Domingo, 19 de maio de 2024
Toda a minha vida passada como Miguel passou diante dos meus olhos.
Abro os olhos e levo a mão ao peito. Meu coração está acelerado.
Mas, assim que meus olhos se abrem, encontram os de Ariel. Seu olhar está tomado pelo medo, e lágrimas escorrem por seu rosto.
- Evelyn, eu quero ir embora - diz Ariel, tentando conter o choro enquanto se levanta.
- Ai, meu Deus... o que foi que eu fiz? - digo, horrorizada ao me lembrar da verdadeira origem da minha maldição.
- Amor, por favor, se acalme - diz Sebastião, segurando meus ombros.
- Nós já vamos indo, então - diz Evelyn enquanto se levanta.
- Ariel, espera! - grito desesperada.
Ariel me lança um último olhar assustado antes de se virar e ir embora.
É ele.
Ariel é a reencarnação de Ariadne.
Foi ela.
Foi Ariadne quem me amaldiçoou.
E eu não posso culpá-la por isso.
Eu fui um monstro.
Matei Tomás, meu irmãozinho mais novo.
Tomás...
O soldado dos meus sonhos.
- Acho que meu coração vai explodir - diz Sebastião, levando a mão ao peito.
- É normal. Vocês acabaram de recuperar todas as memórias de suas vidas passadas - explica Celeste, observando-nos atentamente.
- Eu preciso falar com Ariel - digo aflita, levantando-me.
- É melhor dar um tempo ao seu amigo. Ele está muito confuso agora - responde Celeste com convicção. - Neste momento, ele está preso entre o passado e o presente.
- Eu fui um monstro. Eu matei meus próprios irmãos - digo, já começando a chorar.
- Então foi você quem matou Ariadne? - pergunta Sebastião, completamente chocado.
- Sim... mas foi um acidente - respondo em pânico. - Ariadne descobriu a verdade sobre Tomás, e nós acabamos tendo uma discussão terrível.
- Mas, antes de morrer, ela me amaldiçoou - acrescento.
- Então o soldado dos seus sonhos é Tomás? O irmão caçula de Miguel e Ariadne? - pergunta Sebastião com cuidado.
- Durante todos esses anos, eu pensei que era apenas uma vítima - digo, horrorizada. - Eu nunca entendia por que tinha sido amaldiçoada.
Passo as mãos pelo rosto, tentando conter as lágrimas.
- Como eu pude cometer tantas monstruosidades? - acrescento, incrédula.
- Não se culpe pelos erros de Miguel - diz Celeste com firmeza. - Você não é ele. Você é Daniella.
- Se eu não sou ele, então por que fui amaldiçoada? - questiono, encarando-a. - Por que as consequências dos atos dele tiveram que cair sobre mim?
Olho para Celeste, mas ela permanece em silêncio.
- Amor, eu quero ir para casa - digo, levantando-me.
- Mas nós ainda nem encontramos uma solução para a sua maldição - responde Sebastião, aflito, também se levantando.
- Tudo bem. No momento, todos vocês precisam de tempo para organizar os próprios pensamentos - diz Celeste enquanto se põe de pé. - Depois poderemos marcar outro encontro.
Não respondo.
Apenas caminho em direção à saída.
As memórias de Miguel continuam ecoando em minha mente.
Tudo voltou de uma vez.
Principalmente as lembranças do amor proibido entre Álvaro e Miguel.
Durante todo o caminho para casa, ignorei completamente Sebastião. Permaneci em silêncio, olhando pela janela do carro e observando a paisagem passar.
Até mesmo quando atravessamos a estrada onde sofri o acidente na infância, nada foi capaz de me tirar daqueles pensamentos.
Assim que o carro parou em frente à minha casa, abri rapidamente a porta e saí.
- Dani, espera! - chamou Sebastião, saindo do carro às pressas e vindo atrás de mim. - Vamos conversar, por favor.
- No momento, eu só quero ficar sozinha - respondi, sem conseguir encará-lo. - Ainda preciso absorver tudo o que descobri.
- Amor, por favor, não se culpe pelos erros de Miguel - disse Sebastião, segurando minhas mãos. - Vocês compartilham a mesma alma, mas são pessoas completamente diferentes.
- Eu não consigo - murmurei, lutando para conter as lágrimas. - Por favor, só me deixe sozinha por um tempo.
Puxei minhas mãos de volta com delicadeza.
Sebastião abaixou a cabeça.
- Tudo bem, então. - Sua voz saiu baixa e resignada. - Nos vemos na escola amanhã.
Após dizer isso, ele voltou para o carro e entrou.
Abri o portão e entrei sem olhar para trás.
Subi as escadas em silêncio, sem prestar atenção em nada ao meu redor.
Tudo o que eu queria era me esconder do mundo.
Assim que entrei no quarto, fechei a porta e me joguei sobre a cama.
Segunda-feira, 20 de maio de 2024
Era manhã.
Eu acabara de sair do banho e agora estava parada diante do espelho, penteando os cabelos enquanto tentava organizar os pensamentos que não me davam paz.
Meus pais estavam no quarto comigo, tentando a todo custo me confortar.
- Filha, por favor, pare de se castigar dessa maneira - diz minha mãe, visivelmente preocupada.
- Vocês também estavam lá - respondo pensativa. - Tenho certeza de que, se recuperassem as lembranças daquela vida, me odiariam. Eu tirei a vida dos seus dois filhos de forma terrível.
- Daniella, o que você recuperou foi uma vida passada - diz meu pai, aproximando-se. - Foi algo que aconteceu há muito tempo. Isso não tem relação com quem você é hoje.
Continuo encarando meu reflexo no espelho.
- A única coisa que eu quero é pagar minha dívida com Tomás - digo em voz baixa, observando meus pais através do reflexo. - É a única coisa em que consigo pensar.
- Por favor, não me diga que está pensando em desistir - diz minha mãe, horrorizada.
Viro o rosto e a encaro.
- E por que não? - questiono. - Talvez esse seja o único jeito de a alma de Tomás finalmente encontrar descanso depois de tantos séculos.
- Não fale uma coisa dessas! - exclama minha mãe. - Você não pode carregar os pecados de Miguel como se fossem seus.
- Mas eles são meus também! - retruco, sentindo os olhos se encherem de lágrimas. - Eu sou a reencarnação dele. Estou pagando pelas consequências dos atos dele desde que nasci.
- Não. - Meu pai balança a cabeça. - Você é Daniella. Miguel foi apenas uma das vidas que sua alma viveu.
- Então por que a maldição me alcançou? - pergunto, com a voz trêmula. - Por que fui eu quem teve que sofrer por tudo isso?
Nenhum dos dois responde imediatamente.
O silêncio deles acaba sendo pior do que qualquer resposta.
Depois de terminar de me arrumar, desço as escadas e me sento à mesa para o café da manhã junto com minha madrasta e suas filhas.
Mas, assim que me acomodo na cadeira, uma dúvida atravessa minha mente.
O que aconteceu com o espírito de Bárbara?
Ela simplesmente desapareceu e deixou Beatrice em paz.
- Por acaso você está doente? - questiona minha madrasta, lançando-me um olhar desconfiado. - Você passou o dia inteiro trancada no quarto ontem. Nem sequer desceu para comer.
- Eu estava um pouco indisposta - respondo enquanto sirvo café em minha xícara. - Mas já estou me sentindo muito melhor.
- Você parece tão abatida, irmã - comenta Beatrice, observando-me com atenção.
- Irmã? - repetimos eu, minha madrasta e Beatriz ao mesmo tempo, todos igualmente chocados.
Beatrice pisca algumas vezes, confusa com nossa reação.
- Sim, irmã. - Ela dá de ombros. - Crescemos juntas. Qual é o problema de eu chamar Daniella de irmã?
Fico olhando para ela por alguns instantes.
Havia algo de estranho em Beatrice.
Seu semblante estava sereno.
Sua voz soava gentil.
E, pela primeira vez desde que a conheci, ela não parecia carregar nenhum traço de arrogância ou maldade.
Era como se eu estivesse diante de uma pessoa completamente diferente.
Durante o caminho para a escola, fiquei pensando em como conseguiria encarar Ariel nos olhos.
Assim que chego, me deparo com Evelyn e Ariel no pátio.
- Oi, Ariel! - diz Beatrice com um sorriso enquanto acena para ele. - Bom dia!
- Bom dia! - responde Ariel, surpreso com a atitude dela.
- Vamos para a sala. - diz Beatriz, puxando Beatrice para longe.
- O que deu nessa garota? - pergunta Evelyn, incrédula.
- Não sei. - Dou de ombros sem encará-los. - Ela simplesmente acordou assim hoje.
- Ela não ficou boazinha da noite para o dia. - Evelyn cruza os braços, desconfiada. - Provavelmente está tramando alguma coisa.
- Com licença. - murmuro sem jeito enquanto passo por eles.
- Ei! - chama Ariel, segurando meu braço.
Antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, Evelyn sorri.
- Eu vou na frente guardar nossos lugares.
Ela lança uma piscadela para Ariel e segue em direção à sala.
Assim que ela se afasta, Ariel volta a atenção para mim.
- Por que você não está olhando nos meus olhos? - questiona.
- Porque não consigo. - Baixo a cabeça.
- Vem comigo. Vamos dar uma volta pelo jardim.
Antes que eu pudesse protestar, Ariel se agarra ao meu braço e me puxa para longe.
O jardim estava tranquilo naquela manhã.
- O perfume dessas flores é tão bom. - Ariel fecha os olhos por um instante e inspira profundamente.
Observo-o em silêncio.
- Passei a noite inteira pensando em como conseguiria olhar para você hoje. - confesso. - Por minha causa, você sofreu muito.
Ariel se abaixa e toca delicadamente as pétalas de uma rosa.
- Ver as memórias da Ariadne realmente mexeu muito comigo ontem. - Sua voz sai mais baixa. - Principalmente as que envolviam Miguel.
Sinto um aperto no peito.
- Me desculpa. - Minha voz falha enquanto tento conter as lágrimas.
Ariel se levanta e me encara.
- Não se desculpe. - Sua voz é firme. - Você não me fez nada. O que aconteceu foi entre Miguel e Ariadne.
Permaneço em silêncio.
- A única coisa que me deixou triste - continua Ariel - foi você não ter me contado nada sobre a sua maldição.
- Eu tentei contar muitas vezes. Para você e para a Evelyn. - Finalmente consigo encará-lo. - Mas as palavras simplesmente não saíam.
- Ontem, o Sebastião explicou tudo para mim e para a Evelyn. - Ariel se senta em um banco próximo. - Eu sei que não deveria pensar assim, mas me sinto culpado.
- Culpado?
- Sim. - Ariel baixa os olhos. - Fui eu... ou melhor, foi a Ariadne... quem lançou essa maldição sobre você na nossa vida passada.
- Assim como você disse, isso não tem nada a ver com a gente. - digo firmemente enquanto me sento ao seu lado. - Isso é algo que aconteceu entre Miguel e Ariadne.
- Agora eu entendo por que você nunca se importou com o fato de estar namorando um fantasma. - diz Ariel, intrigado. - Porque, na sua cabeça, logo você partiria deste mundo.
- Acho que é a melhor decisão a tomar. - Tento forçar um sorriso. - Com a minha morte, a alma de Tomás finalmente encontrará descanso.
- Nunca mais diga uma coisa dessas. - Ariel me repreende imediatamente. - Você não pode desistir. Nós vamos encontrar um jeito de quebrar essa maldição.
Ele faz uma pausa antes de continuar:
- E também vamos encontrar uma forma de ajudar Tomás a partir em paz sem que você precise morrer.
Baixo o olhar para minhas mãos.
- Eu estou com medo, Ariel. - Minha voz sai trêmula. - Meu aniversário está se aproximando.
Ariel me abraça sem hesitar.
- Vai ficar tudo bem. - Sua voz soa firme e reconfortante. - Ainda temos tempo até lá.
Permaneço alguns segundos em silêncio, apoiada em seu abraço.
- E em relação ao Sebastião? Está tudo bem para você? - pergunto com receio.
Ariel suspira e encosta a cabeça em meu ombro.
- Se eu disser que não gosto dele, estarei mentindo. - Ele parece refletir por um instante. - Infelizmente, depois de recuperar as memórias da Ariadne, acabei me apaixonando ainda mais.
- Ainda tem isso... - murmuro aflita, levando as mãos à cabeça.
Ariel solta uma pequena risada.
- Não se preocupe, Dani. Eu não vou tentar nada com o Sebastião.
- Não é isso que está me preocupando, porque eu confio em você. - Olho para ele com sinceridade. - Eu só não quero ver você sofrer.
Ariel me encara por alguns segundos antes de sorrir.
- Não se preocupe comigo, amor. - Sua voz é firme. - Eu vou superar o Sebastião. Só preciso de tempo.
Ele então segura minha mão.
- Por favor, eu só não quero que as coisas fiquem estranhas entre nós. - acrescenta.
- Não vão, eu prometo. - digo com convicção. - Agora vamos para a aula. - acrescento com um sorriso enquanto me levantava.
- Está bem. - responde Ariel com um sorriso, agarrando-se ao meu braço.
Nós dois seguimos para a sala. Durante a aula, sinto vontade de ir ao banheiro. Peço licença à professora e saio.
Assim que me aproximo do banheiro, começo a sentir a presença do espírito de Bárbara.
Entro rapidamente e logo a vejo.
Ela estava sentada no chão, em um dos cantos do banheiro.
Sua energia parecia diferente.
Leve.
Já não havia aquela sensação pesada e sufocante que costumava acompanhá-la.
- Por que você sumiu? - pergunto, confusa.
- O fantasma daquele soldado me prometeu que faria Beatrice pagar por tudo. - responde Bárbara, olhando para mim.
- Soldado? - pergunto, assustada.
- Sim. - Ela assente. - Ele disse que faria Beatrice confessar todas as maldades que já cometeu.
De repente, as luzes do banheiro começaram a piscar, e a única coisa que senti foi um frio na barriga.