Andando pela casa, ainda sinto a garganta fechada e o leve arder dos arranhões na pele. Do pescoço para baixo, sinto como se tivesse sido arrancado, dilacerado.
Olho para baixo, mas percebo que tudo está aqui. Meus braços, meu tronco, minhas pernas. Nada parece faltar, nada parece ter sido levado. Então, que sensação é essa?
Quando respirar dói e meus pulmões parecem não funcionar como deveriam, sinto como se tivessem sido arrancados de mim. Como se eu fosse uma criatura mitológica que, dos ombros até o quadril, não possui nada além de um vazio, com as extremidades ligadas apenas por uma sensação estranha de dor.
Sim, esse vazio no meu peito dói. Como se o buraco me lembrasse de todos os órgãos e sentimentos que um dia viveram ali. Como se a ausência de alguma coisa pudesse deixar marcas tão profundas quanto a sua presença.
Sentimentos...
Como pode algo invisível causar tanta dor? Como pode algo que eu deveria saber controlar ter tanto poder para além de mim?
Como posso sentir tudo isso tão intensamente sem sequer conseguir apontar para aquilo que dói?
Se meu corpo está inteiro, por que me sinto dilacerado?
Se nada foi arrancado de mim, por que continuo sentindo falta de alguma coisa?
E, se sou eu quem sente, quem é que deveria saber como fazer isso parar?