CAPÍTULO 2: O Despertar na Área VIP
O som do apito inicial ecoou pelo ginásio lotado, mas para Mabel, o barulho parecia vir de dentro de uma redoma de vidro. Seus olhos estavam fixos na quadra, mas sua mente andava bem longe dali. Mais especificamente, a dois metros de altura e com um par de olhos castanhos-escuros que a haviam defendido sem hesitar. Ela tocou o próprio braço, sentindo um arrepio leve. As palavras de Theo ainda ecoavam em sua cabeça:
"Você não merece passar por isso, Mabel." Ninguém, absolutamente ninguém na faculdade, havia saído em sua defesa daquela forma.
Nem mesmo suas supostas amigas tinham tido a coragem de encarar a onda de fofocas que Erik criara. Pensar em Erik, inclusive, trazia um gosto amargo. Ele estava ali na quadra, aquecendo com aquele mesmo sorriso maroto e convencido de sempre, mas Mabel percebeu, com uma clareza dolorosa, o quanto ele sempre fora frio e rude com ela. Erik a diminuía, ignorava seus desenhos e achava sua rotina na medicina uma perda de tempo. Theo, por outro lado, mal a conhecia e a tratara com um respeito e uma gentileza que ela nunca havia experimentado em anos de namoro. A disparidade entre os dois era esmagadora. Mabel foi abruptamente arrancada de seus pensamentos pelo som estridente da torcida que explodiu ao seu redor. Em quadra, a jogada se desenhava com uma velocidade impressionante. O levantador do time recebeu um passe perfeito e, em um movimento milimetricamente calculado, fingiu que mandaria a bola para Erik na saída de rede. A defesa adversária saltou em bloco para bloquear o ex-namorado de Mabel. No entanto, em uma fração de segundo, o levantador mudou a trajetória da bola, jogando-a bem alta na ponta esquerda. Theo já estava no ar. Parecia que ele subia em câmera lenta. O peitoral largo se expandiu e, com uma impulsão absurda que desafiava a gravidade, ele dobrou o corpo no ar. Com a mente estratégica que possuía, ele leu o bloqueio adversário em um piscar de olhos e, em vez de soltar o braço na força bruta, usou a delicadeza técnica do vôlei que Mabel tanto admirava: uma batida seca, rápida e perfeita na diagonal curta. A bola estourou no chão da quadra adversária antes mesmo que o líbero deles pudesse esboçar qualquer reação. Um ponto de ataque incrível. O ginásio inteiro veio abaixo, gritando o nome de Theo. Na área vip, Mabel deu um leve salto da cadeira, um sorriso genuíno e aberto iluminando seu rosto pela primeira vez em dias. Esquecendo-se completamente de Erik, dos boatos e de toda a tristeza que a acompanhava, ela começou a aplaudir com entusiasmo, os olhos brilhando enquanto acompanhava Theo comemorar o ponto com um soco no ar. Quando ele se virou discretamente em direção à área vip, seus olhos castanhos procuraram os dela, e o meio sorriso que ele exibiu dizia que aquele ponto tinha sido para ela.