Existe um movimento que fazemos sem perceber.
O corpo levanta antes da vontade entender.
Caminhamos até a cozinha como quem sabe o caminho de volta para alguma coisa perdida.
Abrimos a porta da geladeira.
A luz acende.
E por alguns segundos ficamos ali.
Diante de frutas, potes, restos de ontem e possibilidades que não pedimos.
Como se, em algum lugar entre uma garrafa de água e um pedaço de queijo, estivesse escondida uma resposta.
Mas não está.
Fechamos a porta.
E continuamos com a mesma falta.
É estranho o ser humano.
Às vezes sente um vazio e chama de fome.
Talvez porque seja mais fácil admitir que precisamos comer do que admitir que precisamos de alguma coisa que não sabemos dizer.
Há uma fome que não vem do estômago.
Uma fome silenciosa.
Ela aparece quando o dia termina e ninguém perguntou como foi.
Quando lembramos de alguém que já não está.
Quando sentimos saudade de uma versão nossa que ficou para trás.
Então abrimos a geladeira.
Não para encontrar comida.
Mas para encontrar uma pausa.
Um pequeno ritual contra aquilo que não conseguimos nomear.
Talvez a gente procure nas coisas aquilo que perdeu dentro de si.
Um doce que lembre carinho.
Um café que pareça abraço.
Um alimento que devolva, por alguns segundos, a sensação de pertencimento.
Mas existem faltas que nenhuma prateleira consegue guardar.
Existem ausências que não têm embalagem.
Nem etiqueta.
Nem prazo de validade.
E talvez a maturidade seja perceber que algumas fomes não pedem alimento.
Pedem presença.
Pedem silêncio.
Pedem coragem para olhar para dentro e perguntar:
“Do que eu estou sentindo falta?”
Porque às vezes não queremos abrir a geladeira.
Queremos abrir uma porta dentro de nós.
E talvez essa seja a mais difícil de todas.
—
Até a próxima pergunta.