Dez de Julho de dois mil e vinte e seis
Entretanto, diante de tantos infortúnios que têm ocorrido em minha vida como docente e como ser humano — cujo nome não é importante neste momento —, o dia de hoje parece mais gélido que o habitual. E não é devido a alguma massa de ar polar que esteja se deslocando pelo Centro-Oeste brasileiro, pois nem mesmo o sol resolveu iluminar este início de manhã.
Parafraseando a saudosa cantora da MPB, Maria Rita: "Todos os dias é um vai e vem; a vida se repete na estação. Tem gente que chega para ficar e tem gente que vai para nunca mais."
Todavia, jamais imaginei que chegaria a minha vez de ver partir um dos meus. Digo "meus" porque considero todos os meus alunos como filhos. Certa vez — infelizmente não me recordo onde ouvi esta história —, um senhor acometido pelo Mal de Alzheimer, já profundamente dissociado da realidade, a ponto de não reconhecer a própria esposa, ao receber a notícia do falecimento repentino de seu filho, repousou o jornal que tentava ler com certa dificuldade e disse:
"Um pai jamais deve enterrar seus filhos. Isso é uma afronta à natureza."
Se, ao reproduzir essa citação, caro leitor, acabei acrescentando alguma palavra que não fazia parte do texto original, peço minhas sinceras escusas. Contudo, da mesma forma que um pai não deveria enterrar seu filho, um professor jamais deveria enterrar seu aluno. Isso, literalmente, é uma afronta à ordem natural das coisas.
E, neste momento de profundo desabafo, ainda acrescento: foram poucos — ouso dizer, talvez quase nenhum — os meus colegas que perceberam a fragilidade desse meu filho. Poucos se preocuparam em notar que, em um dia, ele parecia feliz e, no outro, caminhava de cabeça baixa, em silêncio, chorando.
Longe de mim colocar-me como santo ou santificar minhas próprias condutas. Entretanto, acredito que consegui, ainda que por poucos meses, retardar o que já parecia estar tão próximo: o autoextermínio. Não sei por que ele não me ligou, como tantas outras vezes havia feito. Talvez tenha acreditado que partir sem se despedir causaria menos preocupação.
Meu querido filho, só posso lhe pedir perdão 6,02 × 10²³ vezes pelos momentos em que não lhe dei a atenção que você merecia. Saiba que o seu sorriso fará imensa falta neste mundo tão caótico.
Obrigado por ter me dado a oportunidade de ser, de alguma forma, seu pai. Estou com saudades.