Loucamente, minha escrita ganha sentido.
Normalmente, o tempo é relativo. Se existe momento para tudo, e quem quer, consegue.
Então, quem é aquele pivete?
Aquele no ponto de ônibus, que entra pela porta e me encara.
Seus olhos cansados, devastados por uma perda antiga.
Ele se senta ao meu lado. Sua postura me hipnotiza.
Quero dizer oi. Quero saber tudo sobre sua vida.
Mas é como se o gato tivesse comido a minha língua.
O tempo passa e estamos na mesma sala.
Quero me aproximar, ser sua amiga.
Mas, outra vez, algo me paralisa.
Até que, em uma manhã qualquer, ofereci uma bala.
O sorriso dele me deixou estupefata.
Mesmo com a melancolia, com aquele jeito distante, seu sorriso me quebrou em instantes.
Pelo resto do dia, e até na volta para casa, quem me via, notava.
Eu queria te ter de volta.
Mesmo que fosse apenas para admirar suas costas.
Para passar vergonha por tirar conclusões precipitadas.
A essa altura, já não deve se lembrar de nada.
Nem do meu nome, nem do número da minha casa.
Infelizmente, seu rosto foi tatuado na minha memória.
Seu timbre de voz ainda me atingiria como uma granada.
E a vontade de ser sua amiga continua forte, como no momento em que acabamos na mesma estrada.
(Autoral de Sids)