O Ofício dos Dias
Nascer é receber um livro com as páginas em branco,
Um sopro inicial que empurra o barco mudo ao mar,
Onde a onda que assusta também sabe ninar.
Crescemos recolhendo as pedras do caminho,
Guardando algumas no bolso, fazendo de outras castelo,
Descobrindo, aos poucos, que o mundo nem sempre é belo,
Mas carrega uma urgência que nos força a caminhar.
Corremos contra o ponteiro que insiste em girar,
Procuramos o ouro na casca dourada das horas,
E esquecemos do vento que bate na janela agora.
Queremos certezas, vitórias, o topo do mundo,
Mas a vida se esconde no silêncio mais profundo:
No café que esfria enquanto a conversa flui,
No abraço apertado que o medo dissolve e destrói,
Na curva da estrada que ninguém planejou seguir.
Erramos o passo, caímos no chão de repente,
Olhamos os lados e todos parecem vencer,
Enquanto por dentro tentamos apenas viver.
Mas a grande beleza da busca não está no final,
Está no sapato gasto, no choro que limpa a visão,
Na eterna coragem de abrir outra vez a mão
E aceitar que o rascunho já é o poema real.
Que venham os anos, os dias, o outono que cai,
Pois enquanto houver fôlego e a luz da manhã regressar,
Sempre haverá tempo para a vida recomeçar.