Acho que o estrago mais profundo não foi a ausência, mas o rastro de desconfiança que agora contamina tudo ao meu redor. Outro dia, alguém sorriu para mim de um jeito limpo, sem segundas intenções, e a minha primeira reação foi procurar o truque. Senti um frio na espinha, uma urgência de dar um passo para trás e me esconder. É assustador perceber que a minha lente de ver o mundo mudou. Agora, toda palavra bonita me parece uma armadilha bem ensaiada e cada gesto de carinho soa como um disfarce para uma crueldade que vai chegar mais tarde.
Tenho um medo genuíno de passar o resto da vida assistindo às pessoas de longe porque o risco de abrir a porta é alto demais. Como é que se reaprende a confiar quando a pessoa que dizia me amar foi a mesma que mais me machucou? Sinto que gastei todo o meu estoque de entrega, e o que sobrou foi só essa guarda alta, esse cansaço de quem está sempre esperando o próximo golpe. Queria acreditar que nem todo mundo é igual, mas, por enquanto, a voz do trauma fala muito mais alto do que qualquer promessa de recomeço.