A casa onde Charllotte morava não tinha nome.
Era apenas uma pequena construção de madeira escondida no fundo do quintal dos tios.
Para quem passava pela rua, talvez parecesse apenas mais uma casa simples.
Para Charllotte, era o mundo inteiro.
As paredes de madeira tinham pequenas frestas por onde entrava o vento durante as noites frias. O chão rangia quando alguém caminhava pela sala. A cozinha era pequena, o banheiro ficava em uma parte improvisada da construção e o quarto era dividido entre Charllotte e Vitória.
Mesmo assim, havia dias em que Charllotte gostava daquele lugar.
Principalmente quando chovia.
Ela se sentava perto da janela e observava as gotas escorrendo pelo vidro.
Às vezes imaginava que morava em uma casa enorme.
Uma casa com quartos para cada pessoa.
Uma cozinha cheia de comida.
Um jardim.
E uma mãe que sorrisse quando olhasse para ela.
Mas esses pensamentos duravam pouco.
A realidade sempre voltava.
Margareth continuava trabalhando.
Vitória continuava sendo a filha que mais recebia carinho.
E Charllotte continuava tentando não incomodar.
Até que um homem chamado Frederic apareceu na vida delas.
O encontro
Margareth conheceu Frederic em uma época em que sua vida estava particularmente difícil.
Ela já estava acostumada a resolver tudo sozinha.
Contas atrasadas.
Pouco dinheiro.
As responsabilidades com as filhas.
E o peso de ter sido abandonada pelo pai das meninas.
Frederic apareceu de maneira simples.
Não houve uma grande história de amor no começo.
Não houve flores.
Nem promessas.
Apenas conversas.
Eles começaram a se encontrar com frequência.
Margareth gostava da tranquilidade dele.
Frederic não era um homem de muitas palavras.
Tinha cabelos cacheados, pele morena e um olhar calmo.
Era alto, aproximadamente um metro e setenta e cinco.
Havia alguma coisa nele que fazia Margareth se sentir menos sozinha.
Charllotte foi uma das primeiras pessoas a perceber que havia alguma coisa diferente entre os dois.
Certa tarde, quando voltou da escola, encontrou Frederic sentado do lado de fora da casa.
Ele sorriu.
— Você deve ser a Charllotte.
A menina ficou parada.
— Sou.
— Sua mãe falou de você.
Charllotte olhou para dentro da casa.
— Falou o quê?
Frederic riu.
— Que você é muito curiosa.
Charllotte ficou sem graça.
— Eu não sou.
— Não?
Ela balançou a cabeça.
Frederic apontou para a mochila.
— Então o que você tem aí?
Charllotte segurou a mochila contra o corpo.
— Minhas coisas.
— Ah, então é segredo.
Pela primeira vez naquele dia, Charllotte sorriu.
Foi um sorriso pequeno.
Mas Frederic percebeu.
Um homem dentro de casa
Com o passar dos meses, Frederic começou a fazer parte da rotina.
Primeiro aparecia de vez em quando.
Depois passou a ficar mais tempo.
Até que, certa noite, Margareth contou às meninas:
— Frederic vai morar aqui.
Vitória permaneceu quieta.
Charllotte olhou para a mãe.
— Aqui?
— Aqui.
— Com a gente?
— Sim.
A menina não sabia exatamente como se sentir.
Parte dela ficou preocupada.
A casa já era pequena.
Agora teria mais uma pessoa.
Mas Frederic nunca foi agressivo com ela.
Pelo contrário.
Ele conversava.
Ajudava quando podia.
E, principalmente, não fazia Charllotte sentir que estava incomodando.
Uma noite, quando a menina estava tentando alcançar alguma coisa em uma prateleira alta, Frederic percebeu.
— Deixa que eu pego.
Ele alcançou o objeto.
Entregou a ela.
— Obrigada.
— De nada.
Charllotte voltou para o quarto.
Antes de dormir, pensou:
Ele é diferente.
Não sabia explicar por quê.
Mas era.
O casamento
O relacionamento entre Margareth e Frederic se tornou cada vez mais sério.
Até que decidiram se casar.
Não houve uma grande festa.
Não havia dinheiro para isso.
Foi algo simples.
Algumas pessoas próximas.
Poucas fotografias.
Poucos convidados.
Mas, para Margareth, aquele casamento representava uma nova fase.
Ela não estaria mais sozinha.
Frederic também não tinha uma vida fácil.
Antes de conhecer Margareth, havia passado por momentos de extrema pobreza.
Durante um período, chegou a morar em um barraco improvisado.
Não tinha emprego fixo e dependia de trabalhos ocasionais.
Por isso, quando passou a viver com Margareth, também começou a depender muito da estrutura daquela família.
Era uma relação cheia de dificuldades.
Mas, naquele momento, ninguém imaginava o que o futuro traria.
Para Charllotte, Frederic era apenas o homem que agora fazia parte da casa.
E, aos poucos, ela se acostumou com sua presença.
A notícia
Algum tempo depois, Margareth descobriu que estava grávida.
A notícia mudou completamente a rotina da casa.
Vitória ficou animada.
Charllotte também.
Ela queria saber tudo.
— Vai ser menino ou menina?
Margareth sorriu.
— Ainda não sei.
— Eu quero uma menina.
Vitória riu.
— E se for menino?
Charllotte pensou por alguns segundos.
— Pode ser menino também.
Naquela noite, as duas ficaram conversando sobre o bebê.
Pensaram em nomes.
Inventaram possibilidades.
Charllotte imaginou como seria segurar um bebê pequeno.
Ela nunca havia tido uma irmã tão pequena.
Agora teria.
A gravidez passou entre dificuldades e expectativas.
Margareth estava cansada.
A casa continuava pequena.
O dinheiro continuava curto.
Mas havia uma sensação diferente no ambiente.
A chegada daquela criança parecia trazer uma espécie de esperança.
Até que chegou o dia.
Mia
Mia nasceu em uma manhã tranquila.
Pequena.
Branca.
Com cabelos cacheados.
E um olhar sereno que parecia acompanhar tudo ao redor.
Quando Charllotte a viu pela primeira vez, ficou alguns segundos sem dizer nada.
Era tão pequena.
Tão delicada.
Charllotte se aproximou devagar.
— Ela é linda.
Margareth olhou para a bebê.
— É.
Vitória também se aproximou.
As duas ficaram observando.
Mia abriu os olhos.
Depois sorriu.
Um sorriso pequeno e inesperado.
Charllotte sorriu também.
Naquele momento, sentiu algo que não conseguia explicar.
Amor.
Um amor completamente diferente de qualquer coisa que já havia sentido.
Ela tocou cuidadosamente a mão da irmã.
Os dedos minúsculos de Mia seguraram um dos seus.
Charllotte ficou imóvel.
— Ela segurou minha mão.
Vitória sorriu.
— Gostou de você.
Charllotte olhou para a irmãzinha.
— Eu vou cuidar dela.
Ninguém respondeu.
Mas Charllotte falou aquilo com toda a sinceridade que uma criança poderia ter.
Naquele momento, não sabia que Mia cresceria dentro de uma família cheia de problemas.
Não sabia que Margareth continuaria sendo uma mulher distante.
Não sabia que o casamento da mãe não resolveria as dificuldades financeiras.
E muito menos sabia que, anos depois, lembraria daquela manhã como uma das poucas lembranças verdadeiramente felizes de sua infância.
Naquela época, tudo ainda parecia possível.
Havia uma casa de madeira.
Uma família começando outra vez.
Uma bebê recém-nascida.
E uma menina de oito anos que acreditava que, talvez, finalmente pudesse encontrar um lugar dentro daquela família.
Charllotte olhou para Mia mais uma vez.
E sorriu.
Sem saber que algumas histórias começam justamente nos momentos em que acreditamos que tudo vai melhorar.