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Capítulo 6 As vidas que seguiram sem nunca deixar uma à outra

Raiana
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Helena não voltou para casa naquela noite.

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vqueiroz90

aqui o culpado é o carro sem placa, aqueles homens que pegam gente assim, do nada. desconfio de tudo mas desta vez a paranoia toda tá justificada mesmo.

aqui o culpado é o carro sem placa, aqueles homens que pegam gente assim, do nada. desconfio de tudo mas desta vez a paranoia toda tá justificada mesmo.

Conteúdo da publicação

Helena não voltou para casa naquela noite.

Caminhou sem destino pelas ruas molhadas de São Paulo, abraçada ao casaco, como se o frio pudesse anestesiar a dor.

Passou em frente ao café onde haviam passado tardes inteiras discutindo livros.

À banca de jornal onde Eduardo comprava todos os diários antes do amanhecer.

Ao pequeno hotel onde, numa noite de inverno, ele lhe dissera:

"Você é feita do mesmo barro que eu."

Parou diante da fachada.

A luz do letreiro ainda estava acesa.

Por um instante, pensou em subir até aquele quarto, apenas para descobrir se ainda existia.

Depois sorriu com amargura.

Não era o quarto que havia desaparecido.

Era a mulher que entrara ali anos antes.

No dia seguinte, Eduardo acordou sozinho.

O apartamento parecia estranho.

O perfume de Helena permanecia no cachecol esquecido sobre uma cadeira.

Encontrou também o caderno que ela lhe dera.

Abriu-o pela primeira vez.

Na segunda página, havia um poema que nunca lera.

"Há homens que atravessam o mundo procurando liberdade. Há mulheres que passam a vida tentando lembrar a eles por que vale a pena serem livres."

Eduardo fechou o caderno com violência.

A culpa era um sentimento perigoso.

Ele ainda não podia permiti-la.

Convencera-se de que fizera o necessário.

Que o amor era um luxo para tempos de paz.

Repetiu isso para si mesmo tantas vezes que quase acreditou.

Quase.

Os meses seguintes foram cruéis.

Helena terminou a faculdade com louvor.

Publicou seu primeiro livro de contos.

A crítica elogiou sua linguagem delicada e a tristeza discreta que atravessava cada página.

Um professor francês, convidado para um congresso literário, leu o livro e lhe fez uma proposta inesperada.

Uma bolsa de estudos em Paris.

Ela aceitou sem hesitar.

Não porque quisesse conhecer a França.

Mas porque precisava aprender a respirar em algum lugar onde cada esquina não lhe lembrasse Eduardo.

Na véspera da viagem, voltou uma última vez ao campus da faculdade.

Sentou-se sob a velha sibipiruna onde ele costumava esperá-la.

Passou os dedos pela casca da árvore.

Sorriu sozinha.

— Adeus.

Não sabia se falava com a árvore.

Com a juventude.

Ou com o rapaz que lhe ensinara que era possível amar alguém a ponto de sobreviver à sua ausência.

Eduardo não foi ao aeroporto.

Nem soube da partida.

Naquela mesma semana, publicara uma reportagem denunciando prisões arbitrárias.

Dois dias depois, homens armados o esperavam na saída da redação.

Não apresentaram mandado.

Não disseram seus nomes.

Apenas o colocaram dentro de um carro sem identificação.

Durante semanas, o mundo desapareceu.

Havia apenas salas escuras.

Perguntas repetidas.

Silêncios impostos à força.

Dor.

Tentaram fazê-lo entregar nomes.

Ele não entregou.

Tentaram fazê-lo desistir da verdade.

Ele não desistiu.

Nas madrugadas da cela, quando a dor o impedia de dormir, sua memória procurava abrigo onde ainda existia alguma ternura.

Nunca era uma lembrança da redação.

Nem dos prêmios que sonhava conquistar.

Era sempre o mesmo quarto simples.

O cobertor mal dobrado.

O frio do inverno.

Helena dormindo serenamente.

E sua própria voz dizendo:

"Você é feita do mesmo barro que eu."

Então vinha outra lembrança.

A última.

"Esse seu lado profundo... dramático... eu não quero mais."

Eduardo encostava a cabeça na parede úmida da cela.

Pela primeira vez, compreendeu que havia palavras capazes de sobreviver até mesmo à tortura.

E eram justamente aquelas que nunca deveriam ter sido ditas.

Enquanto isso, em Paris, Helena descobria uma cidade que parecia feita de livros.

As manhãs eram passadas na universidade.

As tardes, entre bibliotecas e cafés.

À noite, escrevia.

Escrevia sem parar.

Não escrevia sobre Eduardo.

Nunca mencionava seu nome.

Mas todos os seus romances falavam de pessoas que chegavam tarde demais.

De cartas nunca enviadas.

De amores interrompidos pela História.

Os leitores chamavam aquilo de grande literatura.

Ela chamava de saudade.

Quando algum colega perguntava por que nunca se apaixonara novamente, respondia apenas com um sorriso educado.

Ninguém imaginava que, muitos anos antes, numa noite de chuva em São Paulo, um homem havia lhe dito que o amor não bastava.

Ela acreditou nele.

E, desde então, nunca mais ofereceu seu coração por inteiro a ninguém.

Assim, sem saber um do outro, os dois seguiram vivendo.

Eduardo tornou-se um dos jornalistas mais respeitados de sua geração, reconhecido pela coragem de enfrentar a censura e denunciar as injustiças.

Helena tornou-se uma escritora celebrada, professora em universidades francesas e brasileiras, referência para jovens autores que encontravam em seus livros uma delicadeza rara.

O mundo os admirava.

Mas nenhum prêmio, nenhuma homenagem e nenhum aplauso foi capaz de preencher o espaço silencioso deixado por aquele amor da juventude.

Porque algumas perdas não impedem uma vida feliz.

Apenas a tornam incompleta.

E ambos aprenderam, cada um à sua maneira, que é possível continuar vivendo sem nunca deixar de sentir falta da pessoa que um dia foi o próprio significado da palavra "lar".

Thoughts

  • contoBreve

    normalmente eu deixo no meio de livro grosso porque o tempo acaba. desta vez li tudo de uma vez, porque precisava saber.

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  • atepagina50

    notei primeiro nos apartamentos onde não vivem juntos. o hotel onde ele diz a coisa errada. o quarto que desaparece porque a mulher que entrava ali virou outras coisas todas. as casas vazias falam mais que as pessoas nesta história.

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  • Simao

    leio só terror porque gosto de desconfortável. mas isto é pior que terror porque é verdade, é gente fazendo isso uma a outra. ficou-me na cabeça.

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  • Rui_Salgueiro

    ficam os dois esperando uma coisa que não chega. ele na cela. ela em paris, escrevendo cartas que não manda.

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  • Marina

    adotei a helena e agora sofro pelos dois 💔

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  • vqueiroz90

    aqui o culpado é o carro sem placa, aqueles homens que pegam gente assim, do nada. desconfio de tudo mas desta vez a paranoia toda tá justificada mesmo.

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  • tresPaginas

    li isto em cinco noites e em cada uma acordei no meio porque era doloroso de ler. gosto assim, quando a história não me deixa descansar.

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  • tmoreira93

    a gente fica esperando cinco minutos na casa de gente estranha e já acha incômodo. ela ficou em casa estranha de verdade, num quarto de hotel, depois não conseguiu voltar pra ninguém.

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