A Última Plataforma
por João Constantine
Partiste antes que a estação soubesse o meu nome,
enquanto cada relógio absolvia o tempo da fome.
O último comboio partiu sem perguntar porquê,
levando o único verão que ainda existia em mim.
Os teus passos perderam-se entre ferro, vapor e chuva;
os meus ficaram, ensaiando a mesma despedida.
Os bancos guardavam o calor das tuas mãos,
mas cada passageiro lembrava a minha solidão.
O altifalante anunciava destinos onde nunca cheguei;
o teu silêncio dizia mais do que tudo o que calei.
Um bilhete adormecia no bolso do meu casaco,
com um destino apagado pelo peso do fracasso.
Talvez todo o amor seja um comboio que deixamos partir,
uma despedida que nenhuma oração consegue impedir.
E se um dia voltares a cruzar estes carris,
encontrarás o meu coração na plataforma, à espera de um impossível.