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Capitulo 10 - A Mulher que eu sempre quis

AllyneMaia
Pensamento

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callDas6

O Pedro perguntando se ela tá confortável a cada cinco minutos, e ela cobrando isso dele, foi a parte mais de verdade da noite. O resto ele tinha ensaiado.

O Pedro perguntando se ela tá confortável a cada cinco minutos, e ela cobrando isso dele, foi a parte mais de verdade da noite. O resto ele tinha ensaiado.

Conteúdo da publicação

A Mulher Que Eu Sempre Quis

Pedro

Eu não sabia como seria aquela noite.

Durante anos, imaginei tantas vezes o que aconteceria se Clara voltasse a fazer parte da minha vida que, quando finalmente a tive diante de mim, percebi que nenhuma das minhas fantasias chegava perto da realidade.

Ela estava ali.

A mulher que um dia havia sido a menina por quem me apaixonei.

Mas não era mais aquela menina.

E eu precisava que ela soubesse disso.

Precisava que entendesse que, naquela noite, eu não estava olhando para o passado.

Eu estava olhando para ela.

Para a mulher que havia se tornado.

Depois daquele beijo, fiquei alguns segundos sem saber o que dizer.

Clara estava diante de mim, com aquele sorriso tímido que me desarmava desde a adolescência. Mas havia algo diferente nela agora. Uma segurança no olhar, uma maneira de se posicionar, uma força que eu não conhecia naquela época.

Eu queria conhecê-la inteira.

Não apenas a lembrança que havia guardado.

Queria saber o que a fazia rir, o que a preocupava, quais eram seus sonhos, o que ela esperava da vida.

Queria descobrir a mulher que existia além da menina que um dia me amou.

E, acima de tudo, queria que ela soubesse que eu a desejava como mulher.

Não por causa do passado.

Por causa de quem ela era agora.

— Você está bem? — perguntei.

Ela sorriu.

— Estou. Só estou tentando acreditar que isso está acontecendo.

Eu também estava.

Mas, naquele momento, não queria falar sobre o tempo que havíamos perdido.

Queria aproveitar o tempo que tínhamos.

Levei Clara para perto de mim.

O abraço que trocamos parecia carregar anos de saudade, mas havia algo novo naquela proximidade. Uma escolha consciente de duas pessoas que já haviam vivido outras coisas, enfrentado dificuldades e aprendido que a vida não esperava ninguém.

Eu não queria que ela se sentisse como alguém que havia voltado a uma história antiga.

Queria que ela percebesse que estava começando uma história diferente.

Uma história em que eu a enxergava.

Em que eu prestava atenção.

Em que ela não precisava disputar espaço com nenhuma lembrança.

— Você está linda — falei.

Ela riu, baixando os olhos.

— Você já falou isso.

— E vou falar de novo.

— Pedro...

— É verdade, Clara.

Ela me olhou.

E eu continuei:

— Você mudou muito.

O sorriso dela desapareceu um pouco.

— Mudou para melhor?

A pergunta me pegou de surpresa.

Segurei sua mão.

— Mudou para você. E eu gosto de conhecer essa versão.

Ela ficou em silêncio.

Então sorriu novamente.

E eu soube que precisava ter cuidado com cada palavra.

Não porque ela fosse frágil.

Mas porque eu sabia que algumas palavras poderiam tocar lugares que nós dois ainda precisávamos aprender a compreender.

Não era mais a menina

Durante muito tempo, eu havia guardado uma imagem de Clara.

A menina que conheci.

A menina que me olhava de um jeito que eu nunca esqueci.

A menina que, em algum momento, deixou de fazer parte dos meus dias.

Mas, naquela noite, enquanto conversávamos, percebi o quanto aquela imagem era pequena diante da mulher que estava sentada comigo.

Clara havia construído uma vida.

Tinha seus sonhos, suas responsabilidades, suas conquistas.

Era decidida.

Tinha opinião.

Sabia o que queria.

E também sabia o que não aceitava mais.

Eu admirava tudo aquilo.

E queria que ela percebesse.

Não queria tratá-la como alguém que precisava ser protegida de tudo.

Queria tratá-la como uma mulher que merecia ser desejada, respeitada e escolhida.

