Ela virou a cabeça logo quando a mãe ia dizer o nome do miúdo. Se calhar não foi coincidência nenhuma, aposto que é para lá que ela vai.
A Aparição - Parte 16
Pensamento
Ela virou a cabeça logo quando a mãe ia dizer o nome do miúdo. Se calhar não foi coincidência nenhuma, aposto que é para lá que ela vai.
Conteúdo da publicação
A conversa continuou.
A mãe de Aurora começou a falar mais sobre a escola.
No começo, eram coisas pequenas.
Apelidos.
Piadas.
Comentários sobre sua pele.
Depois vieram as provocações mais constantes.
Os meninos esperavam por ela no caminho.
Às vezes cercavam Aurora.
Jogavam coisas nela.
Riam quando ela se assustava.
A mãe baixou os olhos.
— Ela nunca me contou tudo.
A psicóloga ficou em silêncio.
— Eu perguntava.
— E ela dizia que estava tudo bem?
— Sempre.
A mãe respirou fundo.
— Ela não queria me incomodar.
— Talvez achasse que você já tinha problemas demais.
— Eu era a mãe dela.
Ela olhou para Aurora através do vidro.
— Eu deveria ter percebido.
— Não se culpe.
— É difícil não me culpar.
A psicóloga ficou alguns segundos em silêncio.
— Crianças escondem coisas.
— Eu sei.
— Principalmente quando acham que contar vai piorar tudo.
A mãe assentiu.
— Ela tinha medo.
— Dos garotos?
— De tudo.
A mãe passou a mão pelo rosto.
— Ela não queria que eu fosse à escola. Não queria que eu falasse com os professores. Dizia que conseguia resolver.
A psicóloga olhou para Aurora.
— E não conseguia.
— Não.
A mãe ficou em silêncio.
Depois disse:
— Eu lembro de um deles.
A psicóloga levantou os olhos.
— Um dos garotos?
— Sim.
Ela olhou para Aurora.
— O nome dele...
Aurora se mexeu.
As duas pararam.
Foi apenas um movimento.
Quase nada.
A cabeça de Aurora começou a girar lentamente.
Para o leste.
Devagar.
Sem susto.
Sem pressa.
A mãe ficou imóvel.
— Aurora?
A garota continuou virando a cabeça.
Os olhos acompanharam a direção.
Depois o corpo começou a se deslocar.
Primeiro alguns centímetros.
Depois mais.
Aurora flutuava a aproximadamente meio metro do chão.
Mas a maneira como se movia parecia quase uma caminhada.
Sem esforço.
Sem impulso.
Como se houvesse um chão invisível sob seus pés.
Apenas não havia.
Um alarme começou a tocar.
Depois outro.
As luzes vermelhas acenderam no corredor.
— O que está acontecendo?
Soldados correram.
Portas foram fechadas.
Ordens começaram a ser gritadas.
Aurora continuou.
Chegou ao primeiro obstáculo.
Uma barreira metálica.
Não parou.
Seu corpo atravessou a estrutura.
O metal que tocou nela não atravessou seu corpo.
Aconteceu o contrário.
A barreira começou a se deformar.
O metal dobrou.
Amassou.
Foi comprimido contra o corpo da garota como se tivesse passado por uma prensa industrial.
Aurora sequer olhou.
Continuou andando.
— NÃO ATIREM!
A ordem veio tarde.
O primeiro disparo ecoou.
Depois outro.
Depois dezenas.
Os tiros atingiram Aurora.
As balas caíam no chão.
Algumas ricocheteavam.
Outras simplesmente se deformavam.
Nenhuma penetrava.
Aurora não reagiu.
Não levantou os braços.
Não acelerou.
Não olhou para os soldados.
Continuou avançando.
A psicóloga permanecia atrás do vidro.
A mãe estava ao lado dela.
Nenhuma das duas conseguia falar.
— Parem de atirar! — alguém gritou.
Ninguém parecia ouvir.
O pânico havia tomado conta do complexo.
Mais tiros.
Aurora continuava.
A roupa começou a rasgar com os disparos.
O tecido se abriu.
Depois se desprendeu.
A garota ficou completamente nua.
Mas não havia ferimento.
Nenhuma gota de sangue.
Nenhuma marca.
Nada.
Ela continuava se deslocando com a mesma velocidade.
Devagar.
Como uma pessoa caminhando sem pressa.
Um veículo militar tentou bloquear sua passagem.
Aurora continuou.
O veículo começou a amassar.
Primeiro o capô.
Depois as laterais.
O teto desceu.
O metal foi comprimido exatamente na altura em que Aurora passava.
O carro terminou deformado no chão.
Aurora atravessou.
Um trator veio em sua direção.
O motorista abandonou a cabine.
Aurora passou.
O veículo inteiro se dobrou sobre si mesmo.
Outro equipamento foi esmagado.
Uma estrutura metálica cedeu.
Cabos arrebentaram.
Vidros explodiram.
Tudo aquilo que estava no caminho de Aurora parecia encontrar uma força invisível na altura de meio metro.
E tudo era esmagado.
A garota não fazia nenhum gesto.
Não empurrava.
Não golpeava.
Não parecia sequer perceber.
Apenas seguia.
A psicóloga olhou para a mãe.
— Ela está indo para algum lugar.
A mãe não respondeu.
Seus olhos estavam presos na filha.
— Aurora...
A garota já estava do lado de fora.
Continuava pela floresta.
Os soldados ainda atiravam.
Os disparos ecoavam entre as árvores.
Aurora atravessava tudo.
Galhos.
Barreiras.
Equipamentos.
Veículos.
Nenhuma coisa parecia capaz de pará-la.
E ela continuava na mesma velocidade.
Sem correr.
Sem fugir.
Sem atacar.
Como se simplesmente estivesse caminhando para algum lugar que somente ela conhecia.
Ou talvez nem isso.
Talvez tivesse apenas virado a cabeça para o leste.
E começado a andar.
A mãe permaneceu olhando.
A psicóloga também.
Atrás delas, o complexo inteiro parecia ter entrado em colapso.
À frente, entre as árvores, Aurora desaparecia lentamente.
Ainda flutuando.
Ainda tranquila.
Ainda sem dizer uma palavra.
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