Sábado, 25 de abril de 2026
Estou no jardim da casa do doutor Prado, tentando me esconder do Rafael. Ele quer, a todo custo, que eu lhe dê uma resposta. Rafael não entende que eu preciso de um tempo para pensar — não sobre o que eu sinto, porque eu o amo. Amo demais.
Mas eu também amo a Maya. Ela é perfeita, me entende e, assim como o Rafael, me ama exatamente como eu sou.
De repente, escuto gritos vindos de dentro da mansão. Meu coração dispara. Corro imediatamente para o interior da casa e fico em choque ao ver Joel esmurrando o doutor Montenegro.
— Joel, para com isso! — grita Ariel, horrorizado com a cena.
Joel para por um instante.
— Tirem esse louco de cima de mim! — grita Henrique, assustado.
Joel sai de cima dele. O salão inteiro está em silêncio, todos completamente horrorizados com o comportamento de Joel.
— O que deu no doutor Martins? — os físicos começam a sussurrar entre si.
Olho para o Henrique e vejo que ele está todo machucado. Não consigo acreditar que Joel foi capaz de fazer aquilo. O Joel?
Joel então começa a caminhar em direção a Ariel.
— Não chega perto de mim! — grita Ariel, assustado, dando passos para trás.
— Não tenha medo de mim... — diz Joel, friamente, enquanto se aproxima.
Ariel corre até o doutor Montenegro.
— Você está bem? — pergunta, aflito, analisando o rosto dele. — Olha o que aquele louco fez com você...
— Eu estou bem... eu acho — responde Henrique, com dificuldade.
— É melhor eu te levar ao hospital agora — diz Ariel, preocupado.
— Está bem, chefe... — responde Henrique, tentando sorrir apesar da dor.
— Você não vai a lugar nenhum com esse cara — diz Joel, aproximando-se novamente.
— E quem é você para me impedir? — rebate Ariel, sério.
— Você está completamente louco, cara! — grita Henrique, assustado.
— Vem, eu vou te levar para casa — diz Joel, segurando a mão de Ariel.
— Eu não vou a lugar nenhum com você! — responde Ariel, puxando a mão de volta.
— Eu não estou te perguntando — diz Joel antes de pegar Ariel no colo e jogá-lo sobre o ombro.
— Me bota no chão, seu maluco! — grita Ariel, esmurrando as costas de Joel.
Joel leva Ariel para fora da mansão. Todos ficam olhando, chocados com a cena.
— Joel, larga o Ariel! — grito, correndo na direção deles.
Assim que chegam perto do carro, Joel coloca Ariel novamente no chão.
— O que deu em você?! — pergunta Ariel, furioso.
— Ariel... eu me dei conta de que voltei a te amar — diz Joel, segurando o rosto de Ariel com desespero.
— Eu não posso dizer o mesmo — responde Ariel, incrédulo, afastando a mão de Joel do próprio rosto.
— Como assim...? — Joel parece completamente atônito. — Não era você quem estava implorando para eu não te deixar?
— Joel, você mudou muito... — diz Ariel, com a voz triste. — Você não é o Joel que eu amo. O Joel que eu amo nunca faria o que você fez hoje.
— Esquece o que aconteceu... vamos apenas nos amar — insiste Joel, tentando se aproximar novamente.
— Não... eu não consigo — diz Ariel, com a voz trêmula, antes de se virar e sair andando.
— Ariel, volta aqui! — chama Joel, indo atrás dele.
— Joel, deixa ele ir! — digo, segurando seu braço.
— Eu preciso falar com ele — responde Joel, sério.
— Amanhã vocês conversam. O Ariel precisa de espaço agora — digo, com firmeza.
Joel respira fundo e, logo depois, entra em seu carro.
O que há com você, Joel? Por que se transformou nesse psicopata frio?
— Até quando você vai continuar me evitando? — escuto a voz de Rafael atrás de mim.
— Eu não estou te evitando... — respondo, sem jeito, enquanto me viro para encará-lo.
— Eu só quero que você seja sincero. Diga logo que não me ama. Só assim, com a sua rejeição, eu vou conseguir seguir em frente — diz Rafael, me olhando fixamente.
— Rafael... eu também te amo — digo, encarando-o. — Mas eu também amo a Maya. Preciso de tempo para tomar uma decisão.
— Você também me ama...? — pergunta Rafael, incrédulo, como se não conseguisse acreditar nas minhas palavras.
— Sim. Eu te amo, Rafael — afirmo, com firmeza.
— Nossa... eu nunca imaginei que ouviria isso de você algum dia — diz ele, ainda em choque.
— Você pode me dar mais tempo para pensar? — pergunto, apreensivo.
— Eu te dou uma semana — responde Rafael, sério. — Depois disso, eu quero ouvir a sua decisão. Eu... ou a Maya.
Quinta-feira, 30 de abril de 2026
Os dias se passaram, e eu viajei a negócios com meu pai. Preciso passar um tempo longe do Rafael e da Maya; só assim consigo pensar com clareza sobre a minha decisão. Estamos na China. Fazia muito tempo que eu não vinha para cá.
Estou em Guilin.
Aqui tudo é calmo. As montanhas parecem pinturas antigas, refletidas na água como se o mundo estivesse duplicado. Estou passeando de barco pelo rio Li, observando a superfície da água. Gosto desse lugar porque ele não exige respostas imediatas. Guilin sempre me ensinou que algumas decisões precisam de silêncio para nascer.
Enquanto observo meu reflexo na água, de repente vejo Rafael emergir, como se tivesse saído diretamente dos meus pensamentos.
— Daqui a três dias eu quero a sua resposta — diz Rafael, nadando de costas e cuspindo água para o alto.
— Não pressione ele — escuto a voz de Maya do outro lado do barco. Viro o rosto e a vejo nadando tranquilamente. — Comigo, você tem todo o tempo do mundo — acrescenta, com suavidade.
— Você precisa ter mais pulso. O Wei não gosta de mulher sem opinião — rebate Rafael, do outro lado.
— Quem disse que eu não tenho opinião própria? — retruca Maya. — Eu só sou compreensiva.
— Eu tenho mais pontos que você, garota. Eu o conheço há anos — diz Rafael, convencido.
— Só como amigo, meu bem. Você só se envolveu romanticamente com ele recentemente — rebate Maya, arqueando a sobrancelha.
— Já chega, vocês dois! — grito, tapando os ouvidos.
O barqueiro me olha confuso. Ainda bem que falei em português. Apenas sorrio sem graça e desvio o olhar da água, encarando o fundo do barco.
O que eu faço?
Quem eu escolho?
Eu amo o Rafael. Mas, se eu deixar a Maya, vou sentir uma falta absurda dela. Por outro lado, se eu não escolher o Rafael, nossa relação nunca mais será a mesma. Ele não vai mais querer ser meu amigo... e perder o Rafael me destruiria.
É isso, então.
Se eu perder a Maya, vou ser infeliz.
Mas, se eu perder o Rafael... vou ser ainda mais.
Volto a olhar para a água.
Maya me encara e esboça um sorriso triste, como se já soubesse da resposta antes mesmo de eu dizer qualquer coisa.
— Desculpa... — sussurro, quase sem voz.
— Eu entendo — diz ela, com um sorriso gentil, embora os olhos estejam marejados.
As lágrimas começam a escorrer.
Ali, naquele rio calmo de Guilin, eu finalmente tomo a minha decisão.
Sábado, 02 de maio de 2026
Já estou de volta ao Brasil. Tenho certeza de que meu pai não vai ficar nada feliz com a minha decisão, mas é a minha felicidade que está em jogo.
É hora do almoço, e marquei de me encontrar com a Maya. Prometi ao Rafael que daria a minha resposta depois desse encontro.
Vejo a Maya entrando no restaurante. Ela sorri assim que me vê. Meu coração aperta, mas eu preciso fazer isso.
— Bom dia, doutor — diz Maya, com um sorriso gentil, enquanto se senta.
— Bom dia... — respondo, forçando um sorriso.
— Aconteceu alguma coisa? — pergunta ela, preocupada.
— Você é uma mulher incrível — digo, com a voz trêmula. — Eu te amo.
— Não fica assim... — diz Maya, pegando na minha mão com carinho. — Pode abrir o seu coração comigo.
— Eu descobri que também amo o Rafael — confesso, desviando o olhar.
— O Rafael? Seu melhor amigo? — pergunta Maya, visivelmente surpresa.
— Sim. Quando eu comecei a me envolver com você, ele se declarou para mim — explico.
— E agora você percebeu que também o ama? — questiona ela, com calma.
— Sim... eu amo o Rafael — digo, sem conseguir encará-la.
— Não se sinta culpado — diz Maya, segurando meu rosto e me forçando a olhá-la nos olhos. — E nem tenha vergonha. O amor é lindo, em qualquer forma.
— Me desculpa... eu queria poder te escolher, mas eu não conseguiria viver sem o Rafael — digo, enquanto as lágrimas escorrem pelo meu rosto.
— Está tudo bem — diz Maya, me abraçando forte. — Eu só quero que você saiba que eu te amo — acrescenta, começando a chorar.
— Eu também te amo — digo, chorando junto com ela.
— Mas não o suficiente para me escolher... — diz ela, com um sorriso triste.
— Eu sinto muito... de verdade — murmuro.
— Você pode me fazer um último favor? — pergunta Maya, enxugando as lágrimas.
— Sim — respondo, sem hesitar.
— Você foi o homem mais sincero e gentil que eu conheci até hoje — diz ela, tocando meu rosto com delicadeza. — Eu quero que você seja o meu primeiro beijo — acrescenta, emocionada.
Não digo nada. Apenas me aproximo lentamente, e nossos lábios se encontram.
Nós nos beijamos.
— Eu quero que você seja muito feliz, meu amor — diz Maya, encostando a testa na minha. — E obrigada... por me amar.
A Maya foi mais gentil e compreensiva do que eu jamais imaginei. Agora entendo o verdadeiro motivo de ter me apaixonado por ela.
Assim que chego ao laboratório, encontro apenas Joel, completamente pensativo.
— Onde está o Rafael? — pergunto.
— Ele ainda não voltou do almoço — responde Joel, com a voz abatida.
— Nossa... você está assim desde cedo — digo, aproximando-me dele. — Ainda não se acertou com o Ariel?
— Ele não quer me ver — diz Joel, triste.
— Também... depois do que você aprontou naquele dia — comento, incrédulo.
— Eu sei. Fui um idiota. Deixei o ciúme me dominar — admite Joel, pensativo. — Agora ele tem medo de mim.
— Você precisa mostrar a ele que ainda é o mesmo Joel de sempre — digo.
— Como...? — pergunta Joel, inseguro.
— Mostre a ele o quanto você o ama. Do seu jeitinho, é claro — respondo.
— Será que ele vai me perdoar? — questiona Joel, apreensivo.
— Isso eu não sei. Mas de uma coisa eu tenho certeza: o Joel que eu conheço nunca desiste fácil — afirmo.
Joel não responde. Apenas fica ali, perdido em pensamentos.
— E aí, astronauta? — escuto a voz de Rafael atrás de mim.
— Oi... — digo, virando-me com um sorriso tímido.
— Então? Vai me dar a sua decisão ou vai me enrolar até amanhã? — provoca ele, cruzando os braços.
— Que decisão? — pergunta Joel, confuso.
— Essa é a minha decisão — digo, antes de puxar Rafael pela gola da camisa e beijá-lo.
— Espera... vocês dois?! — diz Joel, completamente chocado e incrédulo.
Eu e Rafael não paramos. Continuamos nos beijando.
Nosso beijo é intenso, carregado de sentimentos reprimidos por anos.
Eu o amo.