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A Adicção: morte em vida.

Dorand2026
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No meio do ano de 2014, experimentei cocaína pela primeira vez. O bem-estar que senti naquele momento é difícil de descrever. Naquele dia, eu não estava bebendo, mas fiquei extremamente falante,…

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Ovid

Ter medo da cocaína hoje, depois de anos acreditando que ela era o motor de tudo, me fez pensar em como o medo às vezes é a coisa mais honesta que sobra de uma história assim. Aposto que tem gente lendo isso aqui em silêncio que vai lembrar do fiado e da

Ter medo da cocaína hoje, depois de anos acreditando que ela era o motor de tudo, me fez pensar em como o medo às vezes é a coisa mais honesta que sobra de uma história assim. Aposto que tem gente lendo isso aqui em silêncio que vai lembrar do fiado e da amostra oferecida na hora certa. Obrigado por contar com tanto detalhe.

Conteúdo da publicação

No meio do ano de 2014, experimentei cocaína pela primeira vez. O bem-estar que senti naquele momento é difícil de descrever. Naquele dia, eu não estava bebendo, mas fiquei extremamente falante, como se estivesse sob efeito do álcool. Minha vida, naquela época, era uma luta diária: graduação, um filho com necessidades especiais, casa, marido e pesquisas científicas. Foi então que a cocaína me enganou, apresentando-se como uma espécie de força motriz capaz de me fazer realizar tudo com excelência e perfeição.

Comecei usando 1 g por semana. Naquela época, essa quantidade era suficiente para uma semana inteira de produtividade. Mas logo veio o preço: 1 g já não era suficiente, e a quantidade foi aumentando. Resolvi parar e deixar o uso apenas para as festas. Foi quando comecei a misturá-la com bebida alcoólica, e a sensação parecia ainda mais intensa. Então veio outro preço: o alcoolismo.

Os anos passaram e, em 2019, eu já usava cocaína todos os dias, em quantidades cada vez maiores. Comecei a vivenciar episódios de despersonalização, mudei meus comportamentos e também meu círculo de amizades.

Em 2022, eu já estava envolvida com traficantes e com outras pessoas que também enfrentavam a dependência. Abandonei minha graduação durante a pandemia e passei a viver em função daquela sensação de bem-estar.

Eu recebia a pensão dos meus filhos e sempre procurei mantê-los com esse dinheiro, mas também utilizava parte do que recebia para comprar a substância. Meu transtorno de personalidade limítrofe piorou, e eu passei a acreditar que só conseguia ser produtiva quando usava cocaína.

A cocaína provocava insônia. Para conseguir dormir, usei cetamina, mas ela me deixava letárgica; então recorria novamente à cocaína para conseguir acordar e funcionar. Formou-se um ciclo cada vez mais caro e destrutivo.

Um dos meus grandes erros foi começar a comprar fiado. No início, eu ainda acreditava que tinha disciplina suficiente para comprar apenas aquilo que conseguiria pagar. Mas o comércio de drogas funciona de maneira perversa. Muitas vezes, ofereciam uma nova substância gratuitamente, com frases como: “Experimenta essa aqui para ver se é boa; vou colocar na sua mão de graça.” Depois da primeira experiência, a vontade de repetir podia falar mais alto.

No auge da minha dependência, tornei-me extremamente inconsequente. Tive relações sexuais sem proteção, frequentei festas com pessoas envolvidas em situações de risco, fiz empréstimos e tomei decisões que hoje reconheço como consequências de um período de profundo adoecimento.

Até que perdi a pensão e precisei utilizar meu próprio dinheiro para sustentar a casa. As dívidas contraídas com os traficantes começaram a ser cobradas. Levaram utensílios da minha casa, minha família descobriu a situação e o pai dos meus filhos passou a exercer a guarda das crianças. Foi nesse período que meu transtorno de personalidade limítrofe também contribuiu para consequências muito dolorosas na minha vida.

Naquele mesmo ano, engravidei de outro homem que também enfrentava dependência química. Eram gêmeos.

Fui morar com minha mãe, mas, durante um momento de fissura, peguei dinheiro dela. Isso fez com que ela me expulsasse de casa.

Com o apoio do CAPS AD, fui para uma casa de apoio. Eu estava sem dinheiro, sem meus filhos e profundamente doente. Eu havia chegado ao que muitas pessoas chamam de “sarjeta”.

Depois, consegui morar com meu avô, na casa onde cresci. Minha gravidez foi difícil. O tratamento da dependência e do transtorno precisou ser limitado em alguns aspectos por causa da segurança dos bebês. Foi um dos períodos mais dolorosos da minha vida.

A culpa por ter usado drogas durante a gravidez era tão grande que, paradoxalmente, muitas vezes me fazia querer usar ainda mais. Até hoje me pergunto como alguém pode sentir tanta culpa e, ao mesmo tempo, continuar repetindo aquilo que causa a própria dor.

Foi então que passei a pedir a Deus pela vida dos meus filhos. Eles nasceram saudáveis e, felizmente, não apresentaram sequelas decorrentes daquele período.

Minha recuperação não aconteceu de um dia para o outro. Foi construída com tratamento, enfrentamento da dependência, fé, oração e muitas quedas e recomeços. Hoje, ainda existem consequências daquela história. Não tenho a mesma confiança de parte da minha família, e sei que algumas feridas precisam de tempo para cicatrizar. Até hoje, muitas pessoas não me oferecem espaço para falar, confiança ou apoio; oferecem apenas julgamentos, preconceito e distância.

Mas uma coisa mudou completamente: hoje eu tenho medo da cocaína. Foi uma das substâncias mais viciantes e enganadoras que já conheci.

Por isso, se existe alguém lendo este relato e pensando em experimentar, eu peço: não faça isso. Não confie em quem tenta apresentar a droga como diversão, produtividade, liberdade ou solução para os seus problemas. Aquilo que inicialmente parece oferecer alguma coisa pode, com o tempo, cobrar um preço muito alto.

Eu gostaria de poder apagar essa parte da minha memória. Mas, já que não posso, escolho transformar essa experiência em testemunho.

Escrevo porque quero que minha história sirva de alerta para pessoas que estão escravizadas por uma droga e ainda acreditam que conseguem controlar o uso. A dependência pode destruir relacionamentos, famílias, saúde, reputação, carreira e até a percepção que temos de nós mesmos.

Mas a história não precisa terminar aí.

A dependência química é uma condição tratável. Existe recuperação, embora ela possa exigir tratamento profissional, apoio psicossocial, acompanhamento médico e uma rede de suporte.

Eu sobrevivi a uma fase da minha vida que pensei que jamais conseguiria superar. Hoje, quero usar aquilo que vivi para lembrar outras pessoas de que pedir ajuda não é fraqueza.

Se você está enfrentando dependência química, procure um CAPS AD, um serviço de saúde ou um profissional especializado. Você não precisa atravessar isso sozinho.

Thoughts

  • meiaTarde

    Primeiro 2014, depois 2019, depois 2022, cada ano um passo mais fundo. Contado assim, com as datas, vê-se como foi devagar e como ninguém dá por nada no início.

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  • fioAtras

    A casa de apoio passa em uma linha só, entre a expulsão e a casa do avô. Fiquei curiosa por esse tempo ali, que parece ter sido a virada e quase não aparece.

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  • Ovid

    Ter medo da cocaína hoje, depois de anos acreditando que ela era o motor de tudo, me fez pensar em como o medo às vezes é a coisa mais honesta que sobra de uma história assim. Aposto que tem gente lendo isso aqui em silêncio que vai lembrar do fiado e da amostra oferecida na hora certa. Obrigado por contar com tanto detalhe.

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