CAPÍTULO 7: Frequências Perdidas
O amanhecer trouxe um céu cinzento-azulado e um ar frio que filtrava pelo teto de vidro da estufa. A tempestade da noite anterior havia cessado, deixando a cidade coberta por uma névoa espessa que subia do asfalto úmido.
Elena acordou com a cabeça apoiada no peito de Gabriel. O calor do corpo dele era a única fonte de conforto naquele ambiente rígido. Quando ela se movimentou, Gabriel abriu os olhos devagar, ajustando o foco e permitindo que um sorriso suave surgisse no canto dos seus lábios.
— Bom dia, médica — sussurrou ele, a voz grave por causa do sono.
— Bom dia — respondeu Elena, sentindo um calor involuntário subir pelo pescoço.
Gabriel tateou a lateral de sua mochila e tirou um pequeno rádio amador portátil, de faixas curtas, que havia pego no departamento de triagem antes de escaparem do hospital. Ele ajustou o seletor de frequência. O chiado de estática preencheu o espaço entre as plantas ornamentais.
Elena sentou-se ao lado dele, prestando atenção. Gabriel girou o dial lentamente, passando por dezenas de frequências mortas, até que um som picotado, mas perceptível, cortou o ruído branco.
“...atenção... repito... todos os civis sobreviventes na Região Metropolitana... ponto de evacuação seguro estabelecido no Estádio do Pacaembu... Forças Armadas e equipe médica de prontidão... rotas marítimas e aéreas operacionais até as 18 horas de hoje... após este horário, a zona será selada...”
A mensagem repetia-se em loop, gravada e mecânica.
— O Pacaembu — disse Elena, calculando mentalmente a distância. — Fica a cerca de três quilômetros daqui. Mas o apartamento do Leo...
— Fica no sentido oposto — completou Gabriel, o olhar subitamente sombrio. Ele encarou o visor do rádio. — O Pacaembu está a oeste. O apartamento do Leo fica a leste, perto da praça.
O silêncio caiu entre os dois como uma lâmina. Elena conhecia a matemática da sobrevivência: tentar ir até o apartamento e depois cruzar de volta para o estádio antes das seis da tarde era quase impossível a pé, considerando o estado das ruas e a densidade das criaturas.
— Se formos para o estádio agora, você garante sua evacuação — disse Gabriel, olhando para ela com uma expressão indecifrável. — É a sua chance de ter um centro cirúrgico, segurança, comida...
— Não diga bobagens — interrompeu Elena, a voz dura. — Nós combinamos que iríamos juntos. Não vou deixar você ir sozinho para o meio da cidade.
— Elena, você ouviu o rádio. Se perdermos esse prazo, não sabemos se haverá outro resgate. Você é médica, eles precisam de você lá. Eu não posso pedir para você arriscar a sua vida pelo meu irmão.
Elena segurou o rosto de Gabriel com as duas mãos, forçando-o a olhar diretamente em seus olhos.
— Você não está pedindo. Eu estou escolhendo — disse ela com uma firmeza inabalável. — Não sobrevivi até aqui para abandonar o único homem que me lembrou como é ser humana no meio desse inferno. Nós vamos buscar o Leo. E depois nós dois daremos um jeito de chegar àquele estádio.
Gabriel piscou, surpreso pela intensidade da declaração dela. Uma mistura de alívio e afeição profunda transpareceu em seu rosto. Ele cobriu as mãos de Elena com as suas e puxou-a para um beijo rápido e ardente.
— Então é melhor nos pressentarmos — disse ele, levantando-se e oferecendo a mão para ajudá-la a ficar de pé. — Temos menos de nove horas.