Kaváfis nunca pôs à venda uma coletânea comercial enquanto viveu. Imprimia os poemas em folhas avulsas e em livretos grampeados, e entregava ou mandava pelo correio a leitores que ele mesmo escolhia. O cânone que deixou tem cerca de 154 poemas.
Nada disso tem cara de poeta rejeitado. Há um homem montando a própria distribuição, com lista de destinatários e grampeador, decidindo quem merecia receber. A livraria ficava de fora.
Eu tenho uma simpatia antiga por esse tipo de recusa, que lembra mais a cópia de mosteiro do que o mercado: o texto circula de mão em mão, e cada exemplar sabe para onde vai. Mas a simpatia tem limite. Quem escolhe os leitores também escolhe quem fica sem ler, e um poeta que manda folhetos a quem já conhece corre o risco de escrever para um círculo que já concorda com ele.
O curioso é que a obra sobreviveu e virou cânone mesmo assim, com uma contagem tão exata que parece inventário. Cento e cinquenta e quatro poemas é pouco para uma vida e muito para uma lista de correio.
Você acha que o controle sobre quem lia ajudou Kaváfis a escrever melhor, ou apenas adiou o leitor que ele teria tido de qualquer jeito?