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A escola da EJA

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A escola da EJA: vantagens x desvantagens / oportunidades x adversidades

Por: Professor Edson Carlos de Sousa Leal

Introdução

A Educação de Jovens e Adultos (EJA) constitui uma modalidade de ensino destinada às pessoas que não tiveram acesso ou não puderam concluir a educação básica na idade considerada regular. Mais do que uma oportunidade de escolarização, a EJA representa uma possibilidade de transformação social, de ampliação da cidadania e de retomada de projetos pessoais e profissionais.

A Constituição Federal de 1988 reconhece a educação como um direito de todos. Posteriormente, a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (Lei nº 9.394/1996) consolidou a EJA como modalidade da educação básica. Nesse sentido, a legislação estabelece que a educação de jovens e adultos deve atender às características, aos interesses e às condições de vida e de trabalho desse público.

Marco inicial e histórico da EJA

A história da educação de adultos no Brasil está relacionada às desigualdades sociais e à necessidade de ampliar o acesso à educação. Um dos principais marcos históricos ocorreu na década de 1960, com as experiências de alfabetização desenvolvidas por Paulo Freire, que defendia uma educação baseada no diálogo e na realidade vivenciada pelos educandos.

Segundo Freire (1987), “ninguém liberta ninguém, ninguém se liberta sozinho”, ideia que evidencia a importância de uma educação construída coletivamente e voltada para a autonomia do sujeito.

A perspectiva freireana rompeu com a ideia de que alfabetizar significava apenas ensinar a ler e escrever. Para Freire, a leitura da palavra deveria estar relacionada à leitura crítica do mundo. Em suas palavras:

“A leitura do mundo precede a leitura da palavra, daí que a posterior leitura desta não possa prescindir da continuidade da leitura daquele.”

(FREIRE, 1989).

As experiências de Paulo Freire influenciaram profundamente a educação popular brasileira. Embora o percurso histórico da EJA tenha passado por diferentes programas e políticas públicas, a modalidade foi efetivamente incorporada à estrutura da educação nacional pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional – LDB, Lei nº 9.394/1996, especialmente nos artigos 37 e 38.

Metodologia

A metodologia da EJA deve considerar que seus estudantes possuem trajetórias de vida, experiências profissionais, conhecimentos prévios e responsabilidades diferentes das encontradas, em geral, no ensino regular. Por isso, o processo educativo precisa ser contextualizado, participativo e significativo.

A prática pedagógica pode utilizar aulas dialogadas, projetos, debates, estudos de caso, atividades interdisciplinares, recursos tecnológicos, produção textual e situações-problema relacionadas ao cotidiano dos estudantes. O objetivo não é apenas transmitir conteúdos, mas relacioná-los às experiências concretas dos educandos.

Nesse aspecto, a concepção de Paulo Freire permanece relevante. O autor afirma:

“Ensinar não é transferir conhecimento, mas criar as possibilidades para a sua própria produção ou a sua construção.”

(FREIRE, 1996).

Assim, a metodologia da EJA deve valorizar o estudante como sujeito do processo educativo. Seus conhecimentos adquiridos no trabalho, na família e na comunidade podem ser utilizados como ponto de partida para novas aprendizagens.

Público-alvo

A EJA tem como público-alvo jovens, adultos e idosos que não tiveram acesso ou não puderam concluir os estudos na educação básica na idade própria. Esse público é bastante heterogêneo: pode incluir trabalhadores, pessoas que interromperam os estudos por dificuldades econômicas, mães e pais que precisaram priorizar a família, pessoas que vivem em áreas rurais ou urbanas e indivíduos que buscam novas oportunidades profissionais.

Essa diversidade constitui, ao mesmo tempo, uma riqueza e um desafio para a escola. O professor precisa reconhecer diferentes ritmos de aprendizagem e evitar práticas que desconsiderem a história individual dos estudantes.

Finalidade da EJA

A finalidade da EJA ultrapassa a obtenção de um certificado escolar. Ela busca garantir o direito à educação, contribuir para a formação cidadã e ampliar as possibilidades de participação social e profissional dos estudantes.

Entre suas principais finalidades estão a alfabetização, a continuidade dos estudos, o desenvolvimento de conhecimentos e competências, a preparação para o mundo do trabalho e a formação de cidadãos capazes de participar de maneira crítica da sociedade.

A própria LDB estabelece que a EJA deve ser destinada àqueles que não tiveram acesso ou continuidade de estudos no ensino fundamental e médio na idade própria, constituindo-se como instrumento de educação e aprendizagem ao longo da vida.

Vantagens e oportunidades

Entre as principais vantagens da EJA está a possibilidade de retomar uma trajetória escolar interrompida. Para muitos estudantes, voltar à escola significa recuperar um direito que lhes foi negado ou que não puderam exercer anteriormente.

A conclusão dos estudos também pode ampliar oportunidades de emprego, facilitar o acesso a cursos técnicos e superiores e contribuir para o desenvolvimento da autoestima e da autonomia.

Outro aspecto importante é a convivência entre pessoas com diferentes experiências. A sala de aula da EJA pode tornar-se um espaço de troca de conhecimentos, no qual as experiências profissionais, familiares e comunitárias dos estudantes contribuem para a aprendizagem coletiva.

Além disso, a EJA pode favorecer a participação social. Uma pessoa que amplia sua escolaridade tende a encontrar maiores possibilidades para compreender documentos, exercer direitos, acessar serviços públicos, utilizar tecnologias e participar de decisões relacionadas à sua comunidade.

Desvantagens e adversidades

Apesar de sua importância, a EJA enfrenta diversas dificuldades. Uma das principais é a evasão escolar. Muitos estudantes precisam conciliar trabalho, família, transporte, responsabilidades domésticas e estudos. O cansaço após uma jornada de trabalho pode prejudicar a frequência e o rendimento escolar.

Também existem dificuldades relacionadas à infraestrutura das escolas, ao acesso às tecnologias, à formação específica dos profissionais e à necessidade de materiais didáticos adequados à realidade dos estudantes.

Outro problema é o preconceito. Algumas pessoas podem considerar que retornar à escola depois de adulto é motivo de vergonha, quando, na realidade, representa coragem e busca por melhores condições de vida.

A heterogeneidade das turmas também pode representar um desafio metodológico. Em uma mesma sala, podem existir estudantes com diferentes níveis de escolaridade, idades, conhecimentos e ritmos de aprendizagem. Dessa maneira, cabe à escola desenvolver estratégias capazes de acolher essas diferenças.

Oportunidades x adversidades

A EJA apresenta uma relação constante entre oportunidades e adversidades. De um lado, oferece a possibilidade de escolarização, qualificação profissional, crescimento pessoal e exercício da cidadania. De outro, seus estudantes enfrentam obstáculos relacionados às condições socioeconômicas, ao trabalho, à família, ao transporte, à falta de tempo e, muitas vezes, à própria estrutura educacional.

Por isso, garantir o acesso à EJA não é suficiente. É necessário assegurar também permanência, aprendizagem e conclusão dos estudos. A escola precisa construir um ambiente acolhedor, respeitoso e capaz de reconhecer os conhecimentos que cada estudante traz consigo.

Conclusão

A Educação de Jovens e Adultos representa uma importante política de democratização da educação brasileira. Sua trajetória histórica demonstra que a educação pode ser instrumento de emancipação, especialmente quando reconhece o estudante como sujeito ativo de sua própria aprendizagem.

As vantagens da EJA estão relacionadas principalmente à possibilidade de recuperar o direito à escolarização, ampliar oportunidades profissionais, fortalecer a autonomia e promover a cidadania. Entretanto, as adversidades enfrentadas pelos estudantes mostram que ainda existem barreiras que precisam ser superadas.

Dessa forma, pensar a escola da EJA exige compreender que cada estudante possui uma história. A escola deve acolher essas trajetórias e transformar as experiências de vida em possibilidades de aprendizagem. Como afirma Paulo Freire (1996), “não há docência sem discência”. Portanto, ensinar e aprender são processos inseparáveis, construídos por meio do diálogo, do respeito e da valorização dos sujeitos.

Referências

BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Brasília, DF: Presidência da República, 1988.

BRASIL. Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996. Estabelece as Diretrizes e Bases da Educação Nacional. Brasília, DF, 1996.

FREIRE, Paulo. A importância do ato de ler: em três artigos que se completam. São Paulo: Cortez, 1989.

FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996.

FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.

Thoughts

  • Ovid

    Evasão na EJA me parece mais uma questão de ônibus e de turno do que de sala de aula: o circular que passa às dez da noite, a escala que muda sem aviso, quem fica com as crianças. Aposto que todo professor de EJA guarda o nome de algum aluno bom que sumiu assim, no meio do semestre. Obrigado por trazer o tema pra cá, @Edson50!

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  • cita_a_fonte

    Entre Freire nos anos 60 e a LDB de 1996 fica o MOBRAL, criado em 1967 pelo regime militar, e o supletivo de 1971. Suspeito que boa parte da vergonha de voltar adulto à escola, que o texto refere, vem desse período.

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