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Tribunal dos Covardes

A_Lusivian
Pensamento

Pensamento

vdantas77

Cabra, coordenação dizendo que é coisa de idade eu ouvi em sala de professor mais vezes do que queria. Quase sempre de quem nunca pisou no pátio na hora do intervalo.

Cabra, coordenação dizendo que é coisa de idade eu ouvi em sala de professor mais vezes do que queria. Quase sempre de quem nunca pisou no pátio na hora do intervalo.

Conteúdo da publicação

A LUZ QUE NÃO SE APAGOU

(Intro — Batida pesada, bumbo e caixa marcantes. Clima sombrio e melancólico)

Acorda cedo, o sol nem nasceu no horizonte

Mas o peito tá pesado, carregando uma fonte

De angústia pura, medo que ninguém traduz

Augusto amarra o tênis, mas perdeu a sua luz.

O caminho pra escola parece o corredor da morte

Quem dera a juventude fosse apenas uma sorte.

Ele respira fundo, tenta se camuflar

Mas o inferno no portão já começou a se armar.

 

(Verso 1 — Ritmo acelerado, flow cortante e expressivo)

Entrou no pátio e o primeiro riso ecoou

Aquela velha piada que sua alma esmagou

Apelidos pesados, risadas de canto de olho

Augusto passa reto, engolindo o próprio choro.

Disseram que ele era estranho, bolaram um boato cruel

Transformaram a rotina do garoto em um fel.

O foco era o cabelo, o jeito de andar, o sapato rasgado

O tribunal dos covardes já tinha o condenado.

Empurrão no corredor, o caderno jogado no chão

Ninguém estende a mão, ninguém tem compaixão.

E a plateia só assiste, grava tudo no celular

Mais um vídeo pra rede pro sofrimento viralizar.

Ele junta as suas folhas com as mãos a tremer

Pensando: "O que fiz de errado pra isso merecer?"

A dor não é na pele, a dor é na dignidade

Rodeado de gente, mas na mais pura solidão da cidade.

 

(Refrão — Melódico, forte, com peso emocional)

Quem vai ouvir o grito que o peito não solta?

Augusto tá trancado e o mundo não dá volta.

O que pra muitos é "brincadeira" e piada sem valor

Pra quem tá na pele é trauma, cicatriz e dor.

O silêncio da escola ferve como um vulcão

Até quando a maldade vai vencer a união?

 

(Verso 2 — Flow denso, carregado na indignação)

As semanas se passam, mas o pesadelo aumenta

A maldade humana é uma máquina que não amansa, só esquenta.

Criaram um grupo de mensagens, um covil virtual

O cyberbullying atacando a mente, um bombardeio mental.

Prints com ofensas, xingamentos de todo escalão

Dizendo pra ele sumir, que ele era uma assombração.

Augusto olha a tela no quarto, no escuro, isolado

O refúgio que era a casa agora foi violado.

A mãe percebe a mudança, o apetite sumiu

As notas despencaram, o sorriso dele faliu.

Ele diz que é só febre, inventa desculpa pra não ir

Pois sabe que o dia seguinte é um teste pra resistir.

A coordenação ignora, diz que é "coisa de idade"

Minimizando o crime, mascarando a verdade.

Mas o bullying é veneno que mata por dentro a conta-gotas

Destrói os sonhos puros e as mentes mais devotas.

 

(Verso 3 — Clímax, flow agressivo e dramático. Baseado em fato real)

E o dia mais sombrio chegou sem avisar

No canto da quadra, o bonde veio cobrar.

Não bastava a palavra, eles queriam o sangue, a agressão

Três contra um, Augusto jogado no chão.

Um empurrão violento contra a quina da parede

A violência covarde saciando a sua sede.

O estalo no osso, o grito de socorro abafado

Um jovem de quinze anos gravemente machucado.

Fratura no maxilar, o rosto sangrando na terra

A escola virou o cenário de uma maldita guerra.

Sirene de ambulância, correria e desespero

A mãe chega correndo, o choro é o seu parceiro.

Augusto vai pra UTI, o quadro é delicado

Por causa de um bando de monstros que nunca foi travado.

O hospital é frio, os aparelhos a apitar

Enquanto os agressores continuam a zombar.

 

(Verso 4 — Reflexão. Flow mais lento, batida reduzida)

Meses se passaram para o corpo cicatrizar

Mas a mente do Augusto ainda custa a acordar.

Processos na justiça, a escola tenta abafar

Dizem que "não viram", tentam se esquivar.

Mas a verdade não se esconde atrás de um papel timbrado

O trauma de um jovem não pode ser apagado.

Augusto voltou pra casa, mas carrega o pavor

Olhar no espelho se tornou um ato de dor.

Ele tenta reconstruir o que o ódio quebrou

Lembrando que o mundo falhou, mas que ele não parou.

Essa rima não é festa, essa rima é um manifesto

Pra que o caso do Augusto não aconteça com o resto.

 

(Outro — Batida sumindo aos poucos. Voz ecoando com eco)

Bullying não é brincadeira. Bullying destrói vidas.

Mudamos o nome pra Augusto, mas a história é real.

Acontece na sua escola, na sua rua, no seu sinal.

Não seja o covarde que bate, nem o omisso que assiste.

A voz do Augusto hoje ecoa... para que ninguém mais fique triste.

Justiça. Respeito. Empatia.

Fim da opressão.

(Fim — Som de um coração batendo, que vai diminuindo até silêncio total)

Thoughts

  • meioCapitulo

    Fiquei do lado do Augusto desde ele amarrando o tênis antes do sol nascer, antes de qualquer riso no pátio 😶

    Permalink
  • marcao77

    A mãe percebendo pelo apetite que sumiu foi o que eu mais gostei. Mãe sabe antes de qualquer coordenação.

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  • meiaTarde

    Nos anos sessenta, na minha escola, havia um miúdo gozado por causa dos sapatos. Não havia telemóveis a filmar e mesmo assim ninguém se meteu.

    Permalink
  • LariCavalcanti

    A plateia gravando tudo pro vídeo viralizar me deu mais raiva que tudo, era só estender a mão pro menino juntar o caderno.

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  • vdantas77

    Cabra, coordenação dizendo que é coisa de idade eu ouvi em sala de professor mais vezes do que queria. Quase sempre de quem nunca pisou no pátio na hora do intervalo.

    Permalink
  • curioso52

    Pelo jeito que o verso 4 fala de processo na justiça e de meses pro corpo cicatrizar, isso foi escrito bem depois dos fatos, com a história já inteira na mão. E trocar o nome pra Augusto parece coisa de quem conhece a família de perto.

    Permalink
  • BeatrizSanto

    De rap sei pouco. Fiquei mais tempo na parte da escola a tentar abafar depois, com o processo já na justiça. É a segunda vez que o Augusto fica sozinho na história, e desta vez quem o deixa sozinho são adultos com cargo. Custou-me mais essa do que a quadra.

    Permalink
  • RicardoValen

    A letra aponta pros três que batem e pra coordenação, e tem motivo pra isso. Mas quem eu queria que ouvisse são os que ficam gravando no celular. Os três que batem dificilmente mudam por causa de uma música. O colega que filma talvez mude, e é ele que decide se o vídeo roda ou morre ali.

    Permalink
  • thiaguinho

    Tenho um menino no projeto que parou de aparecer no treino umas três semanas, e a mãe achou que era preguiça. Depois ela descobriu que tinha vídeo dele rodando no grupo da turma. Ele voltou, mas agora só chega depois que os outros já estão na quadra, e sai antes. Lembrei dele o tempo todo no verso 2.

    Permalink
  • oitoemponto

    Queria ouvir isso com o bumbo e a caixa que você marcou na intro. Essa letra já tem batida gravada?

    Permalink

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