A Crônica do Quadro
O Quadro da Bisavó Bernarda!
Nos anos 80 esse quadro deu o que falar e foi assunto por muito tempo.
Era um costume antigo, as pessoas decoravam as paredes das suas residências com os quadros de seus finados entes queridos, em especial eram colocados na sala, creio que por seu um cômodo neutro e o local onde as visitas e os próprios moradores ficam concentradamente reunidos. Pode ser também uma forma de mostrar gratidão.
Quando minha bisa faleceu, passados uns dias meu avô providenciou o retrato da Bisa Bernarda instalando-o na parede central da sala que dava de frente para a porta da rua, quem chegava na casa dos meus avós dava de cara com o quadro mas até aí foi zero de problemas aliás de fenômeno. A bisa Bernarda é “aquela do cigarro” que eu quase tomei uma surra no seu velório!
Com um detalhe:
Sem mentira nenhuma, a foto parecia que nos acompanhava com o olhar, olhando fixamente e sorrindo um sorriso sutil e tímido. A feição mudava para nós molecada, éramos normalmente mais de cinco crianças e todos tínhamos as mesmas convicções quando olhávamos, era sinistro demais mas não um fato assustador, transmitia respeito e nos passava um assombroso medo .
Todos os dias eu, meus irmãos e primos em determinado horário da noite nos postávamos em frente o famoso quadro e ficávamos atentamente observando, demorava uns minutos e o sorriso brotava na face da imagem, nisso chamávamos a avó Divina para ver a bisa sorrindo, quando ela chegava a imagem voltava à seriedade inicial.
Era um estranho fenômeno, como éramos crianças, caçoavam da foto dizendo:
___ A avó Bernarda está rindo, olha lá, olha lá! há hahaha l
E saímos correndo gritando igual uns loucos e novamente chamava a avó Divina mas ela não enxergava o tal sorriso espiritualmente falando, só nós mesmos.
E assim por meses e meses diria até anos, caçoando, zoando e até zombando sem a menor noção.
Enfim, quase todas as noite depois das sessão de zoeira, bagunça com a foto íamos dormir, era assim todos os dias desde cedo até a hora do descanso.
Certa noite, já era quase meia noite, avó Divina pediu para que nós crianças que lá estavam fosse fechar o porão, o detalhe é que todos estavam com aquele medo, no jargão popular, “aquele cagaço”. Mesmo assim fomos devagarinho, andando pra não chegar, e chegando no porão estava um breu danado, uma escuridão daquelas e para fechar o respectivo porão, tinha entrar para puxar a porta e quando eu o fiz, do fundo do porão surgiu um barulho tão assustador, medonho e tão alto que até os “cabelinhos do saco” arrepiaram e corremos, corremos apavorados e gritando de medo, quase um atropelando o outro, coisa do outro mundo.
Depois deste episódio nunca mais brincamos com a foto e dias após deste fenômeno a avó Divina removeu o quadro da sala e nunca mais o vimos.
Quem estava lá naquela noite e momento lembrará muito bem, mesmo porque não tinha como estar alguém ali ou um ser humano fazer o barulho que fez, de uma surrealidade gritante.
@PietrodeLuccaPoeta ✒️📝🖋️
Escritor, Poeta, Contista e Cronista
Athelier das Letras - Selo 444®
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