Os números por trás de uma geração que cresceu, mas não amadureceu.
Ele tem entre 30 e 40 anos, currículo cheio, redes sociais em dia, talvez até um bom salário. Mas por dentro, não sabe responder a perguntas simples: quem sou eu, o que estou construindo, para onde estou indo. Casou-se tarde ou nunca casou. Trocou de emprego, de cidade, de relacionamento várias vezes, sempre em busca de algo que não consegue nomear.
Essa cena descreve boa parte da geração Millennials (nascidos entre 1981 e 1996). E os números confirmam: não é exceção, é padrão.
Uma geração que cresceu entre crises.
Os Millennials entraram no mercado de trabalho durante a crise financeira de 2008 e viveram a fase mais produtiva da vida adulta em meio à pandemia. Formaram-se em instabilidade econômica, familiar e, sobretudo, espiritual.
O casamento que não acontece (ou demora demais).
Nos Estados Unidos, a idade média ao primeiro casamento subiu de 24,9 para 28,6 anos entre as mulheres, e de 26,8 para 30,4 anos entre os homens, comparando 1990 e 2022. Em 2020, apenas 44% dos americanos entre 25 e 34 anos estavam casados — contra 53% da Geração X na mesma idade, em 1990. Projeções apontam que 1 em cada 4 jovens adultos pode nunca se casar.
No Brasil, o cenário é parecido. Entre 2003 e 2023, a proporção de mulheres que se casaram com 40 anos ou mais saltou de 8,2% para 25,1%; entre os homens, de 13% para 31,3% (IBGE). Em São Paulo, a idade média ao casar passou de 29 para quase 36 anos entre os homens no mesmo período. E enquanto os casamentos caem desde 2015, os divórcios sobem em 2023 foram quase 941 mil casamentos contra mais de 440 mil divórcios.
Uma geração exausta.
Um levantamento do instituto Yellowbrick apontou que 95% dos millennials relatam sintomas de burnout, e 75% dizem se sentir mentalmente exaustos. A Organização Mundial da Saúde reconhece o burnout como fenômeno ocupacional desde 2019 não é força de expressão, é diagnóstico.
No Brasil, as consultas psiquiátricas de millennials no SUS cresceram 34%. Um estudo de 2024 (Global Mind Project) mostrou que jovens de 18 a 34 anos têm, em média, apenas 38 pontos num índice que mede a capacidade de lidar com a rotina e manter o equilíbrio emocional número que indica dificuldade estrutural, não só cansaço passageiro.
A raiz que ninguém aponta: a ausência dos pais
Aqui está o ponto que a maioria das análises ignora. Para entender essa geração, é preciso olhar para os pais dela.
O divórcio foi legalizado no Brasil em 1977. A geração que criou os millennials — Baby Boomers e a primeira metade da Geração X ficou conhecida nos Estados Unidos como “geração da chave na porta”: crianças que voltavam da escola para casas vazias, reflexo do aumento dos divórcios e da menor supervisão parental daquela época.
Os números confirmam essa ruptura. O Censo 2022 do IBGE mostra que o Brasil tem 7,8 milhões de mulheres criando filhos sem a presença de um cônjuge, isso significa 2,6 milhões a mais do que em 2000. A proporção de famílias nessa condição subiu de 11,6% para 13,5% em 22 anos. Dados da Arpen mostram que o percentual de crianças registradas com “pai ausente” na certidão passou de 5,5% em 2018 para 6,9% em 2023. Estima-se ainda que 5,5 milhões de brasileiros não tenham registro paterno, e que quase 12 milhões de famílias sejam hoje chefiadas por mães solo.
A ciência é clara sobre o impacto disso: crianças que crescem sem a presença paterna têm mais chances de enfrentar dificuldades escolares, evasão e comportamentos de risco. Psicólogos descrevem esse efeito como uma espécie de amputação psicológica a figura paterna oferece referências práticas de estabilidade, segurança e enfrentamento de desafios que não são substituíveis.
Em outras palavras: não se ensina a prover e proteger a quem nunca viu isso sendo vivido em casa. E não se ensina ordenamento e posicionamento a quem cresceu sem referência estruturada de feminilidade amadurecida.
Adultos por fora, crianças por dentro
Essa é a chave para entender a crise millennial: não é preguiça, nem imaturidade proposital. É um processo de amadurecimento que ficou incompleto, porque a geração anterior também não recebeu essas ferramentas para transmitir.
O resultado é uma geração de adultos cronologicamente maduros, mas ainda em formação por dentro. E isso explica por que o casamento é adiado (ou evitado): a dificuldade não é encontrar a pessoa certa, é sustentar compromisso quando você nunca foi formado para isso.
O casamento paga a conta
Quando duas pessoas que não completaram seu próprio amadurecimento tentam construir uma união, o vazio pessoal não desaparece, ele vira conflito, distanciamento e, frequentemente, separação. Não é coincidência que os divórcios estejam subindo enquanto os casamentos caem.
Restaurar um casamento, muitas vezes, exige primeiro restaurar as pessoas que o compõem.
O caminho de saída
Diagnóstico não é suficiente. A saída passa por um processo intencional de amadurecimento em três dimensões: corpo, alma e espírito que resgate no homem os pilares de prover, proteger, procriar e propósito, e na mulher os pilares de ordenamento, amadurecimento, posicionamento e propósito.
Amadurecer não é uma questão de idade. É uma questão de processo.
Wesley Prates é enfermeiro e psicoterapeuta cristão, especializado em amadurecimento masculino e feminino e em restauração conjugal, criador do método Teleios.
Fontes: Pew Research Center, U.S. Census Bureau, IBGE, Seade, Arpen, Instituto de Psicologia da USP, Global Mind Project, Organização Mundial da Saúde, CNN Brasil, Jornal PUC-SP, Gazeta do Povo.