A minha vida inteira morei em Goiânia, no Goiás. Grande parte da minha família e amigos também mora lá. Vivia brincando com filhos dos colegas de infância do meu pai em várias casas, parques e outros lugares. No começo de 2020, tive a oportunidade de visitar a cidade que, futuramente seria a minha nova casa. A viagem foi a carro, demorada e cansativa, então é de se imaginar que eu, sendo criança, assim que cheguei estava extremamente empolgado.
Nossa estadia periódica em Salvador foi na pousada Maresia, dos pais de um amigo do meu pai cujo apelido é “Zé”. Assim como Pero Vaz de Caminha relatou o choque cultural e o estranhamento ao ver os povos indígenas pela primeira vez, eu também vivi o meu próprio choque de descobrimento ao chegar no Pelourinho no segundo dia: de cara, vi muitas pessoas negras, afinal, eu estava e estou na cidade com mais negros fora da África, com sotaque diferentíssimo do meu, tambores estentóreos tocando para todos os lados e muitas cores. Eu, menino amarelo que era, não me agradei e queria voltar para a pousada, pois lá havia piscinas, gente conhecida e, de certa forma, acesso às praias.
Apesar de não ser local e não conhecer as pessoas, quando caminhava nas praças de Salvador, frequentemente era cumprimentado por aqueles que faziam suas caminhadas matinais. Intriguei-me com a educação da gente dessa terra, apesar dos goianienses também serem simpáticos, nada ganha do sotaque de um baiano soteropolitano falando “Bôa” para se referir a saudação “Boa tarde”.
Eu acho que nunca senti tanto calor na minha vida. Em Goiânia, há períodos que as temperaturas são muito altas, mas lá é seco, então não parece que estou dentro de uma sauna, como parecia nos primeiros dias aqui. Como já relatei, sou enjoado, então é de se imaginar, e acertar, que não comi absolutamente nada além do que já conhecia enquanto estive de viagem aqui. Acarajé, vatapá, moqueca, siri... Tudo isso me parecia comida de alienígena (até hoje não como, mas passei a respeitar quem o faz).
Permaneci em solo baiano por duas semanas até regressar novamente para meu lar e, quando cheguei, senti falta da umidade. Boca rachando e nariz doendo, a sauna agora parecia o céu. Mas eu me sentia feliz, realizado de ter voltado para casa. Essa viagem foi importante para mim por dois motivos principais: o primeiro era aprender que eu deveria valorizar o meu tempo próximo a família, pois depois de um ano dessa viagem, eu receberia a notícia da transferência do meu pai para Salvador, a qual me deixou desconcertado, pois eu sabia que acabaria por estudar no CMS, e um de meus primos havia estudado em um colégio cívico militar alguns anos antes, e ele disse que era a pior coisa do mundo. O segundo foi para começar o polimento da alma que eu recebi nessa cidade. Goiânia me formou, cuspiu a matéria bruta, e Salvador, capital do axé, me lapidou. Hoje em dia eu não quero mais ir embora, mas sinto uma falta enorme dos meus avós, primos e primas, tios e tias, juntos numa mesa comemorando o Natal e fazendo um amigo secreto seguido da ceia que nos deixaria com azia por dias seguidos.