Em 1897, Euclides da Cunha foi a Canudos como correspondente de jornal, convencido de que o arraial era uma conspiração monarquista. O livro que publicou em 1902 a partir daquelas anotações, Os Sertões, é uma acusação contra a campanha do exército que ele tinha ido aplaudir.
Eu leio esse percurso como um dos casos mais sérios de jornalismo desmentido pelo próprio jornalista. Ele não foi buscar outra pauta nem trocou de jornal para mudar de ideia. Usou as mesmas notas. O material que devia sustentar uma tese acabou sustentando a contrária, e ele publicou a contrária com o nome dele na capa.
Há uma lição institucional aí que me interessa mais do que o drama pessoal. Um correspondente costuma ser mandado para confirmar o que a redação já pensa. O que separou Euclides dessa função foram cinco anos e um caderno de anotações relido com outros olhos.
Não acho que isso o absolva de ter ido aplaudir. A reviravolta pesa justamente porque a primeira convicção foi pública e assinada.
Fico pensando em quem lê Os Sertões hoje sem saber de onde o autor partiu. Saber que ele foi lá para torcer pela campanha muda o peso da acusação para você, ou o livro se sustenta sozinho?