Uma mulher que podia ser forte e, ainda assim, receber carinho.

Uma mulher que podia cuidar de todos e também permitir que alguém cuidasse dela.

Uma mulher que não precisava deixar de ser independente para viver um amor.

— Sabe o que eu mais gosto em você? — perguntei.

Ela me olhou curiosa.

— O quê?

— Você não é mais aquela menina.

Ela ficou séria.

Talvez tivesse entendido a frase de outra maneira.

Aproximei-me um pouco.

— E eu não estou dizendo isso porque quero esquecer quem você foi. Eu gosto da mulher que você se tornou.

Clara ficou me olhando.

— Por quê?

Pensei antes de responder.

— Porque você tem uma força que eu não conhecia. Porque você sabe o que quer. Porque você não parece precisar de ninguém para existir... mas ainda assim consegue deixar alguém entrar.

Ela respirou fundo.

— Você acha que eu deixei você entrar?

Sorri.

— Acho que estou aqui, não estou?

Ela riu.

E eu também.

Mas, por dentro, aquela conversa significava muito mais.

A noite que eu queria guardar

O vinho estava sobre a mesa.

A música tocava baixinho.

Clara estava perto de mim, e eu me sentia estranhamente tranquilo.

Não porque tudo estivesse resolvido.

Mas porque, pela primeira vez em muito tempo, eu não precisava imaginar como seria estar com ela.

Eu estava.

Conversei sobre meu trabalho, sobre as coisas que haviam acontecido comigo, sobre os sonhos que ainda carregava.

Ela falou da confeitaria, de Helena, de Curitiba, das responsabilidades que às vezes pareciam maiores do que seus próprios dias.

Eu a ouvi.

De verdade.

Porque queria conhecer a vida dela, não apenas o lugar que eu ocupava dentro dela.

Em alguns momentos, ficávamos em silêncio.

E eu gostava daqueles silêncios.

Não eram vazios.

Eram espaços onde podíamos simplesmente estar.

Em determinado momento, Clara apoiou a cabeça no meu ombro.

Eu olhei para ela.

E pensei em como era estranho ter passado tantos anos imaginando aquele gesto.

Agora, ele acontecia de maneira tão simples.

Tão natural.

Passei o braço ao redor dela.

— Está confortável?

— Estou.

— Tem certeza?

Ela levantou o rosto.

— Pedro, você está me perguntando isso a cada cinco minutos.

Ri.

— É que eu quero que você esteja bem.

O sorriso dela ficou mais delicado.

— Eu estou bem.

E eu acreditei.

Eu queria que aquela noite fosse especial para ela.

Não por causa de grandes promessas.

Não por causa de frases bonitas que talvez não pudéssemos sustentar depois.

Queria que fosse especial porque ela se sentisse desejada por mim.

Porque soubesse que eu a olhava e via uma mulher que me atraía, que despertava minha admiração, minha vontade de estar perto e meu interesse em conhecê-la.

Queria que ela percebesse isso nos meus gestos.

Na maneira como eu a escutava.

Na forma como segurava sua mão.

Nos beijos que trocávamos.

Na atenção que eu dava a cada momento.

Não queria apressar nada.

Não queria que ela sentisse que precisava corresponder a qualquer expectativa.

Queria que estivéssemos ali porque os dois desejavam estar.

Porque havia vontade.

Porque havia carinho.

Porque havia algo entre nós que merecia ser vivido com verdade.

E, quando ela se aproximou novamente, eu soube que não precisava dizer muito.

Apenas estar presente.

Depois de tantos anos

Mais tarde, enquanto Clara estava ao meu lado, eu me peguei pensando no passado.

Não com tristeza.

Mas com uma espécie de gratidão.

Se eu tivesse a oportunidade de voltar àquela época, talvez dissesse ao rapaz que eu era que não tivesse tanto medo.

Que algumas pessoas passam pela nossa vida e deixam marcas que o tempo não consegue apagar.

Mas também pensei que talvez não devêssemos ter vivido tudo naquela época.

Talvez precisássemos crescer.

Aprender.

Viver outras experiências.

Descobrir quem éramos.

Para que, quando nos reencontrássemos, pudéssemos olhar um para o outro sem precisar ser quem havíamos sido.

Clara não precisava mais ser a menina que eu havia conhecido.

E eu não queria mais ser o rapaz que tinha medo de dizer o que sentia.

Naquela noite, eu queria ser um homem diante de uma mulher.

Um homem que sabia que ela tinha escolhas.

Um homem que queria ser escolhido por ela.

Não por saudade.

Não por arrependimento.

Mas porque, no presente, ela ainda encontrava motivos para querer estar comigo.

Quando ela adormeceu

Em algum momento, Clara adormeceu perto de mim.

Fiquei olhando para ela por alguns instantes.

Havia algo muito bonito na tranquilidade daquele momento.

Ela não estava tentando impressionar ninguém.

Não estava preocupada com trabalho.

Não estava resolvendo problemas.

Apenas descansava.

E eu pensei que queria conhecê-la também assim.

Nos dias comuns.

Nas manhãs corridas.

Nas conversas sobre coisas pequenas.

Nas decisões difíceis.

Queria descobrir como era dividir a vida com ela, não apenas uma noite especial.

Mas eu sabia que ainda havia muito a conversar.

Havia o passado.

Havia as escolhas.

Havia tudo aquilo que precisávamos esclarecer.

E eu não queria fingir que nada disso existia.

Só que, naquela noite, não precisava resolver tudo.

Podíamos simplesmente viver aquele momento.

E foi o que fizemos.

A manhã seguinte

Acordei antes dela.

Por alguns segundos, fiquei olhando para o teto, tentando organizar os pensamentos.

Então me virei.

Clara ainda dormia.

E eu sorri.

A primeira coisa que pensei foi:

Ela está aqui.

Depois vieram todas as outras.

A conversa que teríamos.

O trabalho.

O carro.

As responsabilidades.

Mas, antes de qualquer coisa, eu queria fazer algo por ela.

Algo simples.

Algo que dissesse:

Eu pensei em você.

Levantei-me com cuidado para não acordá-la.

Fui até a cozinha e preparei o café.

Não sou nenhum grande cozinheiro, mas sabia fazer algumas coisas.

Organizei a mesa.

Coloquei pão, frutas, café e tudo o que encontrei que pudesse deixar aquela manhã mais agradável.

Enquanto fazia isso, pensei na frase que havia passado pela minha cabeça desde a noite anterior.

Quero poder te acordar assim pelo resto de nossas vidas.

A ideia me fez parar por um instante.

Não porque eu já tivesse todas as respostas.

Mas porque aquela vontade existia.

Eu queria que Clara fizesse parte dos meus dias.

Queria descobrir se poderíamos construir algo que fosse além daquele reencontro.

Ainda não sabia como.

Ainda não sabia se ela queria o mesmo.

Mas queria descobrir.

Peguei um papel.

E escrevi:

Quero poder te acordar assim pelo resto de nossas vidas.

Obrigado pela noite maravilhosa.

— Pedro.

Li uma vez.

Depois outra.

E sorri.

Talvez fosse uma frase grande demais para aquele momento.

Talvez ela ficasse assustada.

Mas era o que eu sentia.

E, naquela manhã, não queria esconder tudo atrás de palavras cuidadosas.

Queria que ela soubesse que havia sido especial para mim.

Quando voltei ao quarto, Clara começou a acordar.

Aproximei-me devagar.

— Bom dia.

Ela abriu os olhos e sorriu.

Aquele sorriso.

Eu ainda não sabia o que ele fazia comigo.

— Bom dia — respondeu.

Sentei-me ao lado dela.

— Eu preciso ir trabalhar.

Ela fez uma pequena careta.

E eu ri.

— Eu volto à noite.

Ela me olhou.

— A gente precisa conversar, não é?

Assenti.

— Precisa.

Eu sabia que aquela conversa seria importante.

Não queria deixar Clara imaginando o que eu pensava.

Não queria que ela acreditasse que uma noite poderia resolver anos de perguntas.

Mas também não queria transformar o que havíamos vivido em algo frio.

Porque não tinha sido frio.

Tinha sido verdadeiro.

— Pedro?

— Oi.

— Você está feliz?

A pergunta me atingiu de um jeito inesperado.

Olhei para ela.

E respondi:

— Estou.

Ela sorriu.

— Eu também.

Aquelas duas palavras foram suficientes para me fazer sentir que, pelo menos naquele instante, estávamos no mesmo lugar.

Antes de sair, aproximei-me dela.

Queria beijá-la.

Mas esperei.

Ela sorriu e se aproximou primeiro.

O beijo foi delicado.

Demorado o suficiente para eu sentir saudade antes mesmo de ir embora.

Quando nos afastamos, encostei minha testa na dela.

— Clara...

— Hum?

— Eu quero que você saiba de uma coisa.

Ela me olhou.

— O quê?

— Eu não estou aqui porque sinto falta da menina que você foi.

Ela ficou em silêncio.

Continuei:

— Eu estou aqui porque gosto da mulher que você é.

Os olhos dela ficaram brilhantes.

— Pedro...

— É verdade.

Segurei sua mão.

— Eu quero conhecer você agora. A Clara de hoje. A mulher que você se tornou. Quero saber o que você quer, o que você sonha, o que espera de mim.

Ela respirou fundo.

— E se eu não souber ainda?

Sorri.

— Então a gente descobre.

A expressão dela suavizou.

E eu percebi que talvez fosse exatamente isso que ela precisava ouvir.

Não uma promessa de que tudo seria fácil.

Não uma certeza de que o futuro já estava decidido.

Mas a disposição de caminhar ao lado dela enquanto descobríamos.

Quando saí, levei comigo uma sensação que não conseguia explicar.

A noite havia sido especial.

Muito mais do que eu imaginara.

Mas o que mais me marcava não era apenas o que havíamos vivido.

Era a maneira como Clara havia me olhado.

Como havia confiado em mim.

Como havia permitido que eu me aproximasse.

Eu queria que ela se sentisse desejada.

Não como uma lembrança.

Não como alguém que eu havia reencontrado por acaso.

Mas como a mulher que despertava em mim uma vontade genuína de estar perto.

De conhecê-la.

De cuidar do que estávamos começando.

E, quando pensei no bilhete que havia deixado sobre a mesa, sorri.

Talvez eu tivesse escrito mais do que deveria.

Talvez ela achasse cedo demais.

Mas, naquele momento, eu não queria pensar apenas no que era prudente.

Queria pensar no que era verdadeiro.

E a verdade era simples:

Eu queria Clara na minha vida.

Não sabia ainda como seria.

Não sabia se conseguiríamos superar tudo o que havia acontecido.

Não sabia se ela estaria disposta a escolher esse caminho comigo.

Mas queria descobrir.

Porque, depois de tantos anos, eu finalmente tinha a oportunidade de conhecê-la novamente.

E, dessa vez, eu não queria perder a chance de fazer isso direito.

O que ficou daquela noite

Enquanto dirigia para o trabalho, pensei em como algumas noites mudam a maneira como a gente enxerga o futuro.

Não porque resolvem tudo.

Mas porque nos mostram que ainda existe algo pelo qual vale a pena ter coragem.

Clara havia sido especial para mim desde muito antes daquela noite.

Mas agora eu a via de outra maneira.

Via a mulher.

A força.

A delicadeza.

A vontade de viver.

A maneira como ela ainda conseguia sorrir mesmo depois de tudo o que havia enfrentado.

E eu queria que ela soubesse que eu a desejava exatamente assim.

Inteira.

Real.

Com sua história, seus sonhos, seus medos e suas escolhas.

Não queria que ela precisasse voltar a ser alguém para caber na minha vida.

Queria que pudéssemos construir um espaço onde os dois coubessem como eram.

E, pela primeira vez em muito tempo, eu me permiti pensar que talvez fosse possível.

Talvez aquela noite não tivesse sido apenas um reencontro.

Talvez tivesse sido o começo de algo que nós dois ainda precisávamos aprender a viver.

E eu mal podia esperar para vê-la novamente.

Porque, agora, eu não queria apenas lembrar de Clara.

Eu queria conhecê-la.

A mulher que ela era.

A mulher que eu desejava.

A mulher que, depois de tantos anos, ainda fazia meu coração encontrar um jeito de acelerar.

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    O Pedro perguntando se ela tá confortável a cada cinco minutos, e ela cobrando isso dele, foi a parte mais de verdade da noite. O resto ele tinha ensaiado.

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