O avô pedindo pra neta esperar enquanto vira o vidro. Tive minha versão disso, com o telefone na mão, e quando levantei o olho a porta também estava aberta.
A Ampulheta e o Relojoeiro.
Pensamento
O avô pedindo pra neta esperar enquanto vira o vidro. Tive minha versão disso, com o telefone na mão, e quando levantei o olho a porta também estava aberta.
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Havia, em um antigo castelo de torres altas e corredores intermináveis, uma pequena ampulheta que repousava sobre a mesa de um velho relojoeiro da corte.
Ela tinha duas câmaras de vidro unidas por uma cintura estreita, e dentro delas vivia um punhado de areia dourada. Quando virada, a areia escorria de cima para baixo, grão por grão, como se o mundo estivesse desmoronando em silêncio.
O relojoeiro a consultava para tudo. Queria saber quanto durava o chá servido à rainha, quanto demorava um mensageiro a atravessar os portões, quantos minutos separavam a partida de alguém da saudade que ficava. Até mesmo quando não tinha compromisso algum, virava a ampulheta só para ter certeza de que o tempo continuava passando.
Certa noite, enquanto a lua iluminava as ameias e os vitrais lançavam sombras compridas sobre o chão, a ampulheta resolveu falar.
— Por que me viras tantas vezes?
O homem se assustou. Deixou cair a colher dentro da xícara.
— Porque preciso contar o tempo.
— E por que precisas tanto contá-lo?
— Para saber quanto ainda me resta.
A ampulheta ficou quieta por alguns instantes. Um grão de areia atravessou sua cintura.
— Mas, enquanto contas o que resta, não percebes o que está passando.
O relojoeiro franziu a testa. Não gostou daquela resposta. Era um homem que confiava nas medidas, nas linhas retas e nas coisas que podiam ser anotadas num caderno. Aquela história de perceber o tempo lhe parecia conversa de quem não tinha nada melhor para fazer.
No dia seguinte, decidiu aperfeiçoar seu método. Mandou construir uma ampulheta maior, com mais areia, e passou a observar cada grão que descia. Quando a última partícula chegava ao fundo, ele imediatamente a virava. Não queria perder nem mesmo o intervalo entre um ciclo e outro.
Com o passar dos dias, tornou-se prisioneiro de sua própria vigilância. Se os sinos anunciavam a troca da guarda, ele olhava para a ampulheta. Se o sol atravessava os vitrais do salão, calculava quanto faltava para o meio-dia. Se uma borboleta entrava pela janela da torre, perguntava-se quantos segundos ela permaneceria ali.
Até que, numa manhã de primavera, sua neta apareceu trazendo um pequeno vaso com uma flor azul.
— Vovô, olha o que nasceu!
O homem ergueu os olhos por um instante. A flor era delicada, com pétalas que pareciam feitas de céu. Ele sorriu, mas logo percebeu que a areia estava quase no fim.
— Espere só um pouquinho, minha menina. Preciso virar a ampulheta.
Quando terminou, a menina já havia descido as escadarias para brincar no pátio.
Ele a chamou, mas ela não ouviu. Ficou olhando para a porta aberta, sentindo que alguma coisa lhe escapara, embora não soubesse dizer exatamente o quê.
Naquela noite, sonhou que estava no grande salão do castelo, diante de uma ampulheta tão alta que sua extremidade superior desaparecia entre as vigas do teto. A areia caía como uma chuva interminável, e uma voz, vinda de algum lugar entre os grãos, ordenou:
— Conta!
Ele começou a contar.
Um, dois, três, quatro...
Contou até perder a voz. Quando já não conseguia pronunciar os números, a voz tornou a ordenar:
— Vira!
O homem empurrou a ampulheta. A areia voltou a cair. Ele contou novamente, virou outra vez e tornou a contar. Fez isso durante o sonho inteiro, desesperado para não deixar o tempo sem medida.
Então percebeu uma coisa terrível: o castelo mudava a cada virada. Os salões eram reformados e depois desabavam, os retratos dos antepassados escureciam, os criados envelheciam, os reis subiam ao trono e eram levados para suas criptas. Crianças cresciam, amantes se despediam, e até os vitrais perdiam suas cores.
Tudo acontecia enquanto ele mantinha os olhos presos à ampulheta.
Ao despertar, encontrou a neta sentada ao lado da cama. Ela havia voltado para lhe mostrar outra flor, dessa vez amarela.
O relojoeiro olhou para a mesa. A areia estava quase toda no fundo.
Sua mão se moveu por hábito, pronta para virar o vidro, mas parou no caminho.
Pela primeira vez, deixou que a areia terminasse de cair.
E, quando o último grão repousou no fundo, nada de extraordinário aconteceu. Os sinos não se calaram, o castelo não desmoronou, e nenhuma tragédia veio cobrar os segundos que ele deixara de medir.
A menina começou a contar uma história sobre um sapo que acreditava ser rei. O velho a ouviu até o fim. Depois, os dois caminharam até a galeria que dava para os jardins internos, onde a flor azul já havia aberto uma segunda pétala.
A ampulheta permaneceu sobre a mesa, imóvel, esperando.
Na manhã seguinte, o relojoeiro voltou a virá-la. Afinal, ainda precisava medir algumas coisas. Mas aprendeu a não obedecer ao vidro como quem obedece a um senhor. Às vezes, deixava a areia correr enquanto conversava; outras vezes, esquecia completamente que ela existia.
E houve tardes em que a ampulheta ficou deitada de lado, sem contar coisa alguma, enquanto o velho e a menina observavam os raios de sol atravessarem os vitrais e desenharem pequenas catedrais coloridas no chão do castelo.
Dizem que, muitos anos depois, quando o relojoeiro já não podia mais caminhar até a galeria, sua neta encontrou a ampulheta ao lado de sua cama. Dentro dela, a areia havia se acomodado em pequenas dunas.
A moça pegou o objeto, pensou em virá-lo, mas desistiu.
Sentou-se junto à janela e ficou ali, vendo a tarde desaparecer por trás das torres.
A lógica, quando se torna senhora de tudo, transforma a vida numa equação e o tempo numa obrigação. Há pessoas tão ocupadas em medir, calcular e compreender cada instante que se esquecem de que nem tudo o que tem valor pode ser explicado, e nem tudo o que pode ser contado merece nossa atenção. Afinal, de nada serve compreender perfeitamente a passagem do tempo se não sabemos nos permitir vivê-lo.
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