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Poesia "Meio Segundo"

yayaly
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Ele pergunta como eu estou. Eu digo: bem. Digo bem com convicção, bem treinada,bem ensaiada,bem como quem aprendeu que essa é a resposta certa quando não quer conversa.

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versodemadrugada

Pergunto se aquele meio segundo de travamento foi de verdade quando contou ou se surgiu na hora de escrever.

Pergunto se aquele meio segundo de travamento foi de verdade quando contou ou se surgiu na hora de escrever.

Conteúdo da publicação

Sala branca, cadeira azul.

Ele pergunta como eu estou.

Eu digo: bem.

Digo bem com convicção,

bem treinada,bem ensaiada,bem como quem aprendeu que essa é a resposta certa quando não quer conversa.

Ele inclina a cabeça.

Anota.

Eu rio.

Digo que rio porque sou assim mesmo.

Rir é meu esporte favorito,meu reflexo condicionado,meu talento inútil.

Faço piada com tudo, doutor,até comigo,principalmente comigo.

É saudável, né?

Todo mundo ri.

Ele não ri.

Anota.

Ele pergunta se eu durmo.

Eu digo que sim, claro.

Durmo pouco, mas durmo.

Quem precisa de oito horas hoje em dia?

Sono é superestimado;

tempo deitada pensando na vida também conta como descanso… acho.

Eu rio de novo.

Essa foi boa, penso.

Ele escreve mais rápido.

Ele pergunta se minha mente acelera.

Eu digo que não.

Ela só corre, tropeça, volta,

faz maratona às três da manhã

e resolve problemas que não existem.

Normal.

Totalmente normal.

Todo mundo pensa demais, não pensa?

Eu rio antes que ele responda.

Ele não responde.

Anota.

Ele pergunta quando foi a última vez que eu me senti leve.

Eu travo por meio segundo,

mas meio segundo é tempo demais,

então invento uma resposta aceitável.

Digo “semana passada”.

digo “num domingo qualquer”.

Coisas leves sempre são rápidas, não são?

Ele anota.

Ele pergunta se eu me escuto.

Eu digo que sim, o tempo todo.

Talvez até demais.

Rio, porque soa bonito assim.

Ele não comenta.

Só escreve,como quem registra algo que eu ainda não percebi.

Ele pergunta se eu já me machuquei

ou pensei em me machucar.

Eu digo que não.

Machucar é uma palavra pesada.

Prefiro dizer que já me testei.

Limites, sabe?

Todo mundo testa alguma coisa.

Ele anota.

Ele pergunta como eu acho que as pessoas me veem.

Eu digo: útil, quando precisam.

Ele pergunta: e quando não precisam?

Eu respondo: não sei.

Ele escreve sem comentar.

Ele pergunta dos pensamentos ruins.

Eu digo que não são ruins.

São criativos,meio dramáticos talvez,

mas isso é personalidade, não doença.

Faço uma piada autodepreciativa,

dessas que rendem like e risada em grupo.

Aqui não rende nada.

Eu rio sozinha.

Ele sublinha algo.

Ele pergunta se me sinto cansada.

Eu digo que não,só exausta,mas exausta funcional,daquelas que fazem tudo,só reclamam um pouco,só choram no banho,só pensam em desaparecer às vezes.

brincadeira.

Eu olho pra ele pra ver se funcionou.

Não funcionou.

Ele anota.

Digo que estou no controle.

Controle é minha palavra preferida.

Repito: controle, controle, controle.

Se eu repetir o suficiente,vira verdade.

Se virar rima, então, melhor ainda.

Ele pergunta por que eu falo rindo.

Eu digo que é charme.

“Mecanismo de defesa” é um termo muito forte,parece coisa de livro.

Eu só tento deixar leve.

A vida já é pesada demais, né doutor?

Ele fecha a caneta por um segundo.

Abre de novo.

Continua escrevendo.

Ele pergunta se já pensei em parar tudo.

Eu digo que não,parar não,só pausar, sumir um pouquinho,silenciar o barulho,mas isso é figura de linguagem.

Escritores falam assim.

Eu nem sou escritora.

Eu rio.

Dessa vez minha risada sai torta.

Ele não comenta.

Anota.

Ele diz meu nome com cuidado,

como quem pisa em chão molhado.

Pergunta se percebo as contradições.

Eu digo que percebo, claro.

Sou muito perceptiva.

Percebo tudo.

Só não percebo quando passo do limite.

Tento mais uma piada.

Algo sobre ser “louca funcional”,

dessas que viram meme.

Ele não reage.

Silêncio.

Sala branca.

Cadeira azul.

Caneta preta.

Ele diz que, por enquanto, o melhor é eu não voltar pra casa hoje.

Diz isso com voz calma,

como quem sugere trocar de caminho

pra evitar trânsito.

Fala em observação.

Em rotina.

Em ficar alguns dias.

Eu digo tudo bem.

Digo tudo bem rápido,como quem aceita um atraso,como quem finge que já esperava.

Ele levanta.

Eu levanto.

Ele entrega os papéis.

Eu assino rindo, porque assinar sem rir

seria admitir demais.

Na porta, faço a última piada.

Daquelas boas.

Daquelas que sempre funcionam.

Ele me diz que alguém vai me acompanhar até o quarto.

Não ri.

E, pela primeira vez,

eu não rio também.

Thoughts

  • rascunhoeterno

    Acho que quando a gente tapa tudo com graça é porque precisa respirar, sabe? Mas que pesa depois de contar tudo... pesa mesmo.

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  • soleioanoite

    essa parte de fazer piada autodepreciativa que rende like no grupo mas aqui não rende nada... dói.

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  • versodemadrugada

    Pergunto se aquele meio segundo de travamento foi de verdade quando contou ou se surgiu na hora de escrever.

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