Capítulo 4: O Peso dos Livros e a Leveza do Cuidado A manhã seguinte na faculdade de medicina começou com o peso literal da rotina de Mabel. Ela caminhava pelo corredor principal segurando uma verdadeira torre de livros de anatomia humana. Os calhamaços eram tão altos que quase cobriam completamente o seu rosto, obrigando-a a guiar-se apenas pelo espaço que via nas laterais. Atrás daquela pilha de papel, ela tentava ignorar os olhares que ainda recebia, focando apenas em chegar à biblioteca para estudarFoi quando passos firmes e pesados se aproximaram. Erik vinha na direção oposta, rindo alto com alguns amigos do time de vôlei. Ao ver Mabel vulnerável, equilibrando os livros pesados, ele não apenas ignorou a dificuldade dela, como viu ali uma oportunidade de humilhá-la ainda mais. Com um esbarrão proposital e um empurrão firme no ombro da garota, ele passou direto.
— Sai do meio, estorvo — murmurou ele, sem nem olhar para trás.
O impacto desequilibrou Mabel completamente. Ela caiu de joelhos no chão frio do corredor, e a torre de livros desabou ao seu redor em um estrondo alto. O impacto machucou suas mãos, mas a dor maior foi no peito. A humilhação pública e a maldade gratuita de Erik foram a gota d'água.
Sentada entre as páginas espalhadas, as lágrimas finalmente transbordaram de seus olhos castanhos, rolando por suas bochechas enquanto ela tentava, com as mãos trêmulas, juntar o material. Alguns estudantes pararam para olhar; alguns cochichavam, mas ninguém se movia para ajudar. Até que uma sombra imensa cobriu a luz do corredor.
Theo estava saindo do bloco de educação física quando a cena se desenhou diante de seus olhos. Ao ver Mabel no chão, chorando, o sangue do jogador ferveu de uma forma que ele mal conseguiu controlar. Ele lançou um olhar tão mortal na direção de Erik, que já estava longe, que os amigos do ex-namorado dela congelaram no lugar. Sem perder um segundo, Theo correu e se ajoelhou no chão ao lado de Mabel.
— Mabel... Olha para mim — a voz dele, que segundos antes era puro trovão, soou como um sussurro terno e preocupado. Com uma delicadeza impressionante para as suas mãos grandes de atleta, Theo levou os dedos até o rosto dela, enxugando as lágrimas que insistiam em cair.
O toque foi tão respeitoso e caloroso que o choro de Mabel cessou por um instante, substituído por um suspiro de alívio ao ver aqueles olhos castanhos-escuros tão perto.
— Deixa que eu cuido disso. Não se preocupa — ele disse, com um sorriso reconfortante.
Com movimentos rápidos e eficientes, Theo começou a recolher os pesados livros de anatomia, organizando-os em uma pilha perfeita. Ele se levantou com facilidade, pegando toda a carga com apenas um dos braços robustos, e estendeu a outra mão para ajudar Mabel a ficar de pé. O corredor inteiro da faculdade estava em absoluto choque. Os murmúrios cessaram. Ver Theo Belmonte — o jogador estrela de dois metros de altura, conhecido por sua postura reservada e séria — ajoelhado no chão para limpar as lágrimas de uma garota e carregar os livros dela era algo que ninguém jamais imaginou presenciar.
Erik, que olhou para trás de longe, fechou o punho com raiva, sentindo o peso da presença de Theo engolir sua audácia.
— Para onde nós vamos? — Theo perguntou, ignorando completamente a plateia de curiosos e focando apenas em Mabel.
— Para as mesas de estudo da biblioteca... — ela respondeu baixinho, ainda um pouco zonza com a transição repentina do desespero para o acolhimento.
— Então vamos. Eu levo para você. Theo caminhou ao lado dela por todo o campus, carregando a torre de livros sem o menor esforço, enquanto mantinha o corpo posicionado de forma a protegê-la de qualquer outro olhar maldoso. Para Mabel, ver aquela imensidão de homem transformando um momento de profunda humilhação em um instante de puro cuidado foi a certeza de que o turbilhão em sua vida estava, finalmente, encontrando um porto seguro.