Fico pensando se a gente que trabalha mesmo percebe isso ou passa sem ver. Tipo, a porta que fechei pra chegar aqui foi tanta coisa que nem lembrava de contar.
~ O que ficou do outro lado da escolha.
Hoje, antes de sair de casa, fiquei alguns minutos olhando para a xícara de café sobre a mesa.
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Fico pensando se a gente que trabalha mesmo percebe isso ou passa sem ver. Tipo, a porta que fechei pra chegar aqui foi tanta coisa que nem lembrava de contar.
Conteúdo da publicação
Hoje, antes de sair de casa, fiquei alguns minutos olhando para a xícara de café sobre a mesa.
Eu poderia terminar o café ali.
Poderia levá-lo comigo.
Parecia uma escolha tão pequena que quase não merecia ser chamada de escolha.
Mas talvez a vida seja feita justamente dessas coisas que não parecem importantes enquanto acontecem.
A gente escolhe o que vestir, o caminho que vai fazer, se vai responder uma mensagem agora ou depois, se vai economizar ou comprar, se vai aceitar o convite, se vai ficar mais cinco minutos na cama.
E, sem perceber, passa o dia inteiro escolhendo.
Depois, passa a vida.
Há alguma coisa de assustadora nisso.
Porque escolher não é apenas determinar o que vem.
É também eliminar, silenciosamente, aquilo que poderia ter vindo.
Quando você escolhe uma profissão, não escolhe apenas um trabalho. Escolhe os dias que provavelmente viverá dentro dele, as pessoas que conhecerá, os horários que terá, o dinheiro que ganhará, o cansaço que carregará para casa.
Quando escolhe uma cidade, deixa de conhecer todas as ruas da outra.
Quando escolhe estudar uma coisa, deixa de estudar outras naquele mesmo tempo.
Quando decide ficar, alguma possibilidade de partida desaparece.
Quando decide partir, alguma versão da permanência morre.
Até não escolher é escolher.
O tempo decide por nós aquilo que tivemos medo de decidir.
É por isso que existe decisões que parecem maiores do que deveriam.
Não é a decisão em si.
É tudo aquilo que vem junto dela e que não conseguimos enxergar.
Porque nenhuma escolha vem sozinha.
Ela traz consigo dezenas de pequenos futuros que deixam de existir.
E ninguém nos prepara para isso.
Aprendemos a comemorar aquilo que conquistamos, mas quase nunca aprendemos a olhar para aquilo que abandonamos no caminho.
Existe uma espécie de luto escondido nas escolhas.
Não necessariamente tristeza.
Às vezes, apenas a consciência súbita de que aquela outra possibilidade não estará mais disponível.
É como fechar um livro no meio de várias histórias e aceitar que você só poderá continuar uma delas.
As outras permanecem ali.
Não acontecerão.
E isso não significa que você tenha escolhido errado.
Essa é a parte mais difícil de entender.
Nem tudo o que deixamos para trás foi um erro.
Algumas coisas simplesmente foram possibilidades.
E possibilidade não é promessa.
Há uma vida que você poderia ter vivido.
Outra cidade.
Outra profissão.
Outro curso.
Outro ritmo.
Outra versão de você.
Talvez você pudesse ter aprendido um instrumento.
Talvez tivesse viajado mais cedo.
Talvez tivesse dito sim para aquela oportunidade.
Talvez tivesse dito não.
Talvez tivesse começado antes.
Talvez tivesse esperado mais.
Há infinitos “você” possíveis espalhados pelo caminho.
Mas apenas um deles acordou hoje.
E a maturidade está justamente em parar de exigir que esse um seja todos os outros.
Porque existe uma violência em passar a vida comparando o que somos com aquilo que poderíamos ter sido.
A pessoa que poderia ter viajado mais.
O profissional que poderia ter arriscado mais.
O estudante que poderia ter começado antes.
Aquele que poderia ter escolhido diferente.
Mas o “poderia” não paga aluguel, não devolve tempo, não abre novamente todas as portas.
Ele apenas pergunta.
E pergunta não é destino.
Talvez seja por isso que algumas escolhas precisem ser enterradas com respeito.
Sem arrependimento.
Sem romantizar o que não aconteceu.
Sem transformar cada caminho não escolhido em uma versão melhor da nossa vida.
Porque não sabemos.
A vida que não vivemos também teria seus atrasos, suas contas, seus dias ruins, suas dúvidas e suas manhãs em que o café esfriaria sobre a mesa.
Não existe garantia de felicidade do outro lado de uma escolha.
Existe apenas o outro lado.
E nós vamos descobrir o que existe quando chegarmos lá.
É por isso que toda escolha tem alguma coisa de nascimento e alguma coisa de morte.
Algo começa a existir.
Algo deixa de existir.
Uma possibilidade ganha corpo enquanto outras desaparecem no escuro.
Viver é aceitar essa matemática estranha:
não podemos ter tudo,
não podemos ser todos,
não podemos voltar para experimentar o outro caminho.
Mas podemos estar inteiros naquele que escolhemos.
Essa é a verdadeira coragem.
Não a de ter certeza.
Mas a de escolher mesmo sem ela.
E depois não passar o resto da vida olhando para a estrada ao lado.
Porque chega uma hora em que é preciso entender:
a escolha não precisa ter sido perfeita.
Ela só precisa ser vivida.
O café esfria.
A manhã passa.
A porta se fecha.
E, enquanto uma possibilidade fica para trás, outra começa exatamente onde colocamos os pés.
A vida é isso.
Uma sequência de pequenas mortes que abrem espaço para alguma coisa continuar nascendo.
E o mais bonito não é conseguir escolher certo.
É conseguir viver aquilo que escolhemos.
Agora não passe sem me responder uma coisa:
Se toda escolha fecha uma porta, qual porta você decidiu fechar para chegar até aqui?
Thoughts
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PermalinkAvô meu dizia que não adianta chorar pela porta fechada porque você já vai fechar outra antes de notar. Acho que era sobre isso.
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PermalinkSe a verdadeira coragem é viver aquilo que escolhemos sem remoer o que deixou, como você sabe que conseguiu e não tá só fingindo pra si?
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PermalinkAquela porta que ela pergunta no final... tem gente que fecha sem nem ver que tá fechando? Ou a gente sempre sabe mais ou menos?
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PermalinkPassei vinte anos naquela empresa pensando se deveria ter feito outra coisa. Aí saí e começou outra fita. A gente quer curá do que não fez tanto quanto do que fez.
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PermalinkExiste uma espécie de luto escondido nas escolhas. Essa aí fica, não sai da cabeça.
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PermalinkQuando você diz que nenhuma escolha vem sozinha, você tá falando daquela sensação de que tudo se encadeia ou mais daquilo que você abandona junto?
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PermalinkAchei pesado demais essa parte de viver todas aquelas outras versões de mim ao mesmo tempo. Mas é verdade, fica mesmo.
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PermalinkFico pensando se a gente que trabalha mesmo percebe isso ou passa sem ver. Tipo, a porta que fechei pra chegar aqui foi tanta coisa que nem lembrava de contar.