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PARA TODAS AS MULHERES QUE EU JÁ AMEI

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Pensamento

Pensamento

Nal

Com quinze anos eu ia achar que flor catada na rua era pouco presente. Hoje acho que era a coisa mais séria da história da Ashley, né.

Com quinze anos eu ia achar que flor catada na rua era pouco presente. Hoje acho que era a coisa mais séria da história da Ashley, né.

Conteúdo da publicação

Para todas as mulheres que eu já amei

A primeira delas

Não poderia ser mais irônico do que a primeira mulher que amei ter o mesmo nome que eu.

Éramos adolescentes, meu primeiro amor. Lembro até hoje da situação e da roupa ridícula que eu estava usando. Estava em um parque, à noite, com alguns amigos, andando de skate. Ela estava com as amigas, meio bêbada, quando me fez sentar na guia da calçada e pediu um beijo. Eu, gentilmente, recusei e fiquei ao lado dela.

Lembro do short vermelho masculino e do tênis da Akatsuki que eu usava. Na minha memória, eu estava ridiculamente horrorosa. Mas é engraçado como consigo me lembrar de cada detalhe da roupa e, ao mesmo tempo, de tão pouco do que realmente fomos.

Aquilo não foi para a frente. A família dela era homofóbica, e talvez isso já fosse suficiente para dificultar tudo. Mas o que me pega é outra coisa: pensando bem, acho que nunca tivemos um relacionamento de verdade. Às vezes, dávamos selinhos, e eu a considerava minha namorada.

Até que, um dia, ela simplesmente sumiu.

Irônico, não?

Bom, essa foi a primeira. Ou talvez tenha sido apenas o começo.

A segunda

Eu não diria que foi amor. Foi mais o começo da minha experiência.

Eu gostava das coisas que fazíamos, das intimidades que tínhamos. Gostava de como ela me vangloriava, de como parecia me colocar em um lugar tão alto. Mas não gostava da ideia de ela querer ser algo meu.

Confesso que fui babaca até o final.

Às vezes, lembro dela e sinto vergonha de algumas das minhas atitudes. Ela chegou a se assumir por mim, e eu a recusei. Não sei se existe uma maneira bonita de contar isso, nem quero inventar uma desculpa para me sentir melhor. Eu errei.

Sei que você provavelmente nunca vai ler isso, Ariel, mas, se algum dia estas palavras chegarem até você: perdoe-me pelos meus erros com você.

Eu ainda estava aprendendo a lidar com as pessoas e com o que elas sentiam. Isso não apaga o que fiz, mas talvez explique por que hoje eu consiga olhar para aquela menina e reconhecer a garota que eu era.

A primeira namorada. Ou quase isso.

Ela tinha um nome incomum: Ashley.

Eu sempre soube que eu era mulherenga, mas, com ela, parecia diferente. Demorei meses para conquistá-la. Saíamos juntas, e eu lhe entregava flores quase todos os dias. A maioria eu encontrava pela rua, porque nem sempre tinha dinheiro para comprá-las. Mas, no nosso primeiro encontro, dei a ela um buquê de rosas e astromélias.

Eu gostava dela. Não, eu estava apaixonada.

O que me doía era perceber que, com o passar do tempo, ela não me assumia e também não me deixava a apresentar a minha família sobre nós.

Até que a mãe descobriu.

A homofobia que veio depois só fez tudo piorar. Aos poucos, comecei a entender o lugar que ocupava naquela história: eu era o segredo dela, bom era isso q eu sentia, a pessoa que existia quando ninguém estava olhando.

Se eu não tivesse espalhado pela escola que estávamos juntas, talvez ninguém soubesse de nós?

Eu chegava a ir à casa dela quando não havia ninguém. E é irônico pensar que, naquela época, eu me sentia tão escondida que até a palavra amante parecia oferecer mais liberdade do que eu tinha.

Foi o suficiente para terminar algo que nunca chegou a começar oficialmente. Não houve sequer uma declaração que marcasse o início de tudo.

Talvez eu tenha passado tempo demais tentando ser escolhida por alguém que não conseguia me dar o lugar que eu queria ocupar.

E, dessa vez, fui eu quem foi embora. Mesmo que ela tenha me amado, o amor que me foi dado era insuficiente para ser mantido.

A última. Por enquanto.

Ela era literalmente o meu tipo. O meu sonho.

Pamela.

Sempre gostei de mulheres mais velhas. Mas, nela, não era apenas a idade. Era a mulher que ela era.

Linda, trabalhadora, conquistadora, com sua própria vida, suas próprias coisas, sua casa e um filho. Nove anos mais velha do que eu.

Eu admirava tudo isso. Gostava dos olhos dela, das implicâncias com a minha risada, de quando dizia que eu tinha olhos de um ratinho fofo ou me chamava de cute cute dela.

São detalhes pequenos, eu sei. Mas são justamente essas coisas que ficam.

Talvez tivesse dado certo se ela morasse mais perto. Talvez as circunstâncias fossem outras se eu já tivesse a idade e a independência que desejo ter. Mas ela mora em outra cidade, eu ainda sou menor de idade e nós duas entendemos que, naquele momento, era melhor nos afastarmos.

E nos afastamos.

Não porque eu tenha deixado de gostar dela. Não porque ela tenha deixado de ser incrível. Apenas porque, às vezes, gostar de alguém não resolve tudo o que existe entre duas pessoas.

Hoje, sinto saudade.

Saudade das conversas, das brincadeiras, do carinho e daquilo que poderíamos ter vivido. Sinto falta dela como pessoa e também da possibilidade de nós duas.

Não sei o que será de nós. Não sei se daqui a um ano, dois ou cinco ainda sentirei a mesma coisa. Não sei se a vida vai nos colocar novamente no mesmo caminho.

Mas sei que quero construir minha vida. Quero estudar, trabalhar, conquistar minhas coisas e me tornar independente.

E, se um dia eu ainda sentir tudo isso, talvez eu a procure.

Não sei se dará certo. Não posso prometer que dará.

Só sei que, mesmo que não tenha dado certo agora, uma parte de mim ainda deseja descobrir como teria sido.

E talvez seja por isso que eu ainda não consiga chamar essa história de passado.

E, no fim, escrevo para todas elas.

Para as que ficaram, para as que partiram, para as que me ensinaram a amar e para aquelas a quem eu não soube amar.

Para as que ainda lembro com carinho, para as que guardo com arrependimento e para aquelas que, mesmo depois de tanto tempo, ainda me deixam com saudade.

Para todas as mulheres que eu já amei e para todas aquelas que ainda vou amar.

Porque, por mais que algumas histórias tenham terminado, ainda existem tantas outras que eu nem sequer conheço.

E talvez, em algum lugar, exista uma mulher que um dia também vai olhar para mim e pensar que, apesar de tudo, valeu a pena.

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  • Nal

    Com quinze anos eu ia achar que flor catada na rua era pouco presente. Hoje acho que era a coisa mais séria da história da Ashley, né.

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