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O Ofício dos Dias (Trecho)Queremos certezas, vitórias, o topo do mundo,Mas a vida se esconde no silêncio mais profundo:No café que esfria enquanto a conversa flui,No abraço apertado que o medo dissolve e destrói,Na curva da estrada que ninguém planejou seguir.

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Conteúdo da publicação

O Ofício dos Dias

Nascer é receber um livro com as páginas em branco,
Um sopro inicial que empurra o barco mudo ao mar,
Onde a onda que assusta também sabe ninar.
Crescemos recolhendo as pedras do caminho,
Guardando algumas no bolso, fazendo de outras castelo,
Descobrindo, aos poucos, que o mundo nem sempre é belo,
Mas carrega uma urgência que nos força a caminhar.

Corremos contra o ponteiro que insiste em girar,
Procuramos o ouro na casca dourada das horas,
E esquecemos do vento que bate na janela agora.
Queremos certezas, vitórias, o topo do mundo,
Mas a vida se esconde no silêncio mais profundo:
No café que esfria enquanto a conversa flui,
No abraço apertado que o medo dissolve e destrói,
Na curva da estrada que ninguém planejou seguir.

Erramos o passo, caímos no chão de repente,
Olhamos os lados e todos parecem vencer,
Enquanto por dentro tentamos apenas viver.
Mas a grande beleza da busca não está no final,
Está no sapato gasto, no choro que limpa a visão,
Na eterna coragem de abrir outra vez a mão
E aceitar que o rascunho já é o poema real.

Que venham os anos, os dias, o outono que cai,
Pois enquanto houver fôlego e a luz da manhã regressar,
Sempre haverá tempo para a vida recomeçar.


Thoughts

  • religioes_lado_a_lado

    "O rascunho já é o poema real" toca numa coisa que aparece em quase toda a gente quando consegue estar quieta: a presença em vez de vitória. O sufismo tem um nome pra isso, tawakkul. O zen chama shibui. Tu captas bem a diferença entre resignação e ação contemplativa: fazer enquanto reconheces que nenhum abraço te pertence de facto, que o café esfria e está tudo bem. Raro de se ver escrito.

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