Capítulo 1: O Silêncio no Turbilhão e a Força na Arquibancada O cheiro de café passado misturava-se ao aroma de páginas antigas no pequeno quarto de Mabel. Aos 20 anos, sua vida parecia correr em um ritmo que mal conseguia acompanhar. Entre os calhamaços de anatomia da faculdade de medicina e os esboços inacabados em seu caderno de desenho, ela mal encontrava tempo para respirar. A única constante que trazia paz ao seu peito era Felix. O gatinho, branco como a neve, ronronava mansamente em seu colo, alheio ao turbilhão de emoções que esmagava o coração de sua dona. Mabel passava os dedos pelos próprios cabelos cacheados, castanhos como seus olhos, tentando focar na leitura, mas a mente insistia em voltar para Erik. Erik tinha 23 anos, 1,80m de altura e um sorriso maroto que, no início, parecia encantador. Ele jogava vôlei pela faculdade — o único esporte que Mabel realmente amava e respeitava, justamente por achar que combinava perfeitamente a delicadeza dos movimentos com a força bruta dos ataques. Mas a delicadeza de Erik ficava apenas em quadra. Com Mabel, ele sempre fora frio, rude e distante. O ápice da frieza veio no término, poucos dias atrás. Erik não apenas colocou toda a culpa do fim do relacionamento nela, como espalhou mentiras e a difamou por todos os corredores do campus. Mesmo machucada, Mabel guardava uma ponta de esperança. Por isso, naquela noite, ela engoliu o orgulho e foi até o ginásio da faculdade onde o time dele jogaria. Ela não queria reatar; queria apenas dignidade. Esperava, no mínimo, um pedido de desculpas.Assim que pisou no estádio, porém, o estômago de Mabel revirou. Os sussurros começaram imediatamente. Risadinhas ecoavam pelas arquibancadas de cimento. — Olha lá, que burra. Veio rastejar atrás do Erik de novo. — Não tem amor-próprio? Vir ao jogo do ex depois de tudo o que fez? Mabel estacou, os olhos castanhos marejando, as pernas vacilando diante dos olhares julgadores de dezenas de desconhecidos. A poucos metros dali, ajustando a joelheira perto do banco de reservas, estava Theo Belmonte. Com seus impressionantes 2,00m de altura, cabelos castanhos-escuros e um maxilar perfeitamente definido que emoldurava um rosto sem barba, ele chamava atenção por onde passava. Dono de um peitoral largo e abdômen definido, Theo era a definição de um atleta de elite, mas sua mente funcionava de forma diferente. Ele era calmo, analítico e extremamente estratégico — qualidades que o tornavam o ponta-esquerda perfeito e o cérebro do time. Fora das quadras, Theo gostava da calmaria: ler, passear com seu cachorro Max e cuidar de seus dois irmãos mais novos, gêmeos de 20 anos. E, secretamente, ele era completamente apaixonado por Mabel. Ele a observava de longe na biblioteca, admirando a forma como ela se concentrava nos livros ou desenhava nos cantos das páginas. Ao ouvir as risadas e os comentários maldosos direcionados à garota, o sangue de Theo ferveu. Ele conhecia a fama de Erik e sabia que cada palavra dita sobre Mabel era uma mentira injusta. Com passos firmes e imponentes, Theo caminhou até a entrada da arquibancada e se posicionou exatamente atrás de Mabel, como um escudo humano. Sua presença massiva imediatamente projetou uma sombra que fez os estudantes mais próximos se calarem.
— Engraçado como vocês têm tanta certeza sobre a vida dos outros baseados apenas em fofocas de vestiário — a voz de Theo ecoou, calma, mas carregada de uma autoridade que fez o ginásio silenciar.
— Julgar alguém sem conhecer a verdade diz muito mais sobre a falta de caráter de vocês do que sobre ela. Deviam focar no jogo em vez de passar vergonha cuidando da vida alheia.
As pessoas piscaram, desconfortáveis, engolindo as risadas e desviando o olhar diante do tom firme do ponta-esquerda titular. Mabel olhou para trás, surpresa, deparando-se com a imensidão que era Theo. Seus olhos se cruzaram, e ela sentiu um calor repentino afastar o frio da humilhação.
— Obrigada... — ela sussurrou, a voz ainda trêmula. Theo suavizou a expressão rígida, dedicando a ela um olhar acolhedor que Mabel nunca tinha recebido de Erik.
— Você não merece passar por isso, Mabel. Vem comigo — ele disse, estendendo a mão espalmada, sem tocá-la forçadamente, apenas oferecendo um guia. Theo a conduziu para longe dos olhares curiosos e a levou até a área vip, um espaço reservado e protegido na lateral da quadra.
— Fica aqui. Daqui você assiste ao jogo em paz e ninguém vai te incomodar — ele garantiu, com um meio sorriso que fez o coração de Mabel errar uma batida.
— Agora, preciso aquecer. Fica bem. Mabel assentiu, sentando-se na cadeira estofada. Enquanto Theo corria de volta para a quadra, ela o observou se juntar ao time. Pela primeira vez em meses, o turbilhão em sua mente deu lugar a uma curiosa e reconfortante expectativa.