Fiquei presa na conta das dez respirações no espaçador, de hora em hora, com a próxima dose chegando antes da menina dormir de novo. E foi nesse mesmo ano que a sua mais velha começou a falar, depois de dois anos de fono. Li isso tarde da noite e fiquei pensando em como coube tanta coisa num ano só. A mais velha lembra de alguma coisa daquela época?
C 0 65: O ANO DE 2022
Pensamento
Fiquei presa na conta das dez respirações no espaçador, de hora em hora, com a próxima dose chegando antes da menina dormir de novo. E foi nesse mesmo ano que a sua mais velha começou a falar, depois de dois anos de fono. Li isso tarde da noite e fiquei…
Conteúdo da publicação
Série (crônicas)
Ano de 2022. Minha filha não tinha feito nem três meses quando recebeu visitas de alguns parentes que estavam com Covid e acabou pegando o vírus. Ficou doente e precisou ser internada. Como a UTI neonatal estava cheia, colocaram-na em um quarto particular e eu fiquei com ela. Ela estava com baixa saturação e chegaram a marcar uma cirurgia para colocar um acesso, mas, como ela havia mamado recentemente, o plano mudou. Vieram duas enfermeiras e uma fisioterapeuta.
— Mãe, ela ainda está acordada, mas, se a senhora autorizar, posso fazer o procedimento com ela assim mesmo.
Eu perguntei:
— Dói?
Ela respondeu:
— Doer não dói, mas é desconfortável.
Olhei para a minha bebezinha ali, quase não respirando, e autorizei. As duas enfermeiras imobilizaram a minha filha, e a fisioterapeuta introduziu uma sonda do nariz até o pulmão, fazendo a sucção da secreção. O procedimento passou a ser feito três vezes ao dia. Horas após a segunda sessão, ela já estava melhor, conseguindo respirar, e começou a chorar. Chorou tão alto que as enfermeiras vieram correndo. Nada a fazia parar: ela estava com fome. O pediatra veio vê-la, autorizou a alimentação e adiou a cirurgia do acesso, mas manteve a prescrição das sessões de fisioterapia com a sonda.
Ficamos no hospital por quase vinte dias em meio a tudo isso, e eu comecei a apresentar sintomas gripais enquanto cuidava dela no isolamento. Como estávamos isoladas em um apartamento do hospital, eu não podia sair; se saísse, não me deixariam voltar. Pedi ao meu marido que comprasse um teste de farmácia. O resultado deu positivo para Covid.
Não tive tempo de ir ao médico; voltamos para casa apenas com vários remédios.
Como se faz bombinha em bebês? Você precisa acordar a criança, colocá-la na vertical, acionar o remédio no espaçador e contar dez respirações. Agora, imagine fazer isso com um bebê de três meses de hora em hora, depois de duas em duas horas, de três em três horas... Antes que eu conseguisse fazê-la dormir novamente, já era o horário da próxima dose. As noites eram longas e frias. Pela manhã, às oito e quarenta, era o horário da primeira terapia da minha filha mais velha, que na época tinha três anos. Ela fazia acompanhamento de segunda a sexta e estudava em uma cidade vizinha. Depois de passar a noite dormindo duas horas ou menos, eu saía da nossa cidade pela manhã e levava as meninas para a cidade "B". À tarde, seguíamos para a cidade "C" para mais uma terapia e para a escola.
Naquele ano, minha filha mais nova, que havia nascido em abril, teve Covid, duas bronquiolites e uma segunda internação antes mesmo do dia trinta e um de dezembro. Houve semanas em que íamos todas as madrugadas para o pronto-socorro, pois as bombinhas de resgate não davam conta das crises respiratórias.
Apesar de tudo, foi um ano de grandes realizações: foi quando a minha filha mais velha começou a falar, após dois anos de terapia com a fonoaudióloga; foi quando descobrimos a superdotação dela; e foi o ano em que ela fez a cirurgia no ouvido.
Recentemente, fui ao pronto-socorro porque estava com uma crise de tosse e, de lá, fui encaminhada para uma especialista, uma pneumologista. Fiz vários exames e uma ressonância. Descobri que foi exatamente naquele ano que perdi oitenta por cento da capacidade do meu pulmão para a Covid, embora eu não me lembre de ter ficado tão doente na época. Lembro apenas que foi o ano em que a minha segunda filha nasceu. Foi uma gravidez de alto risco e, quinze dias após o parto, tive que voltar para a sala de cirurgia. A primeira intervenção havia sido mal executada; fiquei internada quase uma semana, e precisei receber algumas bolsas de sangue. Lembro-me da minha oração: "Senhor, dê-me tempo para cuidar das minhas filhas, elas são tão pequenas. Dê-me mais tempo, até elas ficarem maiores...". Foi algo que passou tão rápido. Foi um ano em que Deus segurou a minha mão.
A pneumologista, analisando a minha ressonância, perguntou-me onde eu havia ficado internada e em qual UTI.
Respondi:
— Eu não estava tão mal assim como parece aí. Eu fiz um exame de Covid de farmácia e passei aquele ano com crises de tosse, mas não estava tão ruim quanto essa imagem mostra.
A médica, uma senhora um pouco mais velha do que eu, olhou-me assustada e disse, muito séria:
— Você estava muito mal. Você quase morreu em casa, sem atendimento médico. Você não tomou remédios?
— Meu marido fazia chá de gengibre, mel e alho nas madrugadas, enquanto eu cuidava das meninas.
O tempo passa, e só fica o que realmente importa na memória.
Thoughts
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PermalinkA médica pergunta dos remédios e a resposta é o chá de gengibre, mel e alho que o seu marido fazia de madrugada enquanto você dava a bombinha nas meninas. Eu fiquei com essa cozinha acesa de madrugada mais do que com a ressonância.
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PermalinkFiquei presa na conta das dez respirações no espaçador, de hora em hora, com a próxima dose chegando antes da menina dormir de novo. E foi nesse mesmo ano que a sua mais velha começou a falar, depois de dois anos de fono. Li isso tarde da noite e fiquei pensando em como coube tanta coisa num ano só. A mais velha lembra de alguma coisa daquela época?
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