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Amor paterno

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Pensamento

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Tania_R

Eu tenho 29 anos e ainda me calo quando alguém da família fala mal de outro à minha frente. Comigo isso nunca virou coragem, virou hábito.

Eu tenho 29 anos e ainda me calo quando alguém da família fala mal de outro à minha frente. Comigo isso nunca virou coragem, virou hábito.

Conteúdo da publicação

Meu pai foi usuário de drogas e chegou a vendê-las na faculdade. Não sei exatamente por que minha mãe se apaixonou por ele, nem o que a fez enxergar nele alguém com quem gostaria de construir uma vida. Eles começaram um relacionamento e, pouco tempo depois, se casaram no papel. Então eu nasci.

Meus pais se divorciaram quando eu tinha apenas dois anos. Durante muito tempo, eu me perguntava o motivo. Não entendia o que havia acontecido entre eles e, principalmente, não conseguia compreender por que uma família que um dia existiu havia deixado de existir.

Minha família sempre me contou que meu pai havia sido uma pessoa ruim. E, conforme fui crescendo e convivendo com ele, comecei a perceber que talvez eles tivessem razão.

Minha avó sempre fala sobre o quanto o odeia por ter deixado minha mãe e a mim como se não fôssemos nada. Ela se lembra das palavras que ele dizia, mandando que nos levassem embora. Eu era pequena demais para entender o que aquilo significava, mas cresci vendo o quanto essas lembranças ainda machucam minha mãe. Muitas vezes, vi minha mãe chorar por coisas que eu nem conseguia compreender, e aquilo também me fazia sentir mal.

Mas talvez uma das coisas mais difíceis tenha sido crescer no meio de tudo isso.

Quando meu pai me buscava para passar alguns dias com ele, muitas vezes falava mal da minha mãe para mim. Eu ficava ali, ouvindo alguém que amo falar mal de outra pessoa que também amo. E não havia um lado para escolher, porque os dois eram meus pais. Eu não queria ouvir aquelas coisas, não queria precisar entender os problemas deles e muito menos carregar uma história que não era minha.

Era doloroso amar duas pessoas e, ao mesmo tempo, sentir que precisava suportar a mágoa que existia entre elas.

Meu pai também nunca soube muito bem se expressar. Muitas vezes, em vez de conversar comigo, gritava. Durante muito tempo, achei aquilo normal, talvez porque fosse a forma que eu conhecia de me relacionar com ele. Depois de algumas discussões, ele até melhorou um pouco. Hoje consigo perceber algumas mudanças, mas ainda sinto que não foi o suficiente.

E existe outra coisa que ainda é difícil para mim: muitas vezes sinto que não tenho escolha quando preciso ir para a casa dele. Por causa do divórcio, existem momentos em que simplesmente preciso ir, mesmo quando não quero. E quando digo que não quero, ele acaba reclamando, insistindo e se colocando como se fosse a vítima da situação, dizendo que é meu pai e que deveria estar com ele.

Mas ser pai não deveria significar apenas ter o direito de estar presente fisicamente.

Ser pai também deveria significar entender quando a filha está machucada. Escutar. Conversar. Respeitar.

Thoughts

  • Tania_R

    Eu tenho 29 anos e ainda me calo quando alguém da família fala mal de outro à minha frente. Comigo isso nunca virou coragem, virou hábito.

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  • Sergio_M

    Vou dizer uma coisa que talvez não caia bem aqui. O meu casamento não se desfez e os meus filhos ouviram na mesma coisas que eu não devia ter dito à frente deles. A casa manteve-se de pé e o estrago fez-se à mesma. O divórcio explica a logística de teres de ir. A parte de gritar em vez de falar já vinha antes.

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  • Nandinha

    Aposto que já te perguntaram várias vezes por que não te dás melhor com ele, como se isso fosse uma escolha tua. Toda a gente tem uma teoria sobre a família dos outros.

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  • LEIDIANE

    Faço visita em casa o dia inteiro e tem sempre uma mochila pronta no canto da sala. A criança sabe o dia, sabe a hora, e ninguém pergunta se ela quer ir. Os adultos combinam entre eles e depois avisam. Aqui em casa eu vi isso com os meus enteados sem que ninguém achasse estranho.

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  • Iraceminha

    Eu fui a avó dessa história. Passei anos falando do pai do meu neto na frente dele, achando que estava do lado certo, e um dia ele parou de vir na cozinha comigo. Demorei demais pra entender que a raiva era minha e quem carregava era ele. Sua avó lembra das palavras. Eu também lembrava das minhas.

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  • Dudinha

    Eu passo o dia com a mão das pessoas na minha ouvindo história de família, e essa de um dos pais falar do outro pra criança aparece toda semana. Ninguém que faz isso acha que está fazendo.

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  • BrunaSeixas

    Gostei muito daquela parte de não haver lado pra escolher porque os dois eram seus pais. Lá em casa a gente escolhia e ninguém nunca disse isso em voz alta.

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  • Bianquinha

    Minha turma de quatro anos já chega contando coisa de casa que ninguém pediu. Isso começa cedo mesmo. Você tem mais coisas escritas por aqui?

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  • Adenilson

    Pelo jeito que você conta, parece que virou a pessoa que guarda a informação dos dois lados e não pode entregar nenhuma. Se eu errei, me corrija.

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  • turismoDeQueixa

    Concordo demais com o final. Estar presente e escutar são duas coisas diferentes, e aqui em casa eu levei um tempo pra entender isso também.

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