*NEITHAN*
Desde pequeno, eu sempre fui diferente do meu irmão.
Nós éramos gêmeos, crescemos juntos e vivíamos na mesma mansão, mas parecia que pertencíamos a mundos completamente diferentes.
Enquanto meu irmão gostava de brincar, correr pelos corredores e inventar histórias, eu preferia ficar sozinho.
Eu era estressado.
Muito estressado.
Qualquer coisa conseguia me irritar.
Se alguém mexesse nas minhas coisas, eu reclamava.
Se fizessem barulho demais, eu mandava parar.
Se meu irmão entrasse no meu quarto sem bater, eu ficava furioso.
Minha família já estava acostumada.
— Você precisa aprender a ter mais paciência — minha mãe dizia.
Eu apenas fechava a cara.
— Não preciso.
Eu sempre fui assim.
Rabugento, quieto e, segundo meu irmão, "meio assustador".
Talvez ele tivesse razão.
Eu gostava da mansão.
Por que ali eu imaginava em coisas sobrenaturais.
Eu gostava dela justamente porque ninguém parecia gostar.
Enquanto todo mundo reclamava que a casa era grande demais, escura demais e silenciosa demais, eu achava tudo aquilo perfeito.
Eu gostava dos corredores vazios.
Gostava do barulho da chuva batendo nas janelas enormes.
Gostava da biblioteca antiga, onde quase ninguém entrava.
Gostava do silêncio do segundo andar.
Aquela casa parecia combinar comigo.
Às vezes eu ficava sentado sozinho na escada, observando o relógio antigo da sala marcar as horas.
Meu irmão sempre aparecia e perguntava:
— Você não acha essa casa assustadora?
Eu olhava para ele e respondia:
— Não.
— Então você não tem medo de nada?
— Tenho.
Ele ficava curioso.
— Do quê?
Eu pensava por alguns segundos.
— De você ficar falando demais.
Ele começava a rir, e eu ficava ainda mais irritado.
Mas, apesar das brigas, eu gostava dele.
Era meu irmão.
Meu gêmeo.
A única pessoa que conseguia me irritar em cinco segundos e, ao mesmo tempo, fazer eu querer ficar por perto.
Nós passávamos horas discutindo por coisas completamente idiotas.
Quem ficaria com o controle da televisão.
Quem tinha pegado determinado brinquedo.
Quem tinha entrado primeiro em determinado quarto.
Mas, no final, sempre estávamos juntos.
À noite, quando a casa ficava completamente silenciosa, eu costumava andar pelos corredores.
Não tinha medo.
Pelo contrário.
Eu gostava daquele silêncio.
A mansão parecia diferente durante a madrugada.
As luzes fracas deixavam as paredes ainda mais escuras, e os móveis antigos criavam sombras compridas pelo chão.
Meu irmão dizia que eu parecia um personagem de filme de terror andando pela casa daquele jeito.
Eu respondia:
— Melhor do que parecer um idiota correndo pela casa.
Ele ria.
Eu fingia que não achava graça.
Mas achava.
Talvez eu fosse rabugento.
Talvez fosse assustador.
Talvez tivesse um jeito estranho de demonstrar o que sentia.
Mas aquela mansão era meu lugar favorito.
Ali eu podia ficar sozinho quando precisava.
Podia pensar.
Podia observar a chuva pela janela.
Podia sentar na biblioteca e passar horas folheando livros antigos.
E, principalmente, podia ser eu mesmo.
Eu costumava ficar sentado na biblioteca durante horas, observando os retratos antigos da família que morava naquela casa antes de nós.
Eu conhecia cada rosto.
Sabia onde cada quadro ficava.
Meu irmão perguntava:
— Por que você fica olhando para esses quadros?
Eu respondia:
— Porque eles não falam.
— E daí?
— É melhor assim.
Ele achava aquilo esquisito.