Aquilo Que Chamamos de Amor
— Diga-me... você acredita no amor?
Não responda depressa. As respostas rápidas costumam nascer do medo.
Pense.
O amor realmente existe, ou foi apenas a mais bela mentira que a humanidade inventou para suportar o peso de existir sozinha?
Talvez amar seja apenas uma forma elegante de negociar com o vazio.
Talvez dois corações nunca se encontrem.
Talvez apenas duas solidões façam um acordo silencioso para morrerem menos assustadas.
Mas então...
Você diz que me ama.
E eu preciso perguntar:
Quem é esse "eu" que mora dentro da sua declaração?
É a pessoa que respira diante de você?
Ou a pessoa que sua esperança desenhou?
Porque o amor tem um defeito cruel:
Ele raramente enxerga.
Ele imagina.
Reveste imperfeições com poesia, transforma silêncio em mistério, carência em destino e coincidência em eternidade.
Não seria possível que você nunca tenha amado a mim?
Apenas a imagem que construiu para preencher as partes vazias da sua própria alma.
E se for assim...
Quem de nós dois está realmente sozinho?
Perdoe-me se pareço distante.
Não confunda meu silêncio com ausência de sentimento.
Há pessoas que aprenderam a esconder o coração antes mesmo de aprender a usá-lo.
Fui ensinado que sentir era fraqueza.
Que chorar era derrota.
Que amar demais era sempre perder.
Então calei.
E o silêncio, quando permanece tempo suficiente, acaba parecendo a única língua possível.
Agora responda...
Quando me beija, quem recebe esse beijo?
Sou eu?
Ou aquele amor que um dia partiu e nunca deixou de morar na sua memória?
Ou algum rosto impossível, perfeito demais para existir, que a distância transforma em desejo?
Porque o beijo jamais acontece apenas no presente.
Toda boca carrega fantasmas.
Toda pele guarda lembranças.
Todo abraço é habitado por pessoas que já foram embora.
Talvez seja por isso que tantos amores fracassam.
Não porque deixaram de amar.
Mas porque nunca conheceram quem estava diante deles.
Amaram lembranças.
Amaram expectativas.
Amaram promessas.
Amaram versões.
Quase nunca uma pessoa.
E talvez a tragédia do amor não seja o abandono.
Seja descobrir, tarde demais, que ninguém jamais tocou quem você realmente era.
Todos abraçaram a ilusão.
Enquanto a sua verdade permaneceu sozinha, em silêncio, esperando ser vista.
Talvez o amor exista.
Mas, se existe, ele começa no instante em que deixamos morrer a imagem perfeita do outro...
para finalmente encontrar o ser humano que sempre esteve ali.
Altoria (Lediuson oliveira)