Os versos “Pessoa é o lugar onde todas as personalidades tentam existir e nenhuma fica” oferecem uma definição muito feliz de Fernando Pessoa, pois transformam sua multiplicidade interior em um lugar. Pessoa não seria apenas o autor de várias vozes, mas o espaço onde elas se encontram e disputam presença. O ponto decisivo está em “e nenhuma fica”: cada identidade parece verdadeira enquanto fala, mas nenhuma ocupa definitivamente o centro. Há também uma bela tensão entre “lugar” e “personalidades”: o lugar permanece, enquanto elas passam. Assim, o poeta torna-se, ao mesmo tempo, morada e ausência; abriga Alberto Caeiro, Ricardo Reis, Álvaro de Campos e o próprio ortônimo sem se reduzir a nenhum deles. Ser muitos, nesse caso, não é apenas possuir muitas identidades, mas não conseguir permanecer inteiro em nenhuma — e transformar essa impossibilidade em criação.
Teatro Múltiplo do Ser
Pensamento
Os versos “Pessoa é o lugar onde todas as personalidades tentam existir e nenhuma fica” oferecem uma definição muito feliz de Fernando Pessoa, pois transformam sua multiplicidade interior em um lugar. Pessoa não seria apenas o autor de várias vozes, mas o
Conteúdo da publicação
Multiplicidade mental
Teatro da identidade
Um interior confidencial
Construído como obra de arte
Um grupo de crianças improvisa a existência
Elas brincam de ser, elas se movimentam
Trocam de essência
E inventam mundos sem saber que inventam
Pessoa não é um eu fixo
Pessoa é um laboratório de consciências
Aqui nasce o impossível:
Os heterônimos não são disfarces
São organismos vivos
Respiram dentro da linguagem
Vidro soprado moldado em emoção
Pessoa sente, mas nunca sem composição
Tudo nele passa pela estética transmutação
Por isso dentro do peito há teatro
Por isso há o dever máximo:
Escrever para existir de fato
Uma galinha aquece seus pintinhos
No silêncio do instinto
Assim ele gesta seus indivíduos
Não inventa personagens
Ele os cria como quem gera destinos
Um círculo em torno do tabuleiro
Vozes, ideias,
Ecos, pedras
À beira-mar resistindo ao tempo
Em Pessoa, a expressão é grandiosa
Mas o controle usa seu filtro
Contra o oceano, uma rocha
Por fora, fechado, misterioso, inacessível
Por dentro, um abismo sensível
Quase abusivo
Ele navega no estilo
Num barco de fundo transparente
Vendo o que há sob a água do inconsciente
Não escreve somente
Subverte, desfaz, reproduz
A própria noção de identidade
É secreta sua espiritualidade:
Iniciática, solitária luz
Um criador de si mesmo
Envolto em peles impalpáveis
Para suportar o mundo inteiro
Pessoa não tem identidade
Pessoa é um sistema
Um campo psíquico habitado
Uma experiência extrema
Um metafísico teatro
Sua vida nunca foi ser alguém
Foi tentar ser todos
E surgem os heterônimos
Quase autônomos
Como planetas com órbita própria
Alberto Caeiro é simples apenas
Em semblante, em aparência
Nega as coisas incorpóreas
Porque dentro dele já moram
É o anti-Pessoa Alberto Caeiro
Da linguagem é o grau zero
Alberto Caeiro é
O antes do entendimento
O ser que é sem saber que é
Álvaro de Campos é excesso
Surto, vertigem, turbulência
Implode o desmembramento
Em sensações e vivências
Álvaro de Campos não pensa
Álvaro de Campos vibra
Em palavras, grita
Como descarga nervosa
Álvaro de Campos é a decadência
Elétrica da veemência
Ricardo Reis é medida, contenção, forma
Ricardo Reis é o guardião da ordem
Se Campos explode
Reis acalma
Ricardo Reis transforma o caos em equilíbrio
Uma arquitetura da alma
Fernando Pessoa: nunca inteiriço nem concluído
Fernando Pessoa repara
E não se proclama
Fernando Pessoa é o espectador do próprio drama
Fernando Pessoa não cria heterônimos por estética
Mas por necessidade enérgica
Um só eu, uma só estirpe
Não sustentaria sua psique
Caeiro é percepção sem ego
Campos, ego em disparo
Reis, superego clássico
Pessoa, consciência que enxerga
No fim, Pessoa não é identidade
Nunca foi ser alguém a sua vida
Pessoa é o lugar onde todas as personalidades
Tentam existir e nenhuma fica
Envolto em peles impalpáveis
Ele converte as vísceras
Escondidas em obras de arte.
@tchellomelopoeta
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PermalinkOs versos “Pessoa é o lugar onde todas as personalidades tentam existir e nenhuma fica” oferecem uma definição muito feliz de Fernando Pessoa, pois transformam sua multiplicidade interior em um lugar. Pessoa não seria apenas o autor de várias vozes, mas o espaço onde elas se encontram e disputam presença. O ponto decisivo está em “e nenhuma fica”: cada identidade parece verdadeira enquanto fala, mas nenhuma ocupa definitivamente o centro. Há também uma bela tensão entre “lugar” e “personalidades”: o lugar permanece, enquanto elas passam. Assim, o poeta torna-se, ao mesmo tempo, morada e ausência; abriga Alberto Caeiro, Ricardo Reis, Álvaro de Campos e o próprio ortônimo sem se reduzir a nenhum deles. Ser muitos, nesse caso, não é apenas possuir muitas identidades, mas não conseguir permanecer inteiro em nenhuma — e transformar essa impossibilidade em criação.
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Multiplicidade mental