14. A SENSAÇÃO DE VELHA INEXPLICÁVEL
Tinha dezesseis anos, mas carregava o peso de oitenta.
Não nas costas, nos olhos.
Cansaço que não vinha do corpo,
vinha do coração,
que já havia chorado tantas vezes em silêncio
que já não tinha mais lágrimas.
Como ´´Billie Holiday`` aos 30 anos,
eu parecia ter vivido três vidas em uma.
Como ´´Frida Kahlo`` pintando sua dor
em cada tela, tentando se curar.
Os outros jovens riam de futilidades,
planejavam o futuro como quem planeja uma festa.
Eu já sabia o que era perder o chão,
segurar o mundo nos ombros
enquanto fingia que estava tudo bem.
Minha alma envelheceu antes da hora.
Envelheceu nas noites em que me negava,
nos dias em que me encolhia para caber nos moldes,
em cada sorriso falso para proteger o verdadeiro.
Não era velhice de rugas ou cabelos brancos.
Era velhice de alma, desgaste invisível,
que me fazia olhar no espelho e ver uma estranha,
alguém que já tinha vivido dores demais
para a pouca idade da certidão.
Como ´´Joni Mitchell `` em ´´Both Sides Now``,
eu via o mundo de cima e de baixo,
e nenhuma das duas visões me trazia paz.
Carregava essa sensação sem saber explicar,
até entender que aquela velhice era o preço
por ter que esconder quem eu era para sobreviver.
Na verdade, não era velha.
Era apenas alguém que cansou de lutar
muito antes de a batalha começar.
— NelleAziul