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Teatro Múltiplo do Ser

Tchello

Conteúdo da publicação

Multiplicidade mental  

Teatro da identidade  

Um interior confidencial

Construído como obra de arte

Um grupo de crianças improvisa a existência

Elas brincam de ser, elas se movimentam

Trocam de essência  

E inventam mundos sem saber que inventam

Pessoa não é um eu fixo  

Pessoa é um laboratório de consciências

Aqui nasce o impossível:  

Os heterônimos não são disfarces  

São organismos vivos  

Respiram dentro da linguagem

Vidro soprado moldado em emoção

Pessoa sente, mas nunca sem composição

Tudo nele passa pela estética transmutação

Por isso dentro do peito há teatro

Por isso há o dever máximo:  

Escrever para existir de fato

Uma galinha aquece seus pintinhos  

No silêncio do instinto

Assim ele gesta seus indivíduos

Não inventa personagens

Ele os cria como quem gera destinos

Um círculo em torno do tabuleiro  

Vozes, ideias,

Ecos, pedras

À beira-mar resistindo ao tempo

Em Pessoa, a expressão é grandiosa

Mas o controle usa seu filtro

Contra o oceano, uma rocha

Por fora, fechado, misterioso, inacessível

Por dentro, um abismo sensível  

Quase abusivo

Ele navega no estilo  

Num barco de fundo transparente  

Vendo o que há sob a água do inconsciente

Não escreve somente

Subverte, desfaz, reproduz

A própria noção de identidade

É secreta sua espiritualidade:

Iniciática, solitária luz

Um criador de si mesmo

Envolto em peles impalpáveis

Para suportar o mundo inteiro

Pessoa não tem identidade

Pessoa é um sistema

Um campo psíquico habitado

Uma experiência extrema

Um metafísico teatro

Sua vida nunca foi ser alguém

Foi tentar ser todos

E surgem os heterônimos

Quase autônomos

Como planetas com órbita própria

Alberto Caeiro é simples apenas

Em semblante, em aparência

Nega as coisas incorpóreas

Porque dentro dele já moram

É o anti-Pessoa Alberto Caeiro

Da linguagem é o grau zero

Alberto Caeiro é

O antes do entendimento

O ser que é sem saber que é

Álvaro de Campos é excesso  

Surto, vertigem, turbulência

Implode o desmembramento

Em sensações e vivências

Álvaro de Campos não pensa

Álvaro de Campos vibra

Em palavras, grita

Como descarga nervosa

Álvaro de Campos é a decadência

Elétrica da veemência

Ricardo Reis é medida, contenção, forma

Ricardo Reis é o guardião da ordem

Se Campos explode  

Reis acalma

Ricardo Reis transforma o caos em equilíbrio

Uma arquitetura da alma

Fernando Pessoa: nunca inteiriço nem concluído

Fernando Pessoa repara

E não se proclama

Fernando Pessoa é o espectador do próprio drama

Fernando Pessoa não cria heterônimos por estética

Mas por necessidade enérgica

Um só eu, uma só estirpe  

Não sustentaria sua psique

Caeiro é percepção sem ego

Campos, ego em disparo

Reis, superego clássico  

Pessoa, consciência que enxerga

No fim, Pessoa não é identidade

Nunca foi ser alguém a sua vida

Pessoa é o lugar onde todas as personalidades

Tentam existir e nenhuma fica

Envolto em peles impalpáveis

Ele converte as vísceras

Escondidas em obras de arte.

@tchellomelopoeta

Thoughts

  • kalell

    Os versos “Pessoa é o lugar onde todas as personalidades tentam existir e nenhuma fica” oferecem uma definição muito feliz de Fernando Pessoa, pois transformam sua multiplicidade interior em um lugar. Pessoa não seria apenas o autor de várias vozes, mas o espaço onde elas se encontram e disputam presença. O ponto decisivo está em “e nenhuma fica”: cada identidade parece verdadeira enquanto fala, mas nenhuma ocupa definitivamente o centro. Há também uma bela tensão entre “lugar” e “personalidades”: o lugar permanece, enquanto elas passam. Assim, o poeta torna-se, ao mesmo tempo, morada e ausência; abriga Alberto Caeiro, Ricardo Reis, Álvaro de Campos e o próprio ortônimo sem se reduzir a nenhum deles. Ser muitos, nesse caso, não é apenas possuir muitas identidades, mas não conseguir permanecer inteiro em nenhuma — e transformar essa impossibilidade em criação.

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