Havia dois homens morando no mesmo peito.
Um era silêncio.
Tímido, comportado, desapegado.
Aprendeu a controlar os impulsos,
a medir palavras,
a aceitar ausências.
Vive os dias em linha reta,
cumpre horários,
responde quando pode,
e raramente demonstra saudade.
O outro era um lobo.
Não conhecia distância,
não respeitava relógios,
não calculava riscos.
Atravessava madrugadas apenas para vê-la,
transformava minutos em eternidade,
e fazia do encontro um refúgio
onde o mundo deixava de existir.
O primeiro aprendeu a conviver.
O segundo aprendeu a sentir.
E foi justamente esse que ficou perdido pelo caminho.
Hoje, quem atende às mensagens
é o homem tranquilo.
Quem segue a rotina
é o homem comportado.
Quem já não corre para vê-la
é o homem que se acostumou.
Mas, às vezes,
quando a noite silencia tudo,
ela sente falta daquele lobo feroz
que amava sem economias,
que fazia da presença dela uma necessidade,
que encontrava mil motivos para chegar
e nenhum para partir.
Porque a rotina tem um talento cruel:
não mata o amor de uma vez.
Ela apenas adormece o lobo
e convence o homem
de que sobreviver é o mesmo que viver.