Você ainda mora em tudo que escrevo.
Existe uma pergunta que me atravessa desde que você foi embora.
Como pode doer tanto alguém que, aos olhos do mundo, eu mal conheci?
Nunca dividimos uma casa. Nunca discutimos por louças na pia. Nunca aprendemos os horários uma da outra, nem a temperatura exata do abraço. Ainda assim, quando você saiu da minha vida, levou consigo um silêncio grande o bastante para fazer eco em tudo que ficou.
Talvez exista um amor que não precisa do toque para criar raízes.
Porque eu conhecia a sua voz como quem conhece o caminho de casa. Eu reconhecia seus silêncios antes das suas palavras. Eu esperava suas mensagens como quem espera o primeiro raio de sol depois de uma noite longa demais.
E isso nunca foi pouco.
Passei dias tentando convencer meu coração de que era exagero. Chamei de carência. Chamei de hiperfoco. Inventei qualquer nome que doesse menos.
Até perceber que eu não via você através de outra pessoa.
Era você.
Sempre foi você.
Hoje, quando aqueles vídeos aparecem, já não encontro o rosto que procurava. Encontro apenas a lembrança da mulher que eu enxergava neles. A saudade tem esse talento cruel de transformar qualquer detalhe em endereço.
E tudo me leva de volta para você.
O mais bonito — ou talvez o mais triste — é lembrar que, antes de você, eu tinha feito uma promessa.
Depois de tudo que vivi, eu me tornaria inalcançável.
Construí muros altos. Fiz da distância uma forma de sobrevivência. Convenci a mim mesma de que ninguém pisaria outra vez nos lugares onde ainda existiam ruínas.
Eu seria intocável.
Então você apareceu.
E sem perceber, não derrubou os meus muros.
Fez com que eu abrisse o portão.
Você devolveu movimento a um coração que tinha aprendido apenas a resistir. Fez nascer sentimentos que eu acreditava terem morrido junto com as versões antigas de mim.
É curioso...
As pessoas dizem que o amor acontece quando dois corpos finalmente se encontram.
Mas ninguém conta que, às vezes, duas almas se reconhecem antes.
E talvez seja justamente por isso que a ausência doa tanto.
Porque o corpo sente falta do abraço.
Mas a alma sente falta de quem finalmente a fez acreditar, outra vez, que amar ainda era possível.
Desde que você foi embora, converso com Deus quase todos os dias.
Não peço mais para que você volte.
Peço apenas forças para sobreviver à saudade que insiste em pronunciar seu nome dentro de mim.
Porque há dias em que tudo o que escrevo é você.
Tudo o que lembro é você.
Tudo o que ainda sobra de amor... também é você.
E talvez esse seja o destino de alguns amores.
Não serem vividos por inteiro.
Mas permanecerem eternamente escrevendo quem nós fomos.