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Zoé

Judson_Kaique

Conteúdo da publicação

Há muitos anos atrás, entre 1860 e 1875, houve uma mulher chamada Zoé: autêntica, culta, alquimista e escritora. Uma mulher única em um tempo em que mulheres não podiam exercer grandes papéis na sociedade.

Mas Zoé não era obtusa. Entendia de matemática, química e alquimia. Enquanto um homem dava um passo rumo a uma nova descoberta, Zoé já estava na linha de chegada.

Feroz, astuta, curiosa, valente como um urso polar.

Mas havia algo diferente em Zoé. Seu conhecimento era tão vasto quanto a descoberta do Novo Mundo — as Índias, a América — em 1501.

Zoé se questionava: o que lhe faltava? Havia casa, comida, conhecimento, família, mas algo ainda perdurava em seu peito: a pulsão pela vida, assim como pela morte.

Um Thanatos? Uma Gaia? Zoé estava confusa e submersa nessa questão.

Um certo dia, uma senhora sussurrou em seu ouvido enquanto Zoé cochilava. Mas seu cochilo era tão leve quanto uma pena. E lá estava ela, deitada em um campo de rosas vermelhas, onde também havia um pomar e um riacho tão cristalino, tão azul. O riacho emitia uma espuma leve e branda, como se insinuasse a chegada do nascimento de Vênus.

A senhora, de cabelos loiros como fios tecidos em ouro egípcio, olhos tão azuis quanto o céu sem nuvens numa tarde de terça-feira qualquer, fez um breve sussurro no ouvido de Zoé:

— O que lhe aflige? — disse a mulher, que por ora não tinha nome, não tinha história, nada a dizer sobre si.

Zoé, por sua vez, questionou:

— Quem é a senhora e o que deseja?

A senhora, com um leve sorriso no rosto, exclamou:

— Vejo que está perdida, mas não no mundo. Está perdida dentro de si mesma.

Zoé fez um questionamento:

— Então a senhora sabe por que penso o que penso?

— Sim — exclamou a senhora.

Com certas palavras, a senhora foi desenvolvendo um diálogo amistoso e harmônico com Zoé.

— Olhe para o céu, o pomar, o campo tão repleto de rosas vermelhas quanto um bosque na imensidão de espinhos. Você questiona a vida, Zoé — disse a senhora. — Ninguém em si deseja a morte enquanto a virtude e a vontade de viver prevalecem. Os animais cantam, anunciando um novo dia. Folhas caem, anunciando uma morte e uma chegada. Maçãs apodrecem, anunciando o fim de suas vidas. A água flui, anunciando que tudo é mutável e nada é eterno — disse a senhora, com os olhos brilhando.

Zoé havia entendido: é preciso ter algo para se agarrar, é preciso ter fé para viver, é preciso ter garra para prevalecer.

— Bom, você entendeu o propósito — disse a senhora.

Ao entardecer, a senhora havia desaparecido atrás do pomar. O que saiu de lá? Uma borboleta-monarca, representando, assim, o nascer, o crescer, a vontade de viver e, assim, o fim de todas as coisas.

Zoé havia se sentido livre, mas ao mesmo tempo triste pela despedida singela da senhora.

A vida pode ser agridoce, pode ser colorida, monocromática, ou um oceano em tempestades intensas, como se Poseidon estivesse furioso.

Viver envolve desfrutar, amar, amar a si, assim como se pode amar os outros. É ter uma vida tranquila, é realizar seus sonhos, ter aspirações.

A verdade é que a vida é única para todo ser, e cada um está aqui buscando seu verdadeiro propósito.

Thoughts

  • calourafrita

    A senhora sumindo atrás do pomar e no lugar dela saindo uma borboleta-monarca foi a parte que eu mais gostei 🦋 Zoé ganha a resposta e perde a companhia na mesma tarde.

    Permalink
  • marryhelp

    Ótima descrição, inclusive, gostaria de ver mais sobre Zoé.

    Permalink
  • marryhelp

    Eu ainda não achei esse propósito.

    A vida, para mim nesse momento, é monótona e sem sentido.

    É indescritível a tristeza e o vazio que eu sinto.

    Eu odeio sair de casa.

    Permalink

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