O mundo não é justo,
nem carrega em si a injustiça.
Somos nós que damos nomes
ao acaso que nos atravessa,
tentando encontrar uma resposta
para aquilo que não responde.
Alguns permanecem,
outros partem cedo demais,
deixando caminhos interrompidos,
palavras que não foram ditas
e sonhos ainda esperando
por uma manhã que não chegou.
E perguntamos ao silêncio:
por quê?
Mas o silêncio não explica.
A noite não revela seus segredos.
Não há sempre um destino escondido,
nem mãos invisíveis conduzindo
cada passo da nossa existência.
Há apenas a vida,
frágil e imensa,
passando por nós
como vento entre as árvores.
E ainda assim,
quando alguém parte,
alguma coisa permanece.
Um rosto dentro da memória,
uma voz perdida nos corredores do tempo,
um gesto guardado no coração,
um sonho que continua respirando
dentro de quem ficou.
Talvez isso nunca seja suficiente.
Porque queremos mais.
Queremos um lugar
onde a tristeza não encontre morada,
onde o sol atravesse todas as janelas,
onde a manhã nunca termine
e os pássaros cantem
como se jamais tivessem conhecido
o silêncio.
Queremos outro mundo.
Um mundo onde o amor
não tenha despedida,
onde os que partiram
possam voltar pela luz,
onde nenhuma história termine
antes de dizer tudo o que precisava dizer.
Talvez esse mundo não exista.
Talvez seja apenas
uma invenção bonita da esperança.
Mas enquanto caminhamos
entre perdas, lembranças e sonhos,
continuamos procurando.
Não por uma explicação.
Mas por um lugar dentro de nós
onde a vida ainda faça sentido.
E talvez,
quando tudo parecer perdido,
quando a noite for mais longa
do que conseguimos suportar,
ouviremos ao longe
um canto.
E saberemos:
os pássaros ainda estão cantando.