquistava, você vibrava como se tivesse acabado de acontecer com você.
E talvez amizade seja justamente isso: não sentir que a vitória do outro diminui o nosso espaço, mas perceber que existe mais alegria no mundo quando alguém que amamos consegue chegar aonde queria.
Nunca tivemos muita cerimônia para isso.
Era natural.
Uma conquista era nova para as duas.
Uma felicidade encontrava espaço na mesa do almoço.
Uma boa notícia virava assunto no café.
E, assim, fomos acumulando não apenas histórias, mas pequenas provas de que estávamos ali.
Talvez seja isso que eu mais queira te dizer nesta carta:
eu lembro.
Lembro de você.
Lembro do que vivemos.
Lembro das conversas.
Das pausas.
Dos cafés.
Dos almoços.
Do trabalho dividido.
Das risadas.
Dos dias difíceis.
Das comemorações.
Das vezes em que uma precisou da outra.
Lembro porque algumas pessoas passam pela nossa vida deixando lembranças.
Você deixou raízes.
E raízes não fazem barulho.
Elas simplesmente permanecem.
Existe uma palavra japonesa que gosto muito: kintsugi — a arte de reparar aquilo que se quebrou, deixando as marcas visíveis, como se elas não fossem imperfeições, mas parte da beleza daquilo que sobreviveu.
Às vezes penso que algumas amizades fazem isso conosco.
Não impedem que a gente quebre.
Não evitam os acidentes da vida, as perdas, os términos, as mudanças, os medos.
Mas permanecem perto enquanto juntamos os pedaços.
E, sem perceber, vão colocando fios de ouro nas nossas rachaduras.
Você fez isso por mim.
E espero, sinceramente, ter feito isso por você também.
Não sei o que a vida fará com os próximos anos.
Não sei quantos cafés ainda vamos tomar, quantos almoços ainda vamos dividir, quantas demandas ainda vamos reclamar juntas ou quantas novas versões de nós ainda vamos conhecer.
A vida tem essa mania de mudar os cenários sem pedir nossa autorização.
Mas existe uma coisa que eu gostaria que nunca mudasse:
o lugar que você ocupa na minha história.
Porque algumas pessoas pertencem a uma fase.
Você pertence à memória de quem eu fui, à mulher que me tornei e, de algum modo, a todas aquelas que ainda vou ser.
E se um dia alguém me perguntar como uma relação que começou no trabalho se transformou em amizade, talvez eu não saiba explicar.
Vou apenas dizer que algumas pessoas chegam pela porta da profissão e entram pela janela da alma.
Você foi uma delas.
E se a vida é feita de estações, ciclos e retornos, você sempre será um desses verões que, mesmo quando termina, deixa a casa inteira cheirando a sol.
Obrigada por ter estado.
Por continuar estando.
Por ter dividido comigo mais do que trabalho, café e almoço.
Obrigada por ter dividido vida.
E, principalmente, obrigada por ter sido minha dupla sem nunca precisar que eu pedisse.
Thoughts
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PermalinkO kintsugi pra amizade é uma imagem linda, mas o que mais gostei foi saber que vocês não quebraram sozinhas. A outra tava ali juntando os pedaços.
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PermalinkPresença sem palavras, só segurando o teto. Isso aqui resume bastante coisa que eu vejo mas tenho dificuldade de falar.
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PermalinkRaízes em vez de lembrança passageira. O que muda em alguém quando consegue ser raiz assim pra outra pessoa?
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PermalinkDez anos é muito tempo pra qualquer coisa e vocês conseguem fazer parecer natural, sem alarde. Acho bonito quando relacionamentos chegam nesse lugar de silêncio confortável.
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Permalinka parte do silicone ser história compartilhada entre vocês me pegou pq sim, uma amiga verdadeira tá lá até nessas coisas aleatórias
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Permalinkvc não tentando consertar tudo, só ficando lá mesmo... deus, eu preciso de mais pessoas assim perto de mim
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PermalinkDeixar aparecer a mulher cansada com alguém... quantas pessoas você consegue fazer isso de verdade?
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PermalinkNove anos de quinta com as mesmas quatro amigas. Essa coisa de estar lá, simplesmente aparecer, sustenta